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Lula chamou controladores da Raízen e ampliou pressão por resgate financeiro da gigante de açúcar e etanol

Reunião em Brasília reuniu Cosan, Shell e BTG, além de Haddad e Mercadante, enquanto empresa busca capitalização para enfrentar alavancagem

Brasília (DF), 11/02/2026 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa de cerimônia para anúncio de investimentos para ampliação e modernização de 11 aeroportos do país. Serão beneficiados os aeroportos de Congonhas (São Paulo), Campo Grande (MS), Ponta Porã (MS), Corumbá (MS), Santarém (PA), Marabá (PA), Carajás (PA), Altamira (PA), Uberlândia (MG), Uberaba (MG) e Montes Claros (MG). Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil (Foto: EBC)

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou, nas últimas semanas, uma reunião em Brasília com executivos e representantes de empresas diretamente envolvidas nas negociações para socorrer a Raízen SA, uma das maiores produtoras globais de açúcar e etanol, num sinal de preocupação com os impactos econômicos e políticos caso não haja acordo. A informação foi publicada pela Bloomberg, com base em relatos de pessoas familiarizadas com conversas privadas.

Segundo a reportagem, o encontro contou com representantes dos co-controladores da Raízen, Cosan SA e Shell Plc, além de Banco BTG Pactual SA, e também com integrantes do governo. O objetivo, na prática, foi destravar caminhos para reduzir a pressão sobre o balanço da companhia, que enfrenta um quadro de alavancagem elevada e aperto de liquidez, após um novo trimestre ruim e sucessivos rebaixamentos de rating.

Reunião antes do carnaval e novo ciclo de negociações

A reunião ocorreu em Brasília antes do feriado de carnaval e antes da viagem de Lula à Ásia em 18 de fevereiro, ainda de acordo com a Bloomberg. Poucos dias depois, a Raízen formalizou a busca por respaldo financeiro de seus principais acionistas, o que acelerou as negociações sobre como endereçar o endividamento e a necessidade de caixa.

A Bloomberg relatou que, além de representantes de Cosan, Shell e BTG, estavam presentes o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante. A agência também informou que a CEO da Petrobras, Magda Chambriard, teria sido citada como participante por pessoas ouvidas sob condição de anonimato — ponto que foi contestado publicamente.

A Presidência da República não comentou imediatamente, segundo o texto. Cosan, Shell, Raízen, BNDES e Haddad recusaram-se a comentar. O BTG não respondeu aos pedidos de comentário mencionados na reportagem.

Petrobras nega presença e descarta estudar compra de ativos

Um dos trechos mais sensíveis do relato envolve a possibilidade de venda de ativos da Raízen para a Petrobras, descrita como tema levantado na reunião, segundo uma das fontes ouvidas pela Bloomberg. A ideia, porém, não teria avançado, porque propostas alternativas dos acionistas estariam em discussão.

Em declaração citada no material, a Petrobras afirmou que Chambriard não participou de encontro para tratar da Raízen. A estatal também negou avaliar aquisição de ativos da companhia.

Em português, as duas negativas registradas na reportagem são diretas: "Chambriard não participou de qualquer reunião para discutir a Raízen" e "A Petrobras não está estudando a aquisição de ativos da Raízen". Essas afirmações, por virem da própria empresa, reordenam a leitura política do episódio: ainda que o governo acompanhe a crise com atenção, não há, pelo que foi declarado, uma solução baseada em incorporação de ativos pela estatal.

Por que o caso preocupa o governo

O envolvimento pessoal de Lula, conforme a Bloomberg, é interpretado como sinal de preocupação crescente dentro do governo com a deterioração financeira da Raízen em um momento politicamente delicado. A companhia é peça relevante do setor de biocombustíveis no Brasil, área que dialoga com a agenda de transição energética defendida pelo presidente.

A Raízen, segundo o texto, tornou-se um foco de atenção por reunir três elementos ao mesmo tempo: grande escala, ligação com cadeias estratégicas (etanol, açúcar e distribuição) e deterioração acelerada do perfil de crédito. A combinação eleva o risco de contágio — seja em percepção de mercado, seja em efeitos sobre investimentos e confiança — num cenário em que o governo busca sustentar crescimento e atrair capital.

A própria reportagem menciona que a empresa vem sendo pressionada por custos de endividamento mais altos, colheitas abaixo do esperado e uma sequência de investimentos agressivos que ainda não teriam produzido retornos relevantes. O resultado foi um enfraquecimento do crédito, rebaixamentos por agências de rating e queda de valor de títulos, reforçando o sentimento de urgência em torno de um plano de estabilização.

BTG, Shell e Cosan na mesa: propostas, injeção de capital e conversas no exterior

Após a reunião em Brasília, as tratativas teriam se intensificado, com BTG e Shell apresentando propostas. A Bloomberg também relata que novas rodadas de conversas ocorreram em Londres e em São Paulo, indicando que o tema extrapolou o circuito doméstico e ganhou caráter de negociação de alto nível com interlocução internacional.

As alternativas discutidas, conforme o material, incluem possíveis injeções de capital e outras medidas para estabilizar o balanço da empresa. Embora a reportagem não detalhe os termos, o foco descrito é reduzir o estresse de liquidez e reequilibrar a estrutura de capital, atacando a alavancagem que hoje limita a capacidade de financiamento e torna a companhia mais vulnerável a juros elevados e a choques de produtividade no campo.

Nesse contexto, o papel do BTG aparece como duplo: participante do debate sobre soluções e agente relevante no ecossistema financeiro que, em momentos de estresse, costuma ser chamado a estruturar alternativas de mercado. Já a Shell e a Cosan, como controladoras, surgem como atores centrais para qualquer plano de capitalização, pela capacidade de aporte e pelo poder de decisão.

BNDES no centro do impasse: pedido de apoio e resistência interna

Outro ponto-chave revelado pela Bloomberg é a movimentação da Cosan junto ao BNDES para buscar apoio financeiro para a Raízen. A proposta, porém, enfrentaria resistência dentro do banco de fomento, segundo pessoas ouvidas, diante do receio de ampliar exposição ao grupo justamente quando o perfil de crédito da companhia se deteriora.

O texto afirma que, dentro da equipe econômica e do próprio banco, a avaliação seria a de que qualquer apoio teria de estar condicionado a um plano de capitalização “concreto e estruturado”. A exigência funciona como uma linha de proteção institucional: antes de qualquer aval, empréstimo ou arranjo, seria necessário demonstrar como os acionistas pretendem reforçar capital e reduzir riscos de forma verificável.

A reportagem também menciona que o BNDES já havia investido 409 milhões de reais em uma oferta de ações da Cosan, dentro de uma captação de 10 bilhões de reais apoiada por BTG Pactual Holding e Perfin Infra no fim do ano passado. Esse histórico torna a discussão ainda mais delicada, porque amplia o debate interno sobre limite de risco, governança e critérios para novas operações.

O que está em jogo para a Raízen e para o setor

Com a crise, a Raízen passa a ser observada como termômetro para o setor de bioenergia, que combina dinâmica agrícola, volatilidade de preços, investimentos industriais intensivos e dependência de financiamento. Quando juros e custos de capital sobem, empresas muito alavancadas tendem a perder margem de manobra, especialmente se os investimentos recentes ainda não produziram retorno.

Pelo relato da Bloomberg, a janela de decisão parece estreita: há negociações em andamento, propostas na mesa e pressão para que controladores e credores encontrem um arranjo capaz de dar previsibilidade ao caixa. Ao mesmo tempo, a negativa da Petrobras sobre compra de ativos e sobre participação em reunião sinaliza limites claros para leituras de “solução estatal” direta.

A partir do que foi publicado, o centro da equação está nas decisões dos acionistas e na capacidade de construir uma capitalização com estrutura robusta, capaz de enfrentar o peso da alavancagem e recuperar credibilidade. Para o governo, a preocupação seria evitar um episódio de deterioração mais ampla de confiança num setor estratégico, no qual a transição energética depende não apenas de discurso, mas de empresas financeiramente saudáveis para investir e entregar resultados.

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