Raízen tem prejuízo bilionário e mercado teme recuperação judicial
Perda de R$ 15,6 bilhões e alerta da sobre continuidade operacional ampliam pressão sobre a companhia
247 – A Raízen registrou prejuízo líquido de R$ 15,6 bilhões no terceiro trimestre da safra 2025/26, conforme balanço divulgado na noite de quinta-feira (12). O resultado, seis vezes superior ao prejuízo de R$ 2,57 bilhões apurado no mesmo período da safra anterior, acendeu um sinal de alerta no mercado financeiro e intensificou temores sobre a capacidade de recuperação da companhia.
As informações foram publicadas pelo Valor Econômico com base nos dados oficiais apresentados pela empresa, joint venture entre Cosan e Shell. O rombo bilionário reflete, sobretudo, uma baixa contábil de R$ 11,1 bilhões relacionada à alienação de ativos, como a saída da rede Oxxo, além da deterioração da geração de caixa no segmento de açúcar e etanol.
Baixa contábil e piora operacional pressionam resultado
Do total do prejuízo registrado no trimestre, R$ 11,1 bilhões decorrem de ajustes contábeis ligados à venda de ativos. Outros R$ 4,5 bilhões refletem a piora da geração de caixa no negócio de açúcar e etanol, segmento que sofreu com condições adversas e acabou anulando a melhora operacional observada na área de distribuição de combustíveis.
O desempenho do braço sucroenergético foi impactado também pelo clima adverso. No acumulado de nove meses da safra, a produção de açúcar caiu 5%, enquanto a de etanol recuou 17,9%, o que reduziu a capacidade de diluição de custos e comprometeu margens.
Ao mesmo tempo, embora a área de distribuição tenha apresentado melhora de rentabilidade, o avanço não foi suficiente para compensar o impacto contábil e operacional negativo no consolidado.
Endividamento cresce e patrimônio líquido fica negativo
A dívida líquida da Raízen encerrou o trimestre em R$ 55,4 bilhões, alta de 43,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. A companhia atribui parte desse aumento a uma decisão estratégica de substituir instrumentos de capital de giro, como operações de risco sacado, por instrumentos financeiros de capital de giro.
Com isso, embora o passivo total — que inclui dívidas com fornecedores e operações com clientes — tenha recuado 2%, para R$ 119,8 bilhões, houve elevação da dívida líquida e maior pressão sobre a alavancagem financeira.
O Ebitda ajustado consolidado somou R$ 3,1 bilhões, queda de 3,3%, enquanto a receita líquida ficou em R$ 60,4 bilhões, retração de 9,7%. A alavancagem subiu de 5,1 vezes no segundo trimestre da safra para 5,3 vezes no terceiro.
O efeito combinado dos prejuízos acumulados levou a empresa, pela primeira vez em sua história, a registrar patrimônio líquido negativo, de R$ 1,1 bilhão. No acumulado da safra, as perdas já somam R$ 19,7 bilhões.
Alerta do auditor aumenta apreensão no mercado
O relatório do auditor independente EY reforçou a gravidade da situação. A empresa destacou que há “incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional da companhia”.
A advertência formal sobre a continuidade operacional ampliou a apreensão entre analistas e investidores, que passaram a discutir com mais intensidade os riscos associados ao elevado nível de endividamento e ao patrimônio líquido negativo.
Apesar da melhora da margem operacional na distribuição — com alta de 35,2% no Ebitda ajustado por metro cúbico, para R$ 215 — o mercado avalia que parte desse avanço decorre da mudança na estrutura de capital de giro, o que pode significar uma transferência de custos operacionais para custos financeiros.
O conjunto dos números — prejuízo bilionário, aumento da dívida, alavancagem elevada e alerta do auditor — colocou a Raízen sob forte pressão. A evolução da geração de caixa nos próximos trimestres e eventuais medidas de reestruturação financeira serão determinantes para afastar, ou não, os temores que começam a circular no mercado sobre a necessidade de soluções mais drásticas para reorganizar a companhia.


