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Shell remete bilhões ao exterior e trava socorro à Raízen, ampliando dúvidas sobre biocombustíveis

Produção acima de 500 mil barris por dia contrasta com recusa de aporte na Raízen e reforça aposta da empresa em novas fronteiras do petróleo

Shell remete bilhões ao exterior e trava socorro à Raízen, ampliando dúvidas sobre biocombustíveis (Foto: Reuters/Michaela Rehle)

247 - A Shell, uma das maiores petrolíferas do planeta, consolidou-se como a segunda maior produtora de petróleo no Brasil, atrás apenas da Petrobras, com produção superior a 500 mil barris diários, ao mesmo tempo em que decisões recentes colocam sob pressão seu discurso público de transição energética e descarbonização.

Ao longo das últimas décadas, a companhia construiu uma narrativa voltada à diversificação da matriz energética, mas sua principal vitrine nesse campo no Brasil — a Raízen, joint venture firmada com a Cosan, maior produtora global de etanol — vive hoje um momento crítico. Criada como um pilar estratégico para integrar distribuição de combustíveis, produção de etanol e investimentos em inovação, a parceria passou a ser vista como um símbolo das contradições entre a retórica ambiental e as decisões de alocação de capital da multinacional.

A operação foi estruturada para impulsionar projetos considerados centrais na agenda de combustíveis renováveis, como o etanol de segunda geração e combustíveis sustentáveis de aviação (SAF). No entanto, apesar de a Shell ter obtido ganhos expressivos ao longo dos cerca de 15 anos de existência da Raízen, a empresa tem resistido a aportar novos recursos na joint venture, que enfrenta elevado nível de endividamento.

A Shell já remeteu ao exterior mais de R$ 3 bilhões em dividendos originados da Raízen. No mesmo período, apenas no segmento de exploração e produção de petróleo no Brasil, a companhia teria enviado à matriz mais de US$ 20 bilhões.

Apesar desse histórico de remessas bilionárias, a empresa tem se recusado a participar de uma capitalização da Raízen, mesmo quando os valores solicitados representariam uma fração pequena do montante anteriormente transferido ao exterior. A postura ocorre em um cenário de juros elevados, retração global de incentivos à descarbonização e redução dos prêmios pagos por combustíveis sustentáveis, fatores que vêm afetando a atratividade econômica do setor.

Estratégia global e o bloqueio ao aporte

Internamente, a decisão de bloquear a capitalização da Raízen é atribuída à área de estratégia corporativa e alocação de capital da Shell. O setor é liderado por Mohammed Hamidi, vice-presidente executivo de Estratégia Corporativa, Planejamento e Relações com Investidores, responsável por direcionar investimentos e preservar a orientação fiscal da empresa diante dos acionistas globais.

A avaliação predominante na alta gestão da companhia seria a de que um eventual colapso do braço de biocombustíveis no Brasil não comprometeria o negócio de exploração e produção de petróleo no país. Essa leitura, porém, é apontada como frágil por especialistas.

No Brasil, o subsolo pertence constitucionalmente à União, e concessões para exploração dependem do cumprimento de obrigações legais, regulatórias e de compromissos ligados à segurança energética. Um eventual processo de recuperação judicial da Raízen, com risco de desabastecimento e enfraquecimento da política nacional de etanol, poderia gerar impactos institucionais e políticos relevantes para a Shell como um todo.

Declarações do CEO reforçam contradição

Declarações recentes do CEO da Shell Brasil, Cristiano Pinto da Costa, ampliaram a percepção de desalinhamento entre o discurso corporativo de transição energética e a prática adotada no país. Em manifestação pública, ele afirmou que o petróleo seguirá como a principal fonte energética mundial na próxima década e declarou interesse da empresa na Margem Equatorial. Além disso, Cristiano Pinto da Costa sustentou que “a última gota de petróleo da Shell virá do Brasil”.

As falas foram interpretadas por analistas como um sinal de que a companhia estaria reforçando sua aposta em novas fronteiras de exploração, enquanto reduz sua exposição ao setor de biocombustíveis — justamente um dos eixos centrais da matriz energética brasileira.

Histórico internacional e riscos socioambientais

O histórico internacional da Shell alimenta preocupações sobre sua capacidade de administrar riscos socioambientais em mercados emergentes. Na Nigéria, a empresa enfrenta há décadas acusações relacionadas a derramamentos de petróleo no Delta do Níger, com impactos ambientais e sociais amplamente documentados.

Há ainda registros de falhas de segurança em plataformas offshore em outros países africanos, associadas a danos ambientais significativos.

No Brasil, a multinacional também esteve associada ao episódio de contaminação ambiental em Paulínia (SP), envolvendo exposição de trabalhadores e moradores a substâncias tóxicas, caso que permanece como uma referência negativa na história ambiental brasileira.

Pressão institucional e desgaste na transição energética

Diante desse conjunto de fatores, cresce a avaliação de que a estratégia atual da Shell — ampliar a extração de valor no upstream, reduzir compromissos no downstream e enfraquecer sua principal aposta em biocombustíveis no país — pode não apenas comprometer sua credibilidade no debate global sobre transição energética, como também expor a empresa a riscos institucionais concretos no Brasil.

Autoridades e instituições brasileiras vêm sinalizando maior disposição para aplicar a Constituição, a legislação ambiental e instrumentos regulatórios disponíveis. Nesse cenário, a percepção de que uma multinacional do porte da Shell permaneceria imune a um ambiente político e jurídico mais assertivo pode se revelar um cálculo estratégico arriscado, com potencial de gerar custos elevados para a companhia no país.

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