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"Precisamos construir soberania energética", diz Lula, ao assinar contratos da Petrobras para novos navios

Investimento de R$ 2,8 bilhões no Programa Mar Aberto mira retomada da indústria naval, com potencial de mais de 9 mil empregos

Lula em evento de retomada da indústria naval (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta terça-feira, 20 de janeiro de 2026, que o Brasil precisa tomar uma decisão estratégica para reduzir vulnerabilidades externas e fortalecer sua base produtiva: “Nós precisamos construir uma soberania energética”. A declaração ocorreu durante a cerimônia de assinatura de contratos do Programa Mar Aberto, da Petrobras, no Estaleiro Ecovix, em Rio Grande (RS), em um evento que oficializou investimentos de R$ 2,8 bilhões e indicou potencial de geração de mais de 9 mil empregos diretos e indiretos.

As informações e as declarações foram divulgadas em nota oficial do governo federal, publicada pelo Planalto. No ato, foram detalhadas contratações para a construção de cinco navios gaseiros, 18 empurradores e 18 barcaças, com operação pela Transpetro e execução em estaleiros de três estados — Rio Grande do Sul, Amazonas e Santa Catarina — em um movimento que o governo e a estatal apresentam como parte da retomada sustentável da indústria naval e offshore brasileira.

Soberania energética e Petrobras como eixo estratégico

Ao tratar do papel da Petrobras, Lula ressaltou a relevância da empresa para a economia nacional e defendeu a ampliação de sua atuação como companhia de energia. Para o presidente, a transformação em curso precisa estar ancorada em autonomia tecnológica e em decisões soberanas sobre infraestrutura, produção e logística.

“A Petrobras é a empresa brasileira mais extraordinariamente importante. A melhor coisa que nós criamos foi a Petrobras. E a Petrobras, aos poucos, vai se transformando numa empresa de energia. Cada vez mais ela vai se transformando numa empresa de energia. Porque esse país precisa ter a seguinte decisão: nós precisamos construir uma soberania energética. A gente não pode ficar dependendo de nenhum país do mundo e de tecnologia de outros países”, declarou.

A cerimônia no Estaleiro Ecovix foi apresentada como um marco de reativação de cadeias produtivas associadas ao setor de óleo e gás, transporte e indústria naval, com impacto direto na geração de empregos, na qualificação profissional e no fortalecimento do parque industrial nacional. No desenho anunciado, a recomposição da capacidade de construção naval é tratada como instrumento de política econômica e industrial.

Investimentos, empregos e a engrenagem das cadeias produtivas

O ministro da Casa Civil, Rui Costa, afirmou que a Petrobras voltou a exercer um papel de indução econômica ao recompor investimentos em diferentes frentes e ao puxar cadeias como a da indústria naval. A avaliação do ministro é que o movimento não se limita a obras, mas ativa expectativas e oportunidades de trabalho, sobretudo para jovens.

“Hoje, a Petrobras volta a investir em fertilizantes, a investir em gás e puxa a economia em várias cadeias produtivas, como a da indústria naval. Isso gera emprego, isso gera sonho para o jovem, para construir uma nação. Só se constrói uma nação olhando para a frente”, disse Rui Costa.

Lula também aproveitou o evento para listar indicadores que, segundo ele, sintetizam o desempenho econômico ao final do terceiro ano de mandato. O presidente citou inflação acumulada, desemprego, massa salarial e exportações como pontos centrais do balanço.

“Eu vou terminar o meu terceiro ano de mandato com a menor inflação acumulada em quatro anos e com o menor desemprego da história do Brasil. Eu vou terminar o meu terceiro ano de mandato com o maior crescimento da massa salarial da história deste país e com o maior fluxo de exportação da história do Brasil: 628 bilhões de dólares. Só nesses três anos, nós abrimos 508 novos mercados para vender os produtos brasileiros”, relatou.

A fala presidencial ocorreu no mesmo contexto em que o governo tenta reposicionar a política industrial e revalorizar investimentos produtivos. A assinatura dos contratos foi, assim, tratada como um símbolo de que o Estado e a Petrobras voltam a acionar instrumentos de planejamento e contratação para criar escala e previsibilidade ao setor.

O que será construído e onde: gaseiros, barcaças e empurradores

Os contratos anunciados contemplam cinco navios gaseiros, 18 barcaças e 18 empurradores, com execução distribuída em três estados. No Rio Grande do Sul, o Estaleiro Rio Grande ficará responsável pela construção dos gaseiros. No Amazonas, o estaleiro Bertolini Construção Naval da Amazônia, em Manaus, construirá as 18 barcaças. Em Santa Catarina, o estaleiro Indústria Naval Catarinense (INC), em Navegantes, executará os 18 empurradores.

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, apresentou uma visão mais ampla da carteira de contratações e estudos vinculados à indústria naval, indicando que o anúncio em Rio Grande integra um conjunto maior de encomendas e projetos em avaliação.

“Hoje nós temos contratados ou em contratação a construção de 48 embarcações de apoio marítimo e mais 18 barcaças e 18 empurradores. Mas nós temos mais: nove embarcações em estudo e pelo menos umas seis ou oito novas plataformas em estudo para serem também licitadas e construídas. Até julho deste ano, o primeiro navio desse conjunto de navios contratados vai ser entregue”, afirmou.

No recorte específico dos gaseiros, a construção de cinco unidades inclui três embarcações de 7 mil m³ e duas de 14 mil m³ de capacidade. Segundo os dados divulgados, os navios serão até 20% mais eficientes em consumo, reduzirão em 30% as emissões de gases de efeito estufa e estarão aptos a operar em portos eletrificados. O investimento previsto para esse bloco é de R$ 2,2 bilhões, com potencial de gerar até 3.200 empregos diretos e indiretos. O cronograma apresentado prevê lançamento do primeiro navio em até 30 meses após o início das obras, com entregas subsequentes a cada seis meses.

Já o pacote de barcaças e empurradores soma investimento de R$ 628,8 milhões para 36 embarcações, com foco em eficiência logística, segurança operacional e competitividade no fornecimento de combustível marítimo (bunker). O planejamento divulgado indica entrega da primeira barcaça três meses após o início das obras, enquanto o primeiro empurrador tem previsão de entrega em 18 meses. A estimativa de empregos durante a fase de construção foi apresentada como cerca de 1.500 vagas diretas e aproximadamente 4.600 vagas indiretas, totalizando cerca de 6.100 pessoas envolvidas.

Transpetro, novos contratos e plano de biorrefinaria no RS

O presidente da Transpetro, Sérgio Bacci, destacou que o Estaleiro Ecovix já havia sido cenário de anúncios anteriores e relacionou a nova rodada de contratos ao aumento da produção da Petrobras e à necessidade de ampliar a logística de GLP ao longo da costa brasileira.

“Há cerca de um ano estivemos aqui neste estaleiro para assinar o contrato de quatro embarcações. Agora, vamos assinar os contratos para a construção de mais cinco navios gaseiros, que vão acompanhar o aumento da produção da Petrobras e levar GLP pela costa brasileira. Esses nove navios que serão construídos aqui somam mais de R$ 3,6 bilhões de investimentos e vão gerar cerca de 7 mil empregos diretos e indiretos nos próximos anos”, detalhou.

Além da agenda naval, Magda Chambriard anunciou um plano industrial com impacto direto no Rio Grande do Sul: a transformação da Refinaria Riograndense em uma unidade voltada a produtos de origem renovável, com previsão de início no segundo semestre de 2026 e investimento estimado em R$ 6 bilhões.

“Nós estamos programando para o segundo semestre deste ano o início da transformação da Refinaria Riograndense na primeira Biorrefinaria do Brasil. Essa transformação da Riograndense vai nos demandar cerca de R$ 6 bilhões”, explicou.

No mesmo evento, também houve assinaturas relacionadas à infraestrutura portuária. Foi formalizado um contrato de autorização para exploração de instalação portuária na modalidade de Terminal de Uso Privado (TUP), voltado à implantação de um terminal dedicado à movimentação de celulose. O investimento informado para o projeto é de cerca de R$ 1,5 bilhão, com previsão de 1.200 empregos durante as obras e aproximadamente 2.600 empregos diretos e indiretos durante a operação. Também foi citada a assinatura de portaria que autoriza cessão onerosa de área de domínio da União para implantação de TUP pela empresa Terminal Porto Rio Grande do Sul S.A., apontada como uma das etapas finais para disponibilizar a área necessária ao novo terminal.

Com contratos, cronogramas e metas de eficiência, o governo e a Petrobras apresentaram o conjunto como uma tentativa de recolocar a indústria naval em um ciclo de demanda estável, ampliar a infraestrutura logística e sustentar uma estratégia que Lula sintetizou em um objetivo político-econômico central: soberania energética com base produtiva nacional.

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