Lula vai à Cúpula da CELAC na Colômbia para reforçar integração regional e diálogo com a África
Presidente participa da X Cúpula de Chefes de Estado e de Governo e do I Fórum de Alto Nível CELAC-África, em Bogotá
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participará, no próximo dia 21 de março, em Bogotá, na Colômbia, do I Fórum de Alto Nível CELAC-África e da X Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), em uma agenda que reforça a aposta do Brasil na integração regional e na articulação política entre países do Sul Global.
Segundo informações divulgadas pelo Palácio do Planalto, a presença de Lula na cúpula reafirma o interesse do Brasil na consolidação dos espaços de diálogo e concertação entre os países da América Latina e do Caribe. Desde 2023, o presidente participa de todos os encontros de alto nível da CELAC, o que tem sido apresentado pelo governo brasileiro como demonstração clara de compromisso com a unidade regional.
A viagem ocorre em um momento de forte instabilidade no cenário internacional, marcado pelo avanço da fragmentação geopolítica e pelo recrudescimento do unilateralismo. Nesse contexto, o governo brasileiro avalia que o fortalecimento dos laços entre América Latina, Caribe e África pode ajudar a impulsionar uma ordem internacional mais equilibrada, inclusiva e representativa dos interesses do chamado Sul Global.
Durante briefing com jornalistas, a secretária de América Latina e Caribe do Itamaraty, embaixadora Gisela Maria Figueiredo Padovan, ressaltou o significado político da presença de Lula no encontro. “A presença do presidente Lula na CELAC apenas confirma o compromisso do Brasil, inclusive constitucional, com a integração da América Latina e do Caribe. Basta recordar que o presidente Lula foi a absolutamente todas as reuniões da CELAC desde que assumiu a presidência.”
CELAC ganha peso em cenário de polarização
A X Cúpula da CELAC será realizada em um ambiente regional especialmente sensível, marcado pela intensificação da polarização política e pelas pressões extrarregionais sobre a América Latina e o Caribe. Ainda assim, a organização segue como o principal mecanismo de diálogo e concertação política da região, preservando uma agenda voltada a áreas de interesse comum.
A avaliação do governo brasileiro é de que a CELAC tem conseguido manter iniciativas concretas em áreas de convergência, como saúde, segurança alimentar, gestão de desastres naturais e cooperação regional. Além disso, sob a presidência pro tempore da Colômbia, o bloco aprofundou sua interlocução com outros polos do sistema internacional, com destaque para as agendas desenvolvidas com a União Europeia, a China e agora a África.
Ao final da cúpula, a Colômbia transmitirá a presidência temporária da CELAC ao Uruguai. A expectativa, segundo o Itamaraty, é que a reunião sirva não apenas para discutir os grandes desafios da região, mas também para apresentar as prioridades da nova gestão uruguaia.
Padovan destacou os temas centrais que estarão na mesa dos chefes de Estado e de governo. “Desenvolvimento econômico, combate à fome e à pobreza, mudança do clima, combate ao crime organizado, que é um grande tema da região, segurança alimentar e nutricional. Todos esses temas serão discutidos pela CELAC. Também nesse momento, a presidência da Cúpula passa da Colômbia para o Uruguai, ocasião em que serão apresentadas as prioridades da gestão uruguaia.”
Segurança alimentar, desastres climáticos e cooperação espacial
Na avaliação do governo brasileiro, um dos sinais mais relevantes da vitalidade da CELAC está na continuidade de iniciativas práticas que dialogam diretamente com as necessidades da população latino-americana e caribenha. Entre os pontos que devem ser avaliados durante a cúpula estão o plano de segurança alimentar e nutricional da CELAC, o fundo de resposta a riscos e desastres naturais e climáticos, o FACRID, e a proposta de criação de uma agência espacial regional.
A ênfase nesses mecanismos mostra que, apesar das divergências políticas existentes entre governos da região, permanece espaço para coordenação em temas sensíveis e estratégicos. Trata-se de uma agenda que combina combate às desigualdades, resposta a emergências e busca por autonomia tecnológica, três dimensões que ganham ainda mais importância em tempos de crise climática, insegurança alimentar e reconfiguração da economia global.
Padovan também chamou atenção para a dimensão externa da CELAC, que tem sido um de seus principais ativos diplomáticos. “Há uma dimensão muito importante da CELAC, que é a do diálogo externo. É nesse contexto que se insere o diálogo com a África. A CELAC mantém um diálogo estruturado com a União Europeia, com a realização de uma cúpula a cada dois anos e, no intervalo, dezenas de atividades e programas.”
Na véspera da reunião de chefes de Estado, em 20 de março, será realizada a Reunião de Chanceleres da CELAC, etapa preparatória que deverá consolidar posições e encaminhamentos para a cúpula presidencial.
Fórum CELAC-África marca retomada de uma agenda estratégica
Além da cúpula regional, a ida de Lula a Bogotá terá como eixo central a participação no I Fórum de Alto Nível CELAC-África, iniciativa que simboliza a retomada de uma agenda de aproximação política, econômica e diplomática entre as duas regiões.
Antes da reunião principal, o fórum será precedido por três dias de debates entre dezenas de especialistas latino-americanos, caribenhos e africanos. Ao todo, 17 painéis discutirão temas como cooperação para o desenvolvimento, agricultura, energia, clima, saúde, segurança, reparações históricas, empreendedorismo, memória, juventude, comércio, economia, investimento público e privado e infraestrutura.
O secretário de África e do Oriente Médio do Itamaraty, embaixador Carlos Sérgio Sobral Duarte, explicou que o encontro representa uma tentativa de reconstruir uma ponte que já existiu de forma mais orgânica no passado, mas que perdeu fôlego nos últimos anos.
“Houve uma iniciativa chamada América do Sul–África, a ASA, que existiu de 2006 a 2013. Ela teve três cúpulas, duas na África e uma na América do Sul, mas, depois, não foi mais possível articular esse diálogo. Agora, a Colômbia, que é um país que tem sido muito ativo na interlocução com a África, está organizando esse fórum”, disse.
A fala do embaixador indica que a proposta vai além de um encontro protocolar. O objetivo é recuperar um eixo de cooperação Sul-Sul que já teve densidade política no passado e que agora volta ao centro da agenda diplomática, num cenário internacional cada vez mais disputado e hierarquizado.
África e América Latina buscam ampliar comércio, investimentos e cooperação
O interesse mútuo entre África e América Latina não se explica apenas por afinidades históricas, culturais e étnicas, embora esses vínculos sejam importantes. Há também razões concretas de ordem econômica e geopolítica para uma maior aproximação entre as duas regiões.
Juntas, a União Africana, com 55 países, e a CELAC, com 33 membros, reúnem cerca de 2 bilhões de pessoas. Trata-se de um espaço de enorme potencial demográfico, econômico e estratégico, composto por economias com forte dinamismo e vastas possibilidades de complementaridade em comércio, investimentos, infraestrutura, energia, agricultura e desenvolvimento tecnológico.
O Itamaraty sustenta que essa aproximação pode fortalecer agendas de desenvolvimento soberano e ampliar a cooperação em temas nos quais os dois blocos compartilham desafios semelhantes, como segurança alimentar, justiça climática, financiamento do desenvolvimento e reparações históricas.
Nesse sentido, Carlos Sérgio Sobral Duarte afirmou que o interesse pela aproximação é bilateral e crescente. “Não só os países da nossa região têm desafios semelhantes e situações de desenvolvimento semelhantes, como podem contribuir e também aprender com uma interação maior com os países africanos. Não só nos temas de cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento, reparação histórica, justiça e comércio, mas em diversas outras áreas. Essa é a percepção que uma iniciativa como essa traduz, porque a África, com o seu tamanho, as suas potencialidades, a sua população, esse comércio em ascensão, oferece oportunidades muito promissoras”, salientou.
Lula reforça protagonismo do Brasil no Sul Global
A participação de Lula em Bogotá também se conecta a uma linha mais ampla da política externa brasileira desde 2023, baseada na retomada do protagonismo do Brasil nos fóruns multilaterais e na revalorização da integração latino-americana. O fato de o presidente ter comparecido a todos os encontros de alto nível da CELAC desde o início do mandato foi destacado pelo governo como sinal de coerência diplomática e de prioridade estratégica.
No caso do diálogo com a África, o movimento também tem respaldo em iniciativas recentes. O governo brasileiro lembra que Lula participou, em 2024, da 37ª Cúpula da União Africana e esteve ligado à organização da I Conferência da Diáspora Africana nas Américas, em Salvador, no mesmo ano. Esses marcos ajudaram a consolidar a percepção de que o Brasil pretende voltar a ocupar um papel ativo na construção de pontes entre continentes do Sul Global.
Em meio à crise do multilateralismo tradicional e à disputa por influência entre grandes potências, a CELAC e o novo fórum com a África surgem, para o governo brasileiro, como instrumentos relevantes para ampliar a autonomia política da região e fortalecer agendas comuns em defesa do desenvolvimento, da soberania e de um sistema internacional menos desigual.
A viagem de Lula à Colômbia, portanto, não se resume à participação em mais uma cúpula diplomática. Ela se insere num esforço mais amplo de rearticulação regional e de busca por novos espaços de convergência entre países que compartilham desafios históricos e interesses estratégicos em um mundo cada vez mais fragmentado.


