Lula ouve ministros sobre caso Wagner e deve decidir seu destino após reunião presencial
No Planalto, avaliação predominante é que operação da PF tornou insustentável a permanência do senador na liderança do governo no Senado
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ouviu ministros palacianos ao longo da quinta-feira (18) para avaliar o impacto político da operação da Polícia Federal contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado. Segundo a CNN Brasil, os encontros ocorreram no Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência.
Embora Lula ainda pretenda conversar pessoalmente com Wagner antes de tomar uma decisão formal, a avaliação predominante no Palácio do Planalto é que a permanência do senador na liderança do governo se tornou politicamente insustentável. A operação atingiu um dos aliados mais antigos do presidente em uma função estratégica para a articulação com o Congresso, ampliando o desgaste do governo federal em um momento sensível.
Tendência é pela saída de Wagner
Uma ala do Planalto já defende abertamente a substituição de Wagner na liderança do governo no Senado. Para esse grupo, a crise deixou de ser apenas um problema pessoal do parlamentar e passou a afetar diretamente a imagem do Executivo e a capacidade de articulação política da gestão Lula.
Como líder do governo, Wagner fala em nome do Planalto, negocia com bancadas, defende pautas prioritárias e atua como um dos principais operadores políticos do presidente no Senado. Por isso, auxiliares avaliam que sua permanência no cargo tende a prolongar o desgaste e oferecer munição à oposição.
Lula conversou por telefone com Wagner ainda na quinta-feira, mas prefere aguardar uma reunião presencial para deliberar sobre o caso. O presidente tem compromissos no Sudeste nos próximos dias, e o encontro deve ficar para a próxima semana. Até lá, a tendência interna é que cresça a pressão por uma saída negociada.
Operação surpreendeu o governo
Interlocutores do presidente afirmam que o Planalto estava preparado para rebater alegações sobre conexões do PT baiano com o caso Banco Master, mas foi surpreendido pela operação contra Wagner e seus familiares.
O senador foi alvo de busca e apreensão e é suspeito de ter recebido vantagens indevidas do Banco Master. Em nota, Wagner nega ter atuado em favor desta ou de qualquer outra instituição financeira.
A negativa, no entanto, não eliminou o desconforto dentro do governo. A leitura predominante é que, mesmo sem uma decisão judicial definitiva contra o senador, o custo político de mantê-lo na liderança passou a ser alto demais para o Planalto.
Após a operação da PF, o PT alinhou seu discurso para tentar conter danos. A principal orientação é individualizar qualquer revelação envolvendo Wagner ou outros aliados citados nas investigações, preservando o presidente Lula de uma associação direta com o caso.
A estratégia tem peso eleitoral. Lula disputa a reeleição neste ano e o partido quer evitar que a crise envolvendo um aliado histórico seja usada pela oposição para atingir o presidente.
Segundo a CNN Brasil, o PT decidiu que continuará usando o caso Banco Master em sua comunicação e nas redes sociais, mas com foco no senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado como possível adversário de Lula na disputa presidencial.
Partido mira Flávio Bolsonaro
Nos próximos dias, parlamentares e dirigentes petistas devem intensificar a divulgação de episódios envolvendo a visita de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e o áudio em que o senador cobrava recursos para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
Também será lembrado que Flávio chamou Vorcaro de “mermão”, expressão que passou a ser explorada por aliados de Lula para reforçar a proximidade entre o senador bolsonarista e o banqueiro investigado.
A tentativa do PT é deslocar o centro da crise para o campo adversário, sustentando que Flávio tem relações diretas com pessoas envolvidas em fraudes financeiras. Ainda assim, dentro do Planalto, a operação contra Wagner é vista como um problema próprio, que exige resposta política.
Confiança pública, pressão privada
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que Wagner é “depositário de confiança”, mas disse que o partido apoia “todas as apurações envolvendo o Banco Master”.
“Os crimes cometidos precisam ser apurados e os responsáveis penalizados. Nesse processo de investigação e apuração, temos confiança que o Jaques Wagner esclarecerá todos os fatos, comprovando a sua inocência”, escreveu Edinho.
O secretário de comunicação do PT, Éden Valadares, também reforçou a “confiança” do partido em Wagner e criticou a tentativa de “equiparar relações e falsamente criar a ideia de que o escândalo atinge igualmente todos os campos políticos brasileiros”.
Nos bastidores, porém, o tom é mais duro. Integrantes do governo avaliam que declarações públicas de apoio não significam garantia de permanência no cargo. A prioridade do Planalto passou a ser reduzir danos e evitar que a crise contamine ainda mais a relação com o Senado.
Decisão de Lula pode reorganizar articulação
A eventual saída de Wagner abriria uma nova etapa na articulação política do governo. Lula precisaria escolher um nome capaz de dialogar com diferentes bancadas, defender a agenda do Executivo e reconstruir pontes no Senado em meio a um ambiente de tensão.
A substituição, porém, exige cautela. Wagner é um aliado histórico de Lula, ex-governador da Bahia, ex-ministro e uma das figuras mais influentes do PT. Uma troca brusca poderia ser interpretada como abandono de um quadro central do partido em meio à crise.
Ainda assim, a avaliação predominante no núcleo político é que a permanência do senador se tornou cada vez menos defensável. A conversa presencial com Lula deve definir o formato da solução, mas, no Planalto, a tendência hoje aponta para a saída de Wagner da liderança do governo no Senado.



