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Lula pode enfrentar debandada de ministros até abril e campanha de 2026 amplia incertezas na Esplanada

Possível saída de cerca de 20 auxiliares para disputar eleições pressiona o Planalto e abre disputa por substituições estratégicas

Lula durante reunião ministerial (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

247 – O governo do presidente Lula pode entrar em 2026 com uma reconfiguração profunda na Esplanada dos Ministérios, caso se confirme a saída de cerca de 20 ministros que devem deixar suas pastas para concorrer a cargos eletivos pelo país. O movimento, articulado para reforçar a base do presidente nos estados, pode esvaziar áreas-chave do Executivo no auge do calendário político, justamente quando o Planalto tenta sustentar governabilidade, entregas e alianças regionais.

A informação foi publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, que aponta que o número inclui ministros que já sinalizaram intenção de disputar eleições e outros que já possuem mandato e podem tentar reeleição. Pela legislação eleitoral, a desincompatibilização precisa ocorrer até abril, às vésperas da campanha, o que antecipa uma janela de tensão: trocas em série, rearranjos partidários e indefinições sobre quem comandará o dia a dia de áreas estratégicas durante os meses decisivos.

Esvaziamento no Planalto e risco de perda do “núcleo duro”

Se todas as saídas se confirmarem, Lula pode atravessar a campanha sem parte relevante do chamado “núcleo duro” do governo. Entre os movimentos mais sensíveis está o pedido para que a ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) deixe o cargo e concorra ao Senado pelo Paraná — solicitação que, segundo o relato, já foi aceita por ela. A mudança mexe diretamente com a engrenagem de sustentação política do governo no Congresso, porque Relações Institucionais concentra a articulação cotidiana com bancadas, partidos e lideranças.

A expectativa mencionada era de que Gleisi buscasse a reeleição como deputada federal, mas a orientação do presidente teria apontado para uma candidatura ao Senado, numa estratégia de fortalecimento regional. A consequência imediata é a abertura de um período de incerteza sobre como ficará a coordenação política do governo durante a campanha, quando conflitos e negociações tendem a se intensificar e a disputa eleitoral contamina votações e alianças.

Em cenários assim, é comum que secretários-executivos assumam interinamente as pastas. No caso de Relações Institucionais, o secretário-executivo é Marcelo Costa, diplomata de carreira com perfil técnico. O ponto político, porém, é que setores do PT avaliam que a função exigiria um nome com musculatura partidária, mesmo em um governo que, em parte da sua estrutura, busca equilibrar quadros técnicos e políticos.

Casa Civil, comunicação e o desenho da campanha

Além de Gleisi, a Folha indica que Rui Costa (Casa Civil) também pode deixar o cargo para concorrer ao Senado. Há ainda a possibilidade, segundo interlocutores citados, de que ele volte a disputar o governo da Bahia. Seja qual for o caminho, a eventual saída do titular da Casa Civil tende a produzir efeito dominó: a pasta organiza prioridades, controla fluxos internos e atua como eixo central da coordenação do governo.

Na comunicação, o cenário também aponta para mudança. Sidônio Palmeira, ministro da Secretaria de Comunicação, deve se afastar para comandar a campanha de Lula à reeleição, repetindo o papel desempenhado em 2022. A diferença, neste caso, é o calendário: ele sairia apenas em junho, mais próximo do período de maior intensidade eleitoral. A transição, portanto, pode acontecer quando a disputa estiver mais aguda — o que aumenta a pressão sobre a narrativa do governo e sobre a capacidade institucional de responder a crises e agendas concorrentes.

Entre os ministros do Palácio, Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) aparece como exceção: embora pudesse disputar reeleição como deputado federal, deve permanecer no cargo até o fim do mandato, já que assumiu a pasta em outubro passado. A manutenção tende a garantir alguma continuidade em uma área com interface com movimentos sociais e participação social, num momento em que o Planalto pode perder peças em outros tabuleiros.

A lista de prováveis saídas e a disputa por cadeiras no Congresso

Fora do Palácio, a projeção de desincompatibilizações é ampla. Doze ministros também devem se afastar, segundo o levantamento. Entre os nomes já citados publicamente como certos para a disputa eleitoral estão Anielle Franco (Igualdade Racial), que tentará se eleger deputada federal pelo Rio de Janeiro; Sonia Guajajara (Povos Indígenas), que buscaria reeleição como deputada por São Paulo; e Carlos Fávaro (Agricultura), que tentaria reeleição ao Senado por Mato Grosso.

Jader Filho (Cidades) também já teria declarado intenção de disputar vaga na Câmara pelo Pará, com previsão de saída já em março. Ainda aparecem como anunciados para deixar o governo André de Paula (Pesca), Silvio Costa Filho (Portos e Aeroportos) e Waldez Góes (Desenvolvimento Regional). Em paralelo, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, desistiu de disputar reeleição como deputado — decisão anunciada nas redes sociais e atribuída, segundo o texto, a um pedido do presidente.

O conjunto de movimentos mostra duas dinâmicas simultâneas: de um lado, a tentativa de ampliar capilaridade eleitoral; de outro, a tendência de que ministérios virem plataformas de projeção regional, elevando o custo de substituições e exigindo calibragem fina para não abrir frentes de instabilidade administrativa.

Trocas partidárias, São Paulo no centro e o efeito dominó nas alianças

Uma das movimentações mais recentes mencionadas envolve Simone Tebet (Planejamento), que pode se filiar ao PSB para disputar o Senado por São Paulo. O nome dela circula tanto para o Senado quanto para o governo paulista, caso o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, opte por não disputar o Executivo estadual. Haddad já confirmou intenção de deixar o ministério, mas não confirmou entrada na corrida eleitoral.

Tebet, natural de Mato Grosso do Sul e filiada ao MDB, teria como objetivo migrar para o PSB para ajudar a construir uma base mais robusta para Lula em São Paulo. No mesmo estado, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, também pode se lançar ao Senado. Já a possibilidade de Geraldo Alckmin disputar o governo paulista teria sido cogitada, mas interlocutores apontam que a intenção de Lula é mantê-lo como vice em 2026.

O pano de fundo é que São Paulo, pela força eleitoral e simbólica, tende a puxar rearranjos em cadeia: uma decisão muda o tabuleiro de outras candidaturas, desloca alianças e impacta a própria composição do governo, especialmente se nomes centrais decidirem sair para disputar vagas majoritárias.

O que muda no governo e por que abril vira um teste de força

Além dos nomes já apontados, outros ministros são citados como possíveis candidatos ao Congresso ou a governos estaduais, como Macaé Evaristo (Direitos Humanos), Camilo Santana (Educação), André Fufuca (Esportes), Wellington Dias (Desenvolvimento Social) e Alexandre Silveira (Minas e Energia). Todos teriam afirmado estar “à disposição do que Lula decidir”. Há ainda casos de ministros que aguardam deliberação com o presidente, como Wolney Queiroz (Previdência) e Márcio França (Empreendedorismo), que pretende disputar o governo de São Paulo pelo PSB. Renan Filho (Transportes) já confirmou saída para disputar o governo de Alagoas.

No caso de Camilo Santana, duas hipóteses são mencionadas: atuar na articulação política da campanha ou disputar o governo do Ceará. Nesta segunda opção, seria necessário um acordo com Elmano de Freitas, atual governador que busca reeleição. Também aparecem como possíveis nomes para a corrida eleitoral Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário) e Luciana Santos (Ciência e Tecnologia).

Ao mesmo tempo, ministros de perfil mais técnico tenderiam a permanecer: Mauro Vieira (Relações Exteriores), Wellington Lima e Silva (Justiça), Esther Dweck (Gestão e Inovação), Gustavo Feliciano (Turismo), Margareth Menezes (Cultura) e José Múcio (Defesa).

Com a desincompatibilização concentrada até abril, o governo entra num período em que cada troca vira uma decisão política de alto risco: a substituição precisa atender ao funcionamento da máquina pública, ao equilíbrio entre partidos e ao desenho da campanha. A depender da escala das saídas, a Esplanada pode operar com comando provisório em áreas decisivas, ao mesmo tempo em que o Planalto tenta preservar coordenação, aprovar pautas e sustentar alianças. Em ano eleitoral, essa combinação costuma amplificar disputas internas e tornar cada nomeação um recado político — para dentro do governo, para o Congresso e para o país.

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