“A democracia não morreu e ninguém precisa ter vergonha de ser de esquerda”, diz Lula em Barcelona
Presidente defende coerência das forças progressistas, critica o neoliberalismo e afirma que a extrema direita representa ameaça real à democracia
247 – “A democracia não morreu e ninguém precisa ter vergonha de ser de esquerda.” Com essa declaração, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu neste sábado, 18, em Barcelona, um dos trechos mais marcantes de seu discurso na Mobilização Progressista, encontro internacional que reuniu lideranças e militantes em defesa da democracia, da justiça social e do multilateralismo. A íntegra da fala foi divulgada pela TV 247.
Ao elogiar a realização do evento, Lula parabenizou o presidente do governo da Espanha, Pedro Sánchez, pela iniciativa de reunir forças progressistas num momento de ascensão da extrema direita e de agravamento das tensões internacionais. Em sua fala, o presidente afirmou que o encontro buscou mostrar ao mundo que “a democracia não morreu” e que “ninguém precisa ter vergonha de ser progressista ou de ser de esquerda”.
Lula também destacou a atitude de Sánchez diante do cenário de guerra e fez um elogio direto ao líder espanhol. “O meu elogio, meu querido Pedro Sánchez, é pelo fato de você ter tido a coragem e não permitir que os aviões de guerra dos Estados Unidos não saíssem daqui para atirar no Irã”, afirmou, sob aplausos.
O presidente brasileiro sustentou que a reunião em Barcelona não poderia ser um ato isolado nem um gesto meramente simbólico. Segundo ele, o que está sendo construído deve se transformar em um movimento permanente, com ação contínua ao longo de todo o ano. “O que nós estamos fazendo aqui é o começo de um movimento que tem que agir todo santo dia, durante toda semana, todo mês e durante 365 dias por ano, para que a gente restabeleça a coisa mais sagrada no mundo, que é a democracia e o multilateralismo”, disse.
Na parte central do discurso, Lula procurou definir o sentido político da iniciativa. Para ele, as palavras “mobilização”, “global” e “progressista” não devem ser vistas apenas como slogan, mas como um verdadeiro programa de ação. O presidente afirmou que a política continua dividida entre dois campos: de um lado, os que colocam os interesses individuais acima da coletividade; de outro, os que entendem que o bem-estar de cada pessoa depende da garantia de uma vida digna para todos.
Lula reconheceu que o campo progressista avançou em diversas pautas de direitos nas últimas décadas, especialmente na defesa dos trabalhadores, das mulheres, da população negra e de outras minorias. Ao mesmo tempo, ressaltou que a reação conservadora se intensificou justamente como resposta a esses avanços. Em sua avaliação, misoginia, racismo e discurso de ódio passaram a ser instrumentos centrais das forças reacionárias.
O fracasso do neoliberalismo
O presidente também fez uma das críticas mais contundentes de sua fala ao modelo econômico dominante. Segundo Lula, o neoliberalismo fracassou ao prometer prosperidade e entregar fome, desigualdade e insegurança. “O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise”, afirmou. Na sequência, fez uma autocrítica ao campo progressista ao dizer que, muitas vezes, governos de esquerda vencem eleições com discurso popular, mas acabam reproduzindo a lógica da austeridade e da renúncia a políticas públicas em nome da governabilidade.
Para Lula, essa contradição ajudou a abrir espaço para que a extrema direita passasse a se apresentar como força antissistema. “O primeiro mandamento para os progressistas tem que ser a coerência. Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo”, declarou.
Em outro trecho de forte apelo social, o presidente listou demandas concretas da população para sustentar que, mesmo quando parte da sociedade não se identifica como progressista, ela deseja exatamente aquilo que as forças populares defendem. “Ela quer comer, comer bem, morar bem. Escola de qualidade, hospitais de qualidade, uma política climática séria e responsável”, afirmou. Lula acrescentou que a população quer “um mundo limpo e saudável, um trabalho digno, com jornada de trabalho equilibrada, um salário que permita uma vida confortável”.
Ao abordar o crescimento da extrema direita, Lula afirmou que esse campo soube explorar o mal-estar gerado pelas promessas não cumpridas do neoliberalismo. Segundo ele, a frustração social foi manipulada por meio de mentiras e da disseminação do ódio contra mulheres, negros, população LGBT e imigrantes. Em contraposição, disse que cabe às forças progressistas apontar os verdadeiros responsáveis pela desigualdade.
Bilionários concentram renda e riqueza
“O nosso papel é apontar o dedo para os verdadeiros culpados. Um punhado de bilionários concentra a maior parte da riqueza mundial”, declarou. Lula criticou ainda a “falácia da meritocracia”, afirmando que os mais ricos acumulam privilégios, pagam menos impostos, exploram trabalhadores e destroem a natureza. “A desigualdade não é um fato, é uma escolha política. O que faz de nós progressistas é escolher a igualdade”, resumiu.
No plano internacional, Lula afirmou que não há solução nacional duradoura em um mundo atravessado por guerras, fome, crise climática e assimetrias econômicas profundas. Em uma das passagens mais duras do discurso, condenou os conflitos armados e o volume de recursos gasto com armamentos. “Os senhores da guerra jogam bombas em mulheres e crianças, gastam em armas bilhões de dólares que poderiam ser usados para acabar com a fome, resolver o problema energético e o problema da saúde”, disse.
O presidente também afirmou que o Sul Global segue sendo penalizado por guerras que não provocou e por mudanças climáticas que não causou. Segundo ele, os países em desenvolvimento continuam tratados como fornecedores de matérias-primas e vítimas de tarifas abusivas e dívidas impagáveis. Diante disso, defendeu um multilateralismo reformado, baseado na igualdade entre as nações e no fortalecimento das instituições internacionais.
Combate à fome e multilateralismo
Lula afirmou que ser progressista na arena internacional significa defender a paz, combater a fome, proteger o meio ambiente e reconstruir a credibilidade da ONU, desgastada, segundo ele, pela irresponsabilidade de membros permanentes do Conselho de Segurança. Também defendeu mudanças em organismos como o Banco Mundial, o FMI e a Organização Mundial do Comércio, de modo a colocar países desenvolvidos e em desenvolvimento em pé de igualdade.
Ao tratar da disputa política contemporânea, o presidente chamou atenção para a centralidade das redes digitais, mas advertiu que a luta política não pode ficar restrita ao ambiente virtual. “A internet se tornou um campo de batalha”, disse. Para ele, a disputa deve alcançar “as universidades, as igrejas, os sindicatos, as associações, os bairros e a sociedade como um todo”.
Lula também alertou que a ameaça da extrema direita à democracia não é abstrata. Ao citar o caso brasileiro, lembrou que setores extremistas planejaram um golpe de Estado e uma trama violenta contra instituições e autoridades eleitas. “No Brasil, ela planejou um golpe de estado, orquestrou uma trama que previa tanque na rua e assassinato do presidente eleito, do vice-presidente e do presidente da Justiça Eleitoral”, afirmou.
Em outro momento relevante, o presidente citou o Papa Leão 14 ao dizer que a democracia corre o risco de se transformar em “uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas”. A partir disso, defendeu que as forças progressistas têm a tarefa de desmascarar aqueles que se apresentam como defensores do povo, mas governam para os mais ricos; que se dizem patriotas, mas atentam contra a soberania de seus próprios países; e que invocam valores morais enquanto silenciam diante da violência, do abuso e da desinformação.
"O caminho se faz ao caminhar"
Na parte final do discurso, Lula recorreu à imagem do caminho construído coletivamente ao citar Joan Manuel Serrat: “O caminho se faz ao caminhar.” Em seguida, reforçou a ideia de que a democracia não pode ser reduzida ao rito eleitoral, mas precisa ser medida por seus efeitos concretos sobre a vida das maiorias.
“A democracia não é um destino, é uma construção cotidiana”, afirmou. E concluiu com uma definição social da própria democracia: “Não é democracia quando um pai não sabe onde tirar seu próximo prato de comida. Não há democracia quando o neto perde o seu avô na fila do hospital. Não há democracia quando a mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos seus filhos”.
Lula encerrou o pronunciamento defendendo que a Mobilização Progressista recupere a capacidade de projetar um futuro melhor para a sociedade. “Temos que substituir o desalento pelo sonho, o ódio pela esperança”, disse. Para ele, a missão das forças progressistas é transformar os ideais de justiça social, igualdade e democracia em realidade viva, com presença cotidiana nas ruas, nas instituições e na consciência popular.


