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Casas Bahia atrasa repasses a lojistas, enfrenta gargalos logísticos e recorre aos Correios para entregas

Problemas no marketplace, atrasos de pagamentos e limitações financeiras pressionam operação da varejista em meio a reestruturação e juros elevados

Casas Bahia (Foto: Reprodução redes sociais)

247 – A Casas Bahia enfrenta atrasos em repasses financeiros a lojistas parceiros do seu marketplace, dificuldades logísticas e postergação de pagamentos a transportadoras, em um cenário que revela desafios operacionais e financeiros da companhia. As informações foram reveladas em reportagem exclusiva do jornal Valor Econômico, que apurou problemas nas operações da varejista enquanto a empresa conduz um processo de reestruturação após a recuperação extrajudicial iniciada em 2024.

Segundo a reportagem, a companhia passou a enfrentar gargalos logísticos desde o final de 2025, o que levou à utilização da estrutura dos Correios para realizar entregas de produtos vendidos em sua plataforma digital. A decisão ocorre após um aumento de demanda que não conseguiu ser absorvido dentro dos prazos previstos pelo sistema logístico tradicional da empresa.

Embora as dificuldades logísticas e os atrasos nos repasses tenham origens distintas, ambas as situações se cruzam e impactam a operação da rede. O quadro ocorre às vésperas da divulgação do balanço financeiro de 2025, prevista para 11 de março.

Pressão dos juros e impacto na estrutura operacional

De acordo com fontes ouvidas pela reportagem, o cenário de juros elevados — em torno de 15% ao ano — pressionou as despesas financeiras da companhia e influenciou decisões de investimento ao longo de 2025. Nesse contexto, determinados aportes em logística e distribuição teriam sido afetados.

Entre janeiro e setembro de 2025, a Casas Bahia investiu cerca de R$ 18 milhões em logística, valor equivalente ao dobro do registrado em 2024. Apesar do aumento, o montante representa menos de 10% do total investido pela empresa no período, que somou R$ 245 milhões.

O Valor Econômico também apurou que ocorreram atrasos de aproximadamente 60 dias no envio de produtos vendidos no último trimestre de 2025 dentro do sistema de fulfillment, modelo em que a empresa assume coleta, armazenamento e entrega de mercadorias vendidas por lojistas parceiros.

Além disso, limitações no estoque de determinados produtos teriam surgido em razão da restrição de crédito de fornecedores — um reflexo ainda do processo de recuperação extrajudicial enfrentado pela companhia.

Uma pessoa próxima à empresa afirmou que o crescimento das vendas digitais no fim do ano contribuiu para a pressão sobre a logística. Segundo a fonte, “a questão é que o on-line foi muito bem no fim de ano, vendemos muito, é uma boa notícia e estamos já ajustando isso”.

Gargalos na distribuição e envio pelos Correios

Problemas logísticos também resultaram em atrasos na entrega de produtos de alto valor. Uma fonte ouvida pela reportagem afirmou que havia mais de 400 unidades do console PlayStation 5 paradas no sistema logístico da empresa, apesar de já terem sido vendidas.

De acordo com o relato, a empresa passou a utilizar os Correios para tentar acelerar as entregas e evitar novos adiamentos.

Segundo essa fonte, “há mais de 400 PS5 parados na logística, de vendas já feitas no ano, e eles estão mandando pelos Correios para evitar ainda mais adiamentos”.

O mesmo interlocutor acrescentou que as dificuldades refletem limitações estruturais e financeiras da companhia. “A questão é que falta infra e falta dinheiro para estruturar a fundo porque o foco é a dívida”, afirmou.

Dados do balanço da empresa até setembro de 2025 indicam aumento de quase 50% no caixa gerado pelas atividades operacionais, que chegou a R$ 10,8 bilhões. Entretanto, aproximadamente R$ 9 bilhões foram destinados ao pagamento de dívidas e juros, valor cerca de 40% superior ao registrado em 2024.

Atrasos em repasses a vendedores do marketplace

Além das dificuldades logísticas, lojistas que vendem produtos no marketplace da Casas Bahia relataram atrasos no recebimento dos valores das vendas.

Segundo fontes ouvidas pelo Valor Econômico, houve casos de adiamentos superiores a 30 dias no repasse de recursos provenientes de compras realizadas via Pix. Nesse modelo de pagamento, o dinheiro é transferido diretamente para o sistema financeiro da empresa antes de ser repassado ao vendedor parceiro.

Um executivo do setor de meios de pagamento explicou à reportagem que esse tipo de operação pode gerar riscos operacionais. “Quando o dinheiro do Pix entra na conta de varejo das empresas, há o risco de misturar com a conta geral das varejistas”, afirmou.

Ele acrescentou que o sistema de cartão de crédito possui regras regulatórias que separam automaticamente os recursos. “Pode misturar os bolsos, o que não acontece no cartão, que tem várias camadas de segurança, porque é um sistema regulado”, disse.

Segundo relatos de pessoas com conhecimento das operações, os atrasos nos repasses teriam ocorrido ao longo de vários meses. “No marketplace atrasa geral. Por exemplo, tem repasse no dia 20 do mês que o ‘seller’ fica 30 dias para receber, mas o dinheiro já entrou”, afirmou uma fonte.

A mesma pessoa acrescentou que “são mais de seis meses com atrasos”.

Falhas operacionais e resposta da empresa

Uma fonte ligada ao grupo afirmou ao Valor que houve uma falha temporária na separação dos recursos destinados aos vendedores, o que exigiu ajustes manuais no sistema durante alguns dias.

Procurada pela reportagem, a Casas Bahia confirmou que identificou uma inconsistência operacional relacionada aos pagamentos via Pix, mas afirmou que o problema foi pontual.

Em nota, a empresa declarou que “foi identificada uma inconsistência operacional temporária e restrita ao fluxo de liquidação via Pix, o que motivou uma atualização sistêmica”, acrescentando que a operação já foi normalizada.

A companhia também informou que os pagamentos realizados por meio de cartão de crédito continuam ocorrendo normalmente.

Ajustes financeiros e postergação de pagamentos

Internamente, a empresa também teria adotado medidas para melhorar seu ciclo financeiro. Entre elas estaria o adiamento de cerca de 15 dias no pagamento a transportadoras ao longo de 2025.

Segundo a reportagem, houve ainda postergação de pagamentos a prestadores de serviços digitais, incluindo o Google, fornecedor de tecnologia utilizado nas plataformas da varejista. Procurada, a empresa de tecnologia preferiu não comentar.

Ajuste de estoques e impacto nas lojas físicas

Outro episódio citado por fontes ouvidas pelo Valor envolve uma interrupção temporária no envio de produtos ao centro de distribuição da rede em São Bernardo do Campo (SP).

A medida teria sido adotada para equilibrar estoques diante da desaceleração nas vendas das lojas físicas no início de 2026.

No jargão do setor varejista, a decisão é conhecida como “fechar a porta do CD”, quando empresas interrompem temporariamente o recebimento de mercadorias da indústria até normalizar os níveis de estoque.

Segundo uma fonte, “fevereiro foi muito fraco para a loja física, especificamente, e melhor no digital. A esperança é que março reverta, sendo um mês cheio, sem feriados”.

As lojas físicas da Casas Bahia são tradicionalmente mais dependentes do consumo de famílias de renda mais baixa, segmento que tem sido mais afetado pelo aumento do endividamento e da inadimplência no país.

Reclamações de consumidores cresceram

Nos últimos 12 meses, a operação online da Casas Bahia recebeu cerca de 70,3 mil reclamações no site Reclame Aqui, onde a avaliação da empresa era classificada como regular.

No período mais recente de seis meses, entretanto, o desempenho caiu para a classificação “ruim”, com aproximadamente 45 mil reclamações registradas.

Apesar das dificuldades operacionais, as negociações com grandes fornecedores — como fabricantes de televisores e celulares — não teriam sido impactadas, segundo a reportagem.

Recuperação extrajudicial e plano de reestruturação

A Casas Bahia entrou em recuperação extrajudicial em 2024 e desde então executa um plano de reestruturação financeira. O programa inclui renegociação de dívidas, alongamento de prazos com bancos, conversão de débitos em ações e redução de despesas operacionais.

Como parte desse processo, a empresa renegociou aproximadamente R$ 4 bilhões em dívidas, convertidas em diferentes séries de debêntures, com o objetivo de reforçar o caixa e reorganizar sua estrutura de capital.

Em relatório divulgado no fim de 2025, o analista Luiz Guanais, do BTG Pactual, avaliou que a empresa apresentou melhora operacional, mas ainda enfrenta limitações financeiras.

Segundo ele, “a receita manteve a tendência de melhora observada nos últimos trimestres e, combinada com ganhos de eficiência em despesas gerais e administrativas, proporcionou melhorias bem-vindas nos números operacionais”.

O analista destacou, contudo, que a elevada alavancagem financeira continua sendo um desafio. “Ainda assim, a alta alavancagem continua a restringir os resultados financeiros, o lucro líquido e a geração de fluxo de caixa. O foco permanece na estrutura de capital”, afirmou.

Em nota ao Valor Econômico, a Casas Bahia afirmou que segue executando seu plano estratégico com disciplina financeira e rigor na gestão operacional.

A empresa também declarou que concluiu, em dezembro de 2025, uma operação relevante que fortaleceu seu balanço e ampliou sua flexibilidade financeira por meio do alongamento do pagamento de passivos.

Segundo a companhia, todos os centros de distribuição operam normalmente e a empresa permanece focada na eficiência, geração de caixa e execução de sua estratégia de longo prazo.

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