Zuckerberg alega dificuldade para barrar menores no Instagram
CEO da Meta afirma em tribunal que crianças mentem idade e enfrenta questionamentos sobre segurança e lucro nas redes sociais
247 - O presidente-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, afirmou nesta quarta-feira (18) que é “muito difícil” garantir o cumprimento das regras de idade mínima no Instagram. O depoimento ocorreu no Tribunal Superior de Los Angeles, em um julgamento que discute a responsabilidade de plataformas digitais por supostos danos à saúde mental de jovens usuários.
Segundo informações publicadas pelo jornal Valor Econômico, o executivo foi questionado de forma incisiva sobre o número de crianças menores de 13 anos que utilizam o aplicativo. Ao júri, Zuckerberg declarou que a empresa implementou “ferramentas proativas” para identificar e remover contas que violam as políticas da plataforma, mas reconheceu que o desafio persiste. “Há um grupo de pessoas — possivelmente um número significativo — que mentem sobre a própria idade”, afirmou.
O julgamento teve início no domingo (9) e gira em torno da ação movida por Kaley G. M., de 20 anos, que responsabiliza o Instagram, da Meta, e o YouTube, do Google, por problemas de saúde mental que teriam se estendido por anos. Identificada nos autos também pelas iniciais K.G.M., a jovem acompanhou parte do depoimento, embora tenha se ausentado de diversas sessões após seu advogado, Mark Lanier, alegar que a exposição poderia ser traumática.
Durante o interrogatório, Lanier afirmou que Kaley criou uma conta no Instagram aos nove anos de idade e questionou Zuckerberg: “O senhor espera que uma criança de nove anos leia todas as letras miúdas?”. A pergunta buscou reforçar a tese de que os mecanismos de controle da plataforma seriam insuficientes para proteger menores.
Zuckerberg também relatou que houve discussões internas na Meta sobre a “sensibilidade à privacidade” ao exigir a data de nascimento no cadastro de novos usuários. A empresa decidiu adotar a medida. “Acho que, com o tempo, chegamos ao lugar certo”, declarou. “Sempre desejei que tivéssemos chegado lá antes.”
A Meta sustenta que a verificação etária deveria ocorrer antes mesmo do download dos aplicativos, atribuindo essa responsabilidade às empresas que controlam os sistemas operacionais móveis, como Apple e Alphabet, controladora do Google. As companhias têm atuado em assembleias estaduais nos Estados Unidos para influenciar propostas legislativas que definam quem deve responder por esse tipo de controle.
O caso é considerado estratégico porque pode influenciar milhares de outras ações judiciais contra gigantes da tecnologia, incluindo TikTok e Snap Inc. Essas duas empresas não participam do processo atual após firmarem acordos confidenciais com os advogados da jovem, ligados ao Social Media Victims Law Center, sediado em Seattle. O julgamento deve se estender até o fim de março.
As plataformas negam irregularidades e afirmam ter implementado salvaguardas robustas para usuários jovens. Ainda assim, enfrentam o risco de indenizações bilionárias caso os júris entendam que houve falhas na proteção de menores.
No início do processo, Lanier informou aos jurados que pretendia “sabatinar” Zuckerberg sobre as metas da empresa relacionadas à atração e retenção de adolescentes, além do equilíbrio entre interesses comerciais e segurança. Nesta quarta-feira (18), o advogado apresentou um memorando de 2015 no qual o executivo estabelecia como objetivo “reverter a tendência entre os adolescentes” e “aumentar o tempo gasto em 12%”.
Ao comentar metas anteriores, Zuckerberg reconheceu: “Costumávamos dar às equipes metas de tempo” de uso dos aplicativos. Segundo ele, essa política foi abandonada porque “não acho que seja a melhor forma de administrar a empresa”.
Documentos internos divulgados nos últimos anos indicaram que a Meta monitorava a queda de engajamento de adolescentes no Facebook e discutia estratégias para “otimizar” as plataformas para esse público. Mais recentemente, a companhia passou a priorizar jovens adultos, ajustando algoritmos para ampliar a exibição de conteúdos fora da rede direta de amigos, modelo popularizado pelo TikTok.
A tensão entre lucro e segurança também apareceu no depoimento de Adam Mosseri, chefe do Instagram, realizado na terça-feira (11). Lanier o questionou sobre a decisão de suspender a proibição de filtros que simulam cirurgias estéticas. E-mails internos mostraram Mosseri e Zuckerberg apoiando o fim da restrição mesmo após dúvidas levantadas por funcionários sobre possíveis impactos negativos dos chamados “filtros de beleza”.
O advogado também citou o antigo lema do Facebook, criado por Zuckerberg — “Mova-se rápido e quebre coisas” — ao indagar sobre os testes prévios de impacto de novos recursos antes do lançamento ao público.
A Meta já enfrentou críticas públicas por falhas na proteção de adolescentes. Documentos tornados públicos em 2021 revelaram que funcionários reconheciam potenciais efeitos negativos do Instagram sobre jovens, especialmente meninas. Em outro processo, movido pela Federal Trade Commission (FTC) em Washington no ano passado, vieram à tona registros indicando que sistemas automatizados do Instagram recomendavam conexões entre aliciadores de menores e crianças na plataforma.
Em janeiro de 2024, durante audiência no Congresso dos Estados Unidos sobre segurança digital, Zuckerberg pediu desculpas a famílias de vítimas de exploração sexual nas redes sociais.
Nos últimos anos, a empresa anunciou medidas para reforçar a proteção de adolescentes. No fim de 2024, lançou as chamadas “contas para adolescentes”, que limitam automaticamente determinados conteúdos e interações para menores de 18 anos. Em outubro, ajustou as configurações-padrão para um nível descrito como “PG-13” para usuários abaixo dessa faixa etária e restringiu transmissões ao vivo por adolescentes mais jovens.


