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Donos da Raízen abandonam negociação e Shell tenta plano próprio para evitar colapso financeiro

Conversas entre Cosan e Shell para capitalizar a produtora de açúcar, etanol e combustíveis fracassam

Raízen (Foto: Reuters)

247 – As negociações para socorrer a Raízen SA fracassaram depois que os co-controladores Cosan SA e Shell Plc não chegaram a um acordo sobre um plano de aumento de capital, reduzindo drasticamente as alternativas da companhia para sair de uma crise de endividamento. As informações foram divulgadas pela Bloomberg, com base em relatos de pessoas familiarizadas com as conversas.

O impasse ocorre num momento em que a Raízen busca recursos novos após enfrentar juros elevados, safras abaixo do esperado e apostas que não deram resultado. O cenário derrubou os preços de seus títulos, provocou rebaixamentos de rating e chegou a chamar a atenção do presidente Lula, aumentando a pressão sobre controladores e credores para evitar um desfecho mais traumático.

Ruptura entre Cosan e Shell e o recuo do BTG

Segundo pessoas com conhecimento das discussões, a Cosan concluiu que não conseguiria igualar o tamanho do suporte financeiro que a Shell se dispôs a oferecer à Raízen. Outras propostas apresentadas pela Cosan teriam sido rejeitadas pela Shell no curso das tratativas.

Além disso, fundos de private equity administrados pelo Banco BTG Pactual SA, que também participavam das conversas, teriam discordado de diversos termos propostos pela Shell e desistido de aportar recursos na Raízen. Em paralelo, a Cosan teria deixado de planejar uma injeção de 1 bilhão de reais na companhia, valor que chegou a ser cogitado anteriormente nas negociações com a Shell.

A desistência do BTG também atingiu um ponto sensível do tabuleiro. Os fundos teriam abandonado a ideia de adquirir uma fatia relevante do negócio de distribuição de combustíveis da Raízen por cerca de 5,5 bilhões de reais, em uma tentativa de reconfigurar o grupo e atrair capital para a operação.

A aposta da Shell: R$ 3,5 bilhões e mudança no controle

Com o colapso da negociação conjunta, a Shell passa a concentrar a principal alternativa de curto prazo. A empresa, sediada em Londres, anunciou publicamente um compromisso de investir 3,5 bilhões de reais em capital novo na Raízen e deve levar um plano próprio aos bancos credores.

A proposta descrita incluiria ainda a possibilidade de 500 milhões de reais em capital vindo de Rubens Ometto, fundador da Cosan, além da conversão de aproximadamente 25 bilhões de reais de dívida em ações. O efeito seria uma melhora contábil relevante no balanço, mas com um custo claro para os atuais acionistas, já que a diluição seria elevada.

O plano também redesenharia o comando da companhia. A Shell poderia se tornar acionista majoritária, e a proposta exigiria que a petroleira absorvesse a dívida da Raízen no seu próprio balanço e assumisse a gestão do negócio, uma mudança estrutural que pode reposicionar a empresa no mercado brasileiro de combustíveis e bioenergia.

Credores pressionam por um aporte maior e risco de proteção judicial cresce

Os credores vêm pressionando Shell e Cosan a injetarem até 12 bilhões de reais, argumentando que se trata de grupos rentáveis e com caixa para contribuir além do que foi colocado à mesa. Parte deles sustenta que a necessidade total de capital pode ser muito maior, na casa de 25 bilhões de reais, o que evidencia a dimensão do rombo e a complexidade da solução.

Nesse contexto, a proposta da Shell é tratada como a melhor chance de evitar que a Raízen recorra a um pedido de proteção contra credores. Se o plano não for aceito pelos bancos e detentores de dívida, o caminho mais provável passa a ser uma medida de proteção judicial, com potencial de intensificar perdas para credores e ampliar incertezas para fornecedores, cadeia de produção e distribuição, além do setor sucroenergético.

O risco, porém, não recai apenas sobre a Raízen. Um eventual desfecho negativo pode atingir a Cosan, dada a exposição do conglomerado ao ativo e o próprio nível de endividamento ainda considerado desafiador, mesmo após a companhia ter recebido uma injeção de capital do BTG no fim do ano passado.

Ometto, BTG e os nós do contrato de royalties e da reestruturação

A engrenagem societária por trás do caso também está no centro da crise. O BTG Pactual Holding SA, veículo de investimento dos sócios do banco, aportou 4,5 bilhões de reais na Cosan em uma operação de aumento de capital no ano passado. Rubens Ometto manteve o controle dos direitos de voto com 50,01% de participação via Aguassanta, mas os sócios do BTG se tornaram os maiores acionistas econômicos, com quase 25%.

Nos bastidores, a discordância com a Shell teria passado por pontos técnicos e estratégicos. Entre eles, alterações no contrato de royalties para uso da marca da petroleira, incluindo duração e valor dos pagamentos. Também houve divergências sobre o tamanho da conversão de dívida em capital, o nível de redução de alavancagem considerado necessário e o tratamento de passivos fiscais mantidos pela Raízen.

Outro foco de atrito foi o desenho da reestruturação. A Shell teria se oposto a uma proposta dos fundos do BTG que previa reorganização imediata, separando a Raízen Energia, voltada à produção de açúcar e etanol, do braço de distribuição de combustíveis, onde os fundos investiriam.

A posição da Shell sobre a estratégia de recuperação

Em declaração mencionada no material, o principal executivo da Shell no Brasil, Cristiano Pinto da Costa, defendeu que a prioridade deveria ser a recapitalização antes de qualquer cisão operacional, dada a interdependência das áreas e a complexidade do endividamento.

Ele afirmou: “Essa é a visão da Shell e dos principais credores. Se fizermos isso com a empresa ainda sem estabilidade, pode haver um risco muito alto na implementação dessa estratégia.”

A declaração reflete o diagnóstico de que uma divisão imediata da companhia poderia agravar a situação. Segundo ele, primeiro seria necessário estabilizar o balanço da empresa.

A Shell não descartaria, em tese, uma reestruturação mais ampla que pudesse envolver a separação das operações de energia e de distribuição, mas a avaliação interna é de que a prioridade deve ser fortalecer financeiramente a companhia antes de qualquer mudança estrutural.

O que está em jogo para o mercado de combustíveis e para a bioenergia

A crise da Raízen combina fatores macroeconômicos, como juros elevados, com fragilidades operacionais e decisões de investimento que não entregaram o resultado esperado. Por ser uma empresa com presença relevante em combustíveis, açúcar e etanol, o desfecho tende a repercutir além do mercado financeiro, alcançando o setor sucroenergético e a distribuição.

Com a negociação entre Cosan e Shell desfeita e o BTG fora do aporte direto, o mercado passa a observar a reação dos bancos credores ao plano apresentado pela Shell. Se houver acordo, a empresa pode ganhar fôlego, ainda que com diluição acionária e provável mudança de controle. Caso contrário, cresce a possibilidade de um pedido de proteção contra credores, com impacto em cadeia e potencial de reacender a crise também no entorno da Cosan.

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