EUA ampliam financiamento e podem virar sócios de mineradora de terras raras em Goiás
Financiamento sobe para US$ 565 milhões e prevê participação acionária minoritária do governo americano na Serra Verde, única empresa em operação no Brasil
247 - A Serra Verde, única mineradora de terras raras em operação no Brasil, anunciou na quinta-feira (5) que um banco estatal dos Estados Unidos ampliou de forma significativa o financiamento concedido à companhia, elevando o valor total para US$ 565 milhões. O novo acordo também prevê que o governo americano poderá adquirir uma participação acionária minoritária na empresa, reforçando o movimento de Washington para garantir acesso direto a minerais considerados estratégicos.
As informações foram publicadas pela Folha de S.Paulo, que detalhou que a operação envolve a DFC (Development Finance Corporation), agência de financiamento do governo dos EUA. Em novembro, a Serra Verde havia informado que a DFC se comprometera com um aporte de US$ 465 milhões, mas, naquela ocasião, ainda não havia sido divulgada a possibilidade de aquisição de ações por parte do governo americano.
A mineradora atua no norte de Goiás, onde opera uma mina de terras raras, e atualmente exporta toda a produção para a China, país que domina cerca de 60% da extração global e aproximadamente 90% do refino desses minerais. No entanto, a empresa já havia indicado no ano passado que renegociou contratos com compradores chineses para permitir que parte do material fosse direcionada a clientes ocidentais, sem detalhar quais países estariam envolvidos.
A Serra Verde pertence a dois fundos de investimentos americanos e um britânico e enfrenta desafios operacionais que impedem o funcionamento em capacidade plena. Hoje, a mineradora não consegue atingir seu potencial máximo de produção, estimado em 5.000 toneladas de óxido contido no concentrado de terras raras, que é o produto final comercializado pela companhia. Apesar disso, o plano da empresa é ampliar a produção para 6.500 toneladas até o final de 2027.
Em nota divulgada pela companhia, o CEO da Serra Verde, Thras Moraitis, afirmou que o novo financiamento sinaliza a relevância global do projeto. “O anúncio de hoje representa um forte reconhecimento da importância estratégica preeminente da Serra Verde no cenário global. Estamos profundamente gratos pelo apoio do governo dos Estados Unidos e esperamos trabalhar em conjunto para a construção de novas cadeias de valor independentes”, declarou.
Moraitis também destacou o impacto do financiamento na perspectiva de longo prazo da empresa e de setores industriais dependentes desse tipo de insumo. “O compromisso de grande porte da DFC, de quase US$ 600 milhões, assegura um futuro promissor para a Serra Verde e para diversas empresas downstream (etapas finais de um processo produtivo) que dependem de nossas terras raras”, acrescentou.
Ainda não está claro se o contrato prevê obrigações formais para que a Serra Verde destine parte da produção ao mercado americano, especialmente para setores como o de carros elétricos e defesa, que dependem de ímãs produzidos com elementos de terras raras. Segundo a reportagem, porém, fontes familiarizadas com o tema indicam que esse tipo de contrapartida costuma ser comum em acordos dessa natureza.
O anúncio reforça a estratégia dos Estados Unidos de firmar contratos diretos com empresas do setor de minerais críticos no Brasil, mesmo sem aguardar negociações mais amplas com o governo brasileiro. Autoridades brasileiras defendem que parte relevante do processamento desses minerais ocorra dentro do país, como forma de agregar valor à cadeia produtiva nacional.
O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo e vem sendo apontado internacionalmente como uma das principais alternativas ao fornecimento chinês. A Folha relatou que a DFC tem sido usada como instrumento central dessa política de aproximação com empresas brasileiras do setor.
Um exemplo citado foi o contrato assinado em setembro entre a DFC e a Aclara, mineradora com projeto avançado para exploração de terras raras também no norte de Goiás. O acordo, de US$ 5 milhões, prevê que os recursos poderão ser convertidos em ações no futuro e serão usados para financiar o estudo de viabilidade da mina.
Após esse anúncio, a Aclara informou que pretende construir até 2028 uma refinaria nos Estados Unidos para processar o concentrado produzido no Brasil. O investimento previsto para a instalação americana é de US$ 277 milhões, abaixo do montante projetado para Goiás, de US$ 680 milhões, mas considerado estratégico em um setor que ainda depende fortemente da capacidade chinesa de refino.
De acordo com informações divulgadas no site da empresa, a refinaria planejada pela Aclara poderá suprir mais de 75% da demanda americana por elementos pesados de terras raras destinados a veículos elétricos até 2028.
O contexto geopolítico também ganhou destaque na quarta-feira (4), quando o governo americano anunciou, durante um evento sobre minerais críticos, alianças com países da União Europeia, além de Japão e México, para fortalecer a segurança e a resiliência das cadeias de suprimento desses recursos estratégicos.
O chanceler brasileiro Mauro Vieira foi convidado para participar do encontro, mas enviou como representante o ministro-conselheiro Fernando Sena, especialista no tema pela embaixada do Brasil. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, também esteve presente no evento.


