Celina Leão denuncia misoginia de Ibaneis e diz que está resolvendo problemas deixados pelo antecessor
Governadora do DF afirma que ex-aliado queria continuar governando por meio dela e rebate críticas sobre crise no BRB
247 – A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), acusou o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) de misoginia ao comentar a deterioração da relação política entre ambos. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Celina afirmou que Ibaneis acreditava que continuaria administrando o DF por meio dela e disse estar enfrentando os problemas herdados da gestão anterior, especialmente a crise envolvendo o BRB.
“Eu fui pega de surpresa com a fala dele de decepção. Mas é incoerente a fala dele porque, com a situação precária [em] que ele me deixou o estado, ele tinha que estar muito orgulhoso, porque eu estou conseguindo pagar as contas”, declarou a governadora.
Celina afirmou ainda que o ex-governador demonstrou comportamento misógino ao supor que ela seria apenas uma extensão política de sua administração. “Estou enfrentando o problema que ele deixou do BRB de frente, sem atacá-lo. Fiquei um pouco surpresa com a fala dele, mas talvez seja pela questão de [ele] achar que iria continuar governando através de mim. Um pouco também misógino isso, achar que as mulheres são comandadas ou podem ser marionetes”, disse.
A tensão entre os dois ganhou força após a divulgação de um vídeo gravado por Ibaneis na semana passada, no qual o ex-governador afirma estar decepcionado com Celina e sugere um “realinhamento” político entre ambos. Ibaneis deixou o Governo do Distrito Federal em março para disputar uma das vagas ao Senado nas eleições de outubro.
A crise política ocorre em meio ao escândalo envolvendo o BRB e o Banco Master. Ibaneis foi um dos principais defensores da tentativa frustrada do banco estatal distrital de adquirir o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro. Apesar de a operação ter sido barrada pelo Banco Central, o BRB segue enfrentando dificuldades financeiras decorrentes da compra de ativos e carteiras de crédito consideradas fraudulentas.
Daniel Vorcaro e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa estão presos e negociam acordos de delação premiada. Nos bastidores políticos de Brasília, lideranças relatam um crescente distanciamento entre Celina e Ibaneis. Segundo interlocutores ouvidos pela reportagem, o emedebista reclama que sequer consegue contato telefônico com a governadora.
Apesar da crise, Celina afirmou que jamais cogitou retirar Ibaneis de sua chapa eleitoral para 2026. O acordo político firmado antes do escândalo do BRB previa uma vaga ao Senado para Ibaneis e outra para a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), aliada próxima da governadora. Mesmo assim, a deputada federal Bia Kicis (PL-DF) também já anunciou intenção de disputar o Senado ao lado de Michelle.
“Nunca foi falado que ele não teria [espaço na chapa], até porque ele tem partido. Se ele tem partido, ele tem a vaga dele na majoritária”, afirmou Celina.
Na tentativa de conter o desgaste na base aliada, a governadora reuniu-se na segunda-feira (25) com presidentes de partidos aliados ao lado do secretário da Casa Civil, Gustavo Rocha (Republicanos), apontado como seu pré-candidato a vice-governador. Segundo relatos feitos à Folha, Celina defendeu a manutenção da unidade do grupo político, incluindo o MDB de Ibaneis.
A governadora também reconheceu internamente que a crise envolvendo o BRB tem consumido grande parte de sua atenção administrativa e política.
Outro fator que preocupa o Palácio do Buriti é a possível volta do ex-governador José Roberto Arruda (PSD) ao cenário eleitoral. Arruda tenta recuperar seus direitos políticos quase 15 anos após os escândalos da Operação Caixa de Pandora, investigação que revelou o chamado mensalão do DEM no Distrito Federal.
A eventual candidatura de Arruda depende do julgamento em andamento no Supremo Tribunal Federal sobre alterações na Lei da Ficha Limpa aprovadas pelo Congresso Nacional no ano passado. A ministra Cármen Lúcia, relatora do caso, votou para restaurar o texto original da legislação e classificou as mudanças como um “patente retrocesso”.
Celina também foi questionada sobre uma reunião realizada no último dia 12 com o ministro Cristiano Zanin, do STF. Segundo informações obtidas pela Folha, o encontro teria abordado tanto a situação do BRB quanto o julgamento relacionado à Lei da Ficha Limpa. A agenda inicial do ministro registrava os dois temas, mas posteriormente a referência à Ficha Limpa foi retirada após solicitação do Governo do Distrito Federal.
A governadora negou que tenha tratado do tema com Zanin. “A gente tratou sobre BRB. A gente não entrou nesse tema, não”, afirmou. Sobre a alteração na agenda oficial, disse: “Não fui que pedi a agenda, foi a assessoria. Então não sei.”
O julgamento no STF ocorre em plenário virtual e pode ser concluído até sexta-feira (29), caso não haja pedido de vista ou destaque para análise presencial. Até o momento, além de Cármen Lúcia, o ministro Luiz Fux também votou pela retomada do texto original da Lei da Ficha Limpa.



