Camilo Santana defende ampliar alianças de Lula e admite troca de vice com MDB na chapa de 2026
Ministro cita Renan Filho e Helder Barbalho como opções e diz que polarização exige “furar a bolha” e enfrentar fake news com IA
247 – O ministro da Educação, Camilo Santana (PT), defendeu a ampliação do arco de alianças em torno da candidatura à reeleição do presidente Lula (PT) e admitiu que essa estratégia pode incluir a substituição do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) na chapa de 2026, caso o movimento seja considerado necessário para atrair novos parceiros e reduzir os efeitos da polarização política.
A posição foi exposta por Camilo em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, na qual ele apontou o MDB como o aliado “mais próximo” e “viável” para uma aliança formal e mencionou o ministro dos Transportes, Renan Filho, e o governador do Pará, Helder Barbalho, como nomes “fortes” para ocupar a vaga de vice, além de citar a ministra do Planejamento, Simone Tebet.
Aliança com MDB e a disputa pelo espaço de vice
Ao tratar da hipótese de uma composição com o MDB, Camilo afirmou acreditar que o presidente Lula pode firmar uma aliança formal com a sigla e admitiu que o espaço de vice pode entrar na negociação. Ele argumentou que o histórico eleitoral mostra que o MDB foi, no passado, o principal parceiro capaz de ampliar a coalizão petista para além dos partidos progressistas.
Ao lembrar que Michel Temer foi eleito vice na chapa de Dilma Rousseff, Camilo fez uma ressalva direta sobre o desfecho daquela aliança, sem usar isso como impeditivo para novas conversas. "Na época com o Michel Temer, que deu no que deu [impeachment de Dilma], mas…", disse, relativizando o trauma político associado ao golpe de Estado contra Dilma como obstáculo definitivo para a aproximação com o MDB.
Camilo também situou a discussão dentro de um cenário de negociação difícil, reconhecendo que há setores do MDB trabalhando para aproximar o partido do presidente, mas que essa operação política enfrenta resistências e exige cálculo de custo-benefício, sobretudo diante da exigência de lideranças emedebistas por protagonismo na chapa.
Alckmin na vice e a pressão da polarização
Apesar de admitir a possibilidade de mudança, Camilo fez questão de elogiar Geraldo Alckmin e sublinhar que a permanência do atual vice seria, em sua avaliação, a melhor opção. Ainda assim, afirmou que o ambiente político, marcado por radicalização e disputa acirrada, pode pressionar por arranjos mais amplos.
"Não há pessoa mais extraordinária, correta e leal. Porém, o país está muito polarizado. Quanto mais ampliar o arco de alianças, melhor", afirmou o ministro, ao comentar a tese de que a chapa de 2026 deve buscar mais sustentação fora do campo tradicional do PT.
Questionado sobre a disposição de Alckmin em abrir mão da vaga, Camilo evitou cravar qualquer cenário e afirmou que esse tipo de decisão exigiria conversa direta e avaliação de viabilidade. "Isso teria que ser discutido com ele", disse, acrescentando que a discussão precisa ser colocada “na mesa” e que dependerá do desenho político mais amplo, inclusive do papel que Lula já sinalizou para Alckmin em São Paulo.
Renan Filho, Helder e Simone Tebet: nomes citados para vice
Na hipótese de uma composição com o MDB, Camilo apresentou nomes específicos. "Vejo dois grandes nomes. Primeiro o do Renan Filho. Tem sido um grande ministro, jovem, talentoso. E o outro nome é o governador do Pará, Helder Barbalho", declarou, destacando que Helder “apoiou o presidente” e que a prioridade, ainda assim, seria manter Alckmin.
Além desses dois quadros, Camilo incluiu Simone Tebet como alternativa relevante no debate sobre a vice-presidência. "E tem também a [ministra do Planejamento] Simone Tebet, outro grande nome", afirmou, sinalizando que a ampliação do arco pode envolver não apenas o MDB, mas também outras pontes políticas possíveis.
A fala do ministro explicitou, porém, uma hierarquia: primeiro, preservar Alckmin; segundo, discutir substituição apenas se a engenharia eleitoral apontar que o ganho de alianças supera o custo de mexer em uma vice já consolidada e aprovada por setores do próprio PT.
Centrão, São Paulo e a missão atribuída a Fernando Haddad
Camilo também defendeu uma articulação mais ampla com partidos do centrão, evitando restringir o projeto eleitoral a um núcleo já convencido. Na mesma linha, apontou a necessidade de construir candidaturas fortes nos estados, em especial em São Paulo, onde reiterou a importância de Fernando Haddad.
Para o ministro, Haddad deveria estar no centro da estratégia eleitoral paulista, seja como candidato ao governo ou ao Senado, por ser um nome capaz de defender o projeto nacional. "Haddad é um extraordinário quadro, uma pessoa admirável e fez um grande trabalho na Fazenda", disse. Em seguida, justificou a cobrança como parte de uma visão de missão política, acima de preferências individuais. "Quando digo que não se pode dar ao luxo, é porque o projeto não pertence mais a nós mesmos", afirmou.
Ao abordar a dinâmica eleitoral, Camilo voltou ao tema da polarização e do provável estreitamento do espaço para alternativas intermediárias. "Não tem espaço para a terceira via hoje", declarou, sugerindo que o pleito pode ser decidido logo no primeiro turno, a depender do número de candidatos.
Fake news com IA, evangélicos e o debate sobre o STF
Na entrevista, Camilo projetou uma campanha marcada por desinformação e alertou para o uso de inteligência artificial como vetor de ataques políticos. "Vamos enfrentar fake news muito fortes na eleição, principalmente com inteligência artificial", disse, defendendo maior rigor legal para combater esse tipo de prática e indicando que o tema terá “um peso muito grande” em 2026.
Sobre o eleitorado evangélico, Camilo rejeitou a ideia de que a esquerda esteja condenada a perder espaço nesse segmento e buscou redefinir o debate com base em valores e políticas públicas. "O que é ser evangélico? As pessoas que defendem a família, defendem a integridade", afirmou, defendendo que o governo do presidente Lula tem iniciativas voltadas às famílias, como políticas de permanência escolar.
Camilo também comentou o caso envolvendo o Banco Master e avaliou que o impacto político pode ser o inverso do esperado por adversários, ao associar a imagem do governo à disposição de investigar. "Se tem um governo que busca investigar é o nosso", disse, citando ainda a Operação Carbono Oculto e a questão do INSS, que, segundo ele, “nasceu no governo passado”, mas vem sendo enfrentada na atual gestão.
Ao ser questionado sobre o desgaste institucional do Supremo Tribunal Federal, Camilo afirmou que o STF não pode perder credibilidade e defendeu uma discussão sobre relações entre Judiciário e interesses privados, inclusive sob o ângulo moral e ético. "O STF é o guardião da Constituição. Não pode ter nenhuma descredibilidade perante o país", afirmou, apoiando a proposta de um código de ética para a corte. "Claro que eu defendo", respondeu, ao ser perguntado se apoia a medida.
Saída do MEC, Ceará e calendário político
Camilo Santana, ministro desde 2023, indicou que está prestes a deixar o Ministério da Educação para reforçar no Ceará a campanha do governador Elmano de Freitas (PT) à reeleição, embora tenha dito que preferiria concluir o trabalho à frente da pasta. Ele foi eleito senador em 2022 e se licenciou para assumir o MEC, mantendo, após 2026, mais quatro anos de mandato no Senado.
A entrevista evidencia como a antecipação do debate sobre a chapa presidencial de 2026 já pressiona o governo e sua base a discutir, simultaneamente, alianças nacionais, candidaturas estaduais estratégicas e uma campanha que, na avaliação do próprio ministro, tende a ser marcada pela polarização e por disputas duras no terreno da informação e da credibilidade institucional.


