Wagner afirma que rejeição de Jorge Messias ao STF teve articulação “por debaixo do pano” para atingir Lula
Senador diz que aliados de Rodrigo Pacheco agiram nos bastidores do Senado e critica uso político da sabatina do advogado-geral da União
247 – O senador Jaques Wagner (PT-BA) afirmou que a rejeição do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) foi resultado de uma articulação silenciosa dentro do Senado com o objetivo de impor uma derrota política ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista exclusiva ao jornal Bahia Notícias, Wagner classificou como “mesquinha” a movimentação ocorrida nos bastidores da Casa e disse que houve atuação “sorrateira” contra o indicado do governo.
Segundo Wagner, o episódio ainda provoca desgaste tanto nele quanto no presidente Lula e no próprio Jorge Messias. O senador lamentou a forma como Messias foi tratado durante a sabatina e afirmou que a discussão deixou de ser técnica para se transformar em um embate político contra o Palácio do Planalto.
“Dizem que você só consegue enxergar melhor o momento, quando ele fica um pouco mais distante. Ainda estamos muito no calor do meu sofrimento, do presidente Lula, e principalmente do Jorge Messias, que é um ser humano maravilhoso, é uma pessoa super qualificada e que seguramente não merecia sofrer o ódio de quem está fazendo de uma sabatina um julgamento do presidente da República recaindo nele”, declarou ao Bahia Notícias.
Wagner também rebateu críticas de aliados do governo que passaram a responsabilizá-lo por um suposto erro de cálculo na contagem de votos favoráveis à indicação de Messias ao STF. De acordo com o líder do governo no Senado, a expectativa era de aprovação confortável do nome apresentado pelo presidente.
“Trabalharam por debaixo do pano”
Ao comentar o resultado da votação, Jaques Wagner afirmou que o caráter secreto do voto dificultou a percepção das articulações internas que vinham sendo conduzidas nos bastidores da Casa.
“Eu sempre digo que voto secreto é um voto complicado para ter a conta. Eu nunca tinha feito nenhuma conta menor do que 41-42 votos, ou seja, com aprovação dele. E infelizmente muita gente sorrateiramente trabalhou por debaixo do pano, a gente não se deu conta, não percebeu, e na minha opinião as pessoas fizeram uma triste tarde daquela quarta-feira”, afirmou.
O senador ressaltou ainda que o papel constitucional do Senado em indicações ao STF deveria se limitar à avaliação técnica e moral do indicado, e não à disputa política envolvendo o governo federal.
“E quando estiver mais distante eles vão perceber, porque o texto constitucional, depois da prerrogativa do presidente é exercida escolhendo nome, cabe ao Senado saber se a pessoa tem [notório] saber e reputação ilibada. A sabatina é para isso”, acrescentou.
Wagner nega sabotagem e aponta disputa por Rodrigo Pacheco
Durante a entrevista, Wagner negou categoricamente qualquer atuação contrária à indicação de Jorge Messias. Segundo ele, parte das críticas direcionadas ao seu nome surgiu porque havia setores do Senado que defendiam a escolha do ex-presidente da Casa, Rodrigo Pacheco, para a vaga no Supremo.
“Infelizmente as pessoas não estavam a fim de saber se ele estava preparado ou não, estavam a fim de dar uma cacetada no presidente. Tentaram jogar em cima de mim, trabalhei o tempo todo, Messias trabalhou comigo por quatro anos”, disse.
O senador afirmou ainda que sua proximidade política com Lula fez com que adversários passassem a atribuir a ele uma influência maior do que realmente possui sobre as decisões presidenciais.
“Por isso que muitos ficaram com raiva de mim, havia uma torcida por Rodrigo Pacheco, e as pessoas acham que eu mando na cabeça do presidente Lula. Ele escolheu o Messias e eu fui trabalhar pela sua aprovação. Na minha opinião foi uma coisa mesquinha daqueles que usaram uma sabatina para fazer uma disputa política indevida”, declarou.
Relação estremecida com Alcolumbre
Jaques Wagner também revelou que sua relação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), ficou profundamente abalada após o processo envolvendo a indicação de Jorge Messias ao STF.
Segundo o líder do governo, Alcolumbre defendia o nome de Rodrigo Pacheco para a vaga aberta na Suprema Corte e esperava que Wagner convencesse o presidente Lula a mudar sua escolha.
“Minha função como líder do governo é conversar com todo mundo, converso com o presidente do Senado, com Flávio Bolsonaro… Se eu não conversar com todo mundo eu não consigo aprovar as matérias porque nós não temos maioria”, afirmou.
“Infelizmente minha relação ficou muito estremecida com o presidente do Senado, porque ele queria o Pacheco, e por ser líder do governo ele acha que eu deveria arrancar isso do presidente, mas repito: não mando na cabeça do presidente”, completou.
A derrota da indicação de Jorge Messias abriu uma nova crise política entre o Palácio do Planalto e setores do Senado, além de expor divisões internas na base governista em torno da sucessão no Supremo Tribunal Federal.


