Celina Leão responsabiliza Ibaneis Rocha pela crise do BRB
“Se eu fosse governadora, por exemplo, não teria o escândalo do Master", disse ela
247 – A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), atribuiu ao governo de seu antecessor, Ibaneis Rocha (MDB), a responsabilidade política pela crise que atingiu o Banco de Brasília (BRB) após o escândalo envolvendo o Banco Master. Em entrevista ao Valor, Celina afirmou que não participava das decisões estratégicas do banco quando era vice-governadora, disse que tomava conhecimento dos fatos pela imprensa e declarou que, se estivesse no comando do governo à época, o caso não teria ocorrido.
“Se eu fosse governadora, por exemplo, não teria o escândalo do Master [no BRB]. Na época, eu tomava conhecimento das decisões pela imprensa, não participava delas e era contrária”, afirmou Celina ao Valor. A declaração marca um rompimento público com Ibaneis e aprofunda a disputa política no Distrito Federal em meio às consequências financeiras e institucionais da crise do BRB.
A governadora também afirmou que tinha uma relação ruim com Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, hoje preso. Segundo Celina, ele era seu desafeto político e tinha pretensões eleitorais próprias. “Eu também sempre tive uma péssima relação com Paulo Henrique. Ele era um desafeto político. Acho que ele nutria até uma vontade de ser governador, ele falava para as pessoas que queria ser governador”, disse.
Rompimento com Ibaneis
Na entrevista, Celina afirmou que sempre foi leal a Ibaneis Rocha, inclusive durante a crise política aberta pelos atos de 8 de janeiro. Ela lembrou ter ido pessoalmente à Câmara Legislativa pedir a retirada de pedidos de impeachment contra o então governador. Apesar disso, disse que a sucessão no governo não poderia significar continuidade automática da influência de Ibaneis sobre a gestão.
“Sempre fui muito correta com o governador Ibaneis. Estive presente no momento mais difícil da vida pública dele, que foi o 8 de janeiro. Fui pessoalmente à Câmara Legislativa pedir a retirada dos pedidos de impeachment que tinham sido apresentados”, afirmou.
Celina declarou que, ao assumir o governo, decidiu trocar a equipe econômica. Segundo ela, Ibaneis nunca lhe disse pessoalmente que estava insatisfeito, mas sua percepção é que o antecessor imaginava que continuaria exercendo influência direta sobre o Executivo local.
“Ele nunca chegou para mim pessoalmente para dizer que estava chateado, mas a percepção que tenho é que talvez existisse um sentimento de que ele continuaria sendo governador. E isso é inadmissível para mim. Eu vou escolher a minha equipe para ajudar a resolver essas questões”, disse.
A governadora resumiu a divergência em uma frase de forte impacto político: “Sucessão nunca será submissão”.
Crise do BRB e Banco Master
O BRB tornou-se um dos focos do escândalo envolvendo o Banco Master. Segundo Celina, a operação que levou à crise foi conduzida sem sua participação direta. Ela afirmou que havia preocupação na cidade com a situação do banco e que a Câmara Legislativa chegou a discutir o tema em uma CPI, posteriormente encerrada.
“Sempre se comentava que aquilo poderia se transformar em um grande problema, porque o governo era controlador de um banco”, disse.
Celina afirmou ainda que só teve dimensão completa da situação fiscal do Governo do Distrito Federal quando seu secretário de Economia assumiu o cargo. “Eu só tive a noção de verdade no dia que o meu secretário assumiu. Eu não conseguia enxergar todos os pedaços”, declarou.
Segundo a governadora, representantes da associação de funcionários do BRB a procuraram antes de ela assumir o governo para manifestar preocupação com a situação da instituição. Eles queriam saber, de acordo com Celina, se Paulo Henrique Costa permaneceria no comando do banco.
“Eles disseram que estavam preocupados porque haviam precisado fazer um aporte de capital para comprar ações e que não sabiam quem tinha adquirido essas ações. Naquele momento, nós também não sabíamos. Só fomos descobrir depois, com a auditoria”, relatou.
Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro
Celina também afirmou que Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, sabia que seria retirado do cargo quando ela assumisse o governo. Segundo a governadora, ele tentava se manter no comando por meio da operação envolvendo o Banco Master.
“O Paulo Henrique sabia que ele ia sair [quando eu assumisse o governo]. Ele trabalhava para ser o controlador pela parte do Master. Porque ele estava fazendo uma fusão, comprando as carteiras do Master e, em algum momento, o Master teria um pedaço do BRB”, afirmou.
A governadora disse ainda que Paulo Henrique acreditava que não poderia ser removido caso fosse indicado pelo Master. “O Paulo Henrique achava que eu não conseguiria tirá-lo porque ele seria o indicado do Master”, completou.
Sobre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, Celina afirmou que não mantinha relação pessoal com ele. “O Daniel Vorcaro, antes do escândalo do Master, todo mundo era amigo dele. Ele frequentava as rodas da alta sociedade. Eu posso ter encontrado em público, mas eu não tinha nem o telefone dele”, disse.
Disputa com o governo federal
Além de responsabilizar a gestão anterior pela origem da crise, Celina criticou o governo federal pela demora em apoiar uma solução para o BRB. Segundo ela, o Palácio do Planalto ignorou pedidos de audiência com o presidente Lula. A governadora afirmou que tentou várias vezes se reunir com o presidente para tratar do saneamento do banco, mas não foi recebida.
“Ele não me atendeu. Mas pelo menos o ministro [da AGU] fez o acordo no Supremo”, declarou.
Celina disse que decidiu judicializar a questão porque entendia que o Distrito Federal tinha condições financeiras para contratar o empréstimo necessário ao socorro do banco, mesmo com classificação Capag C. O acordo acabou sendo conduzido no Supremo Tribunal Federal, após o ministro Luiz Fux dar prazo para a União se manifestar.
“Eu judicializei a causa, porque várias vezes o Ministério da Fazenda fornece aval para muitos Estados que tinham uma condição financeira e até um histórico ruim de pagamento”, afirmou.
A governadora disse que a situação do BRB era singular, pelo volume de serviços públicos, depósitos judiciais e contas vinculadas à instituição. Segundo ela, uma eventual liquidação teria efeitos graves para o Distrito Federal e para o sistema financeiro.
“Pararia tudo”, disse Celina, ao ser questionada sobre os impactos sobre programas sociais e sistema de bilhetagem.
Privatização descartada
Celina descartou a privatização do BRB e defendeu que o banco continue público. Questionada sobre a possibilidade de venda da instituição, foi direta: “Fora de questão”.
A governadora também afirmou acreditar na recuperação de parte dos valores envolvidos no escândalo do Master. Segundo ela, há expectativa em torno de eventual delação premiada de Daniel Vorcaro e da venda de ações do BRB que teriam sido adquiridas pelo grupo do empresário e hoje estão bloqueadas.
“Nós temos 20% das ações que eram do próprio [Daniel] Vorcaro, que ele comprou e nós conseguimos bloqueá-las. Isso foi descoberto pela nossa auditoria. Isso está bloqueado, eu acredito que isso vai ser devolvido como parte de pagamento. A gente pode botar essas ações para vender também”, disse.
Celina afirmou ainda que o BRB é o maior patrimônio público financeiro do Distrito Federal e acusou adversários políticos e setores do mercado financeiro de explorarem a crise em ano eleitoral.
“Você sabe qual é o pior problema da crise do BRB? É estar em ano eleitoral. Porque é um banco sólido, importante para o fomento local, mas os grupos contrários trabalham contra o maior patrimônio público financeiro do Distrito Federal, que é o BRB”, declarou.
Ajuste fiscal no Distrito Federal
Como parte do acordo para viabilizar o socorro ao BRB, Celina afirmou que o governo local adotará medidas de ajuste fiscal até dezembro. Ela citou corte de contratos, redução de custeio, contingenciamento de 25% do Orçamento e cancelamento de empenhos.
“Nós cortamos contratos, cortamos custeio. Nós estamos cortando. É um decreto linear de 25% de redução de contratos”, afirmou.
A governadora disse que o objetivo é enquadrar o Distrito Federal no artigo 167-A da Constituição Federal, que prevê medidas de ajuste para entes com despesas correntes acima de 95% das receitas. Segundo Celina, isso deve ocorrer já em agosto.
“Estou cancelando empenhos, contingenciando o Orçamento em 25%, deixando de pagar quase R$ 1 bilhão em aluguel”, declarou.
Michelle Bolsonaro e cenário eleitoral
Celina também comentou o cenário eleitoral nacional e a posição do PP diante de uma eventual candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. Ela afirmou não saber qual será a posição de Ciro Nogueira, presidente do partido, mas disse que ele já declarou que não poderia negar nada a Jair Bolsonaro.
No Distrito Federal, Celina afirmou ter amizade pessoal com Michelle Bolsonaro e defendeu sua capacidade política. “Ela é uma mulher de fé e alguém que não abre mão dos próprios princípios por conveniência ou por pressão de quem quer que seja”, disse.
A governadora afirmou ainda que Michelle enfrenta obstáculos semelhantes aos vividos por outras mulheres na política. “Se não ocuparmos o nosso espaço por iniciativa própria, dificilmente alguém vai abrir a porta para nós. Há uma tendência de subestimar a capacidade das mulheres de articular, negociar e pensar estrategicamente. A Michelle tem muito a dizer”, afirmou.
Delações e impacto político
Questionada se teme eventual delação de Paulo Henrique Costa ou de Daniel Vorcaro, Celina disse que acusações precisam estar amparadas em provas. Segundo ela, sua última mensagem a Paulo Henrique, caso o aparelho dele tenha sido entregue à polícia, foi uma cobrança de explicações sobre o que havia ocorrido.
“Quando você faz uma acusação ou estabelece uma relação entre pessoas e fatos, precisa apresentar o mínimo de materialidade, o mínimo de lastro probatório”, afirmou.
A governadora disse que a resposta de Paulo Henrique foi a de que provaria a própria inocência. “Não é possível simplesmente citar o nome de pessoas sem apresentar evidências”, declarou.


