Rui Costa Pimenta diz que caso Banco Master expõe crise do regime político brasileiro
"Essa delação de Vorcaro é um jogo de esconde-esconde. Ele não quer delatar as pessoas importantes", disse Rui
247 – O presidente do PCO, Rui Costa Pimenta, afirmou que o caso envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master revela uma crise profunda no regime político brasileiro e expõe disputas entre grandes bancos, Supremo Tribunal Federal, Polícia Federal e diferentes setores da política nacional.
As declarações foram dadas em entrevista à jornalista Andrea Trus, na TV 247, nesta sexta-feira (12). Ao longo da conversa, Rui analisou a possível delação de Vorcaro, a situação política na Bolívia, Peru e Colômbia, a resistência do Irã diante dos Estados Unidos e de Israel, a decisão da Justiça italiana no caso Carla Zambelli e os episódios de constrangimento envolvendo profissionais estrangeiros na Copa do Mundo.
Delação de Vorcaro é “jogo de esconde-esconde”, diz Rui
Ao comentar a possível delação de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, Rui Costa Pimenta afirmou que o empresário estaria evitando atingir os nomes mais importantes ligados ao caso.
"Essa delação de Vorcaro é um jogo de esconde-esconde. Ele não quer delatar as pessoas importantes", disse Rui.
Segundo ele, Vorcaro estaria disposto a entregar nomes que considera secundários, mas não os setores centrais do poder. "Ele está entregando algumas pessoas que considera mais secundárias, como Ciro Nogueira, por exemplo. Também ouvi rumores de que ele delataria Alcolumbre", afirmou.
Para Rui, o ponto central da crise não estaria apenas nos políticos mencionados nas especulações, mas na relação do caso com o STF. "O problema aqui não são essas pessoas. O problema é o STF, logicamente. Ele não quer delatar o STF porque tem a expectativa de que, mesmo que seja condenado, finalmente esse pessoal o tirará da cadeia", declarou.
Na avaliação do presidente do PCO, se a delação não avançar sobre os principais envolvidos, o escândalo corre o risco de ser esvaziado. "Apesar de a Polícia Federal e Mendonça estarem pressionando Vorcaro, essa delação parece difícil. Isso significa que o escândalo do Banco Master terminará em nada, se continuar assim", afirmou.
Banco Master, bancos e STF
Rui Costa Pimenta rejeitou a interpretação de que o principal objetivo da delação seria atingir o governo do presidente Lula ou interferir diretamente nas eleições. Para ele, o conflito está mais ligado à disputa entre o sistema financeiro e setores do Judiciário.
"O que está em jogo na questão de Vorcaro não são as eleições", disse.
Segundo Rui, Vorcaro teria feito uma ofensiva contra o espaço dominado pelos grandes bancos, usando métodos que classificou como ilegais, mas que teriam sido tolerados ou apoiados por setores do poder.
"Vorcaro fez uma investida, com métodos ilegais, no terreno dos grandes bancos. Ele mesmo afirmou, antes de ser indiciado, que estava sendo perseguido pelos grandes bancos, e isso era verdade", afirmou.
Na análise do dirigente do PCO, o Banco Central teria atuado sob influência dos grandes bancos ao barrar a operação envolvendo o Banco Master e o BRB. "O Banco Central, que está sob controle dos bancos, interditou a tentativa de fusão, de compra do banco pelo BRB, que era a carta de saída dele da crise. E então a crise explodiu", disse.
Rui afirmou ainda que a disputa pode atingir ministros do Supremo. "Acredito que eles estão tentando alcançar Alexandre de Moraes, Toffoli e, eventualmente, Gilmar Mendes", declarou.
Bolívia mostra caminho de resistência, afirma dirigente do PCO
A entrevista também abordou a crise política na Bolívia. Rui destacou o que chamou de aspecto positivo da reação popular ao governo Rodrigo Paz.
"Primeiro, acho que devemos destacar o aspecto muito positivo do que acontece na Bolívia. A população se levantou rapidamente", afirmou.
Segundo ele, os protestos refletem a rejeição a uma política econômica que considera destrutiva. "A população se levantou contra uma política criminosa, uma política de destruição da economia boliviana, de entrega da economia do país", disse.
Para Rui, a mobilização boliviana pode antecipar uma tendência em outros países da América do Sul. "Acredito que esse é um movimento muito importante dos bolivianos e que, de certa forma, mostra ao restante da América do Sul o caminho a ser seguido", afirmou.
Ele citou também tensões no Peru, no Chile, no Equador, na Colômbia e na Argentina, apontando para um cenário regional de instabilidade e avanço da extrema direita, mas também de resistência popular.
"O caso boliviano deve ser analisado com bastante cuidado, porque, na minha opinião, é um caminho — e talvez o único — para enfrentar o que virá pela frente", declarou.
Crise da esquerda e esgotamento do regime eleitoral
Ao responder sobre a possibilidade de derrotar o imperialismo por dentro das instituições tradicionais, Rui foi categórico.
"Não é possível. Mas acho que não podemos alimentar a ilusão de que, por meio dos recursos oferecidos pelo regime político, derrotaremos o imperialismo. Isso é uma ilusão absurda", afirmou.
Para o presidente do PCO, a via eleitoral se mostrou insuficiente em vários países latino-americanos. "A via eleitoral já se mostrou, em todos os países, um beco sem saída", disse.
Ele afirmou que a esquerda adaptada ao regime político passa por uma crise profunda. "A esquerda que se adaptou ao regime político atravessa uma crise muito grande, eu diria até um processo de esgotamento", declarou.
Rui citou Chile, Bolívia e Argentina como exemplos de experiências em que setores progressistas ou nacionalistas se desgastaram no governo e abriram espaço para forças conservadoras ou de extrema direita.
Irã se tornou peça central da resistência no Oriente Médio
Na pauta internacional, Rui Costa Pimenta analisou a crise envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel. Ele afirmou que a questão nuclear iraniana já escapou da capacidade de controle do imperialismo.
"A questão nuclear já está fora da capacidade de controle do imperialismo, no que diz respeito ao problema da energia nuclear no Irã", disse.
Segundo ele, os Estados Unidos não conseguirão impedir o Irã de desenvolver tecnologia nuclear caso o país decida seguir esse caminho. "Não há como afetar a capacidade do Irã de produzir armas nucleares. Isso é uma fantasia", afirmou.
Rui sustentou que o debate nuclear é usado como pretexto. "O problema ali não é o das armas nucleares. Isso é um pretexto que o imperialismo utiliza", declarou.
Para ele, a questão central é o papel do Irã como articulador de forças de resistência no Oriente Médio. "O Irã se transformou na peça central de um amplo movimento de resistência em vários países", afirmou.
Rui citou a resistência palestina, o Hezbollah e o Iêmen como parte desse processo. "A maior ameaça que o imperialismo sofre neste momento é essa", disse.
Ataque ao Irã foi “um erro”, diz Rui
Rui avaliou que a ofensiva contra o Irã produziu efeitos contrários aos esperados pelos Estados Unidos e por Israel.
"Foi um erro. Ninguém tem dúvida sobre isso. Todos caracterizam essa ação como um erro", afirmou.
Segundo ele, a ação fortaleceu a percepção de que o Irã é uma potência militar relevante. "O Irã aparece como uma potência militar muito respeitável, muito considerável, e isso fortalece as tendências de rebelião dos povos da região", declarou.
Rui também afirmou que a crise no Oriente Médio tem impactos sobre países aliados dos Estados Unidos, que enfrentam pressões internas. Ele mencionou o caso do Kuwait e disse que a guerra estimulou mobilizações contra governos alinhados a Washington.
Para o dirigente do PCO, a instabilidade se espalha por toda a região. "Quando se desestabiliza um setor, outros acabam sendo desestabilizados, e os problemas crescem", disse.
Decisão italiana sobre Zambelli é “tapa na cara do STF”
Outro tema da entrevista foi a decisão da Suprema Corte da Itália que revogou a extradição de Carla Zambelli ao apontar violação do direito de defesa. Rui afirmou que o caso confirma críticas feitas ao Supremo Tribunal Federal e ao ministro Alexandre de Moraes.
"Nós sempre dissemos que aquilo que Alexandre de Moraes e o STF, particularmente Alexandre de Moraes, estavam fazendo era uma violação de direitos fora do comum", disse.
Segundo ele, a Justiça italiana analisou o caso sem o mesmo grau de polarização presente no Brasil. "Um caso brasileiro foi parar em uma corte italiana que não tem a mesma paixão política existente no Brasil. E eles acharam um absurdo. E estão certos", afirmou.
Rui disse que não apenas Zambelli teve direitos violados. "Não foi apenas o direito dela que foi violado. O direito de muitas pessoas foi violado, e de uma maneira, na minha opinião, grotesca", declarou.
Para ele, a decisão italiana tem impacto político direto sobre o STF. "O caso de Carla Zambelli é um tapa na cara do STF", afirmou.
Rui critica ideia de combater extrema direita com prisões
Durante a entrevista, Rui também criticou a posição de setores da esquerda que defendem a prisão de adversários políticos como método de enfrentamento.
"O povo não vencerá por meio da prisão dos adversários. Quem prende no Brasil são os poderosos. Quem tem a chave da cadeia, quem tem os juízes, é a burguesia", afirmou.
Segundo ele, alimentar essa ilusão pode ter efeito contrário. "As forças populares, principalmente aquelas que se consideram revolucionárias e marxistas, não podem pensar que progrediremos por meio da prisão dos adversários", disse.
Rui afirmou ainda que acreditar que o STF atua em favor do povo seria uma leitura equivocada da realidade política brasileira. "Se alguém acredita que o STF está a favor do povo, acredita em algo muito distante da realidade", declarou.
Copa expõe tratamento dos Estados Unidos a estrangeiros
No bloco final da entrevista, Rui comentou episódios envolvendo profissionais estrangeiros impedidos de entrar ou constrangidos nos Estados Unidos durante a Copa. Ele citou o caso de um juiz barrado e classificou a conduta como vergonhosa.
"É uma vergonha o que os Estados Unidos estão fazendo. Mandaram de volta um juiz. Qual é a justificativa? O juiz guardaria o apito e lançaria uma bomba nos Estados Unidos?", questionou.
Para Rui, os episódios revelam a lógica de opressão exercida pelo imperialismo. "É uma manifestação de opressão, de desconsideração grotesca", afirmou.
Ele disse que o impacto desses casos tende a ser grande porque a Copa do Mundo é o evento mais assistido do planeta.
"A Copa do Mundo é o evento mais assistido do planeta Terra. Não há nada mais assistido do que a Copa do Mundo. Ela é acompanhada por todos os países, e todos estão vendo", declarou.
Rui também criticou a Fifa por não reagir de forma firme aos abusos. "A Fifa, logicamente, não tem nem o que explicar. É uma máfia, é um negócio, uma conduta sempre criminosa", afirmou.
Para ele, o tratamento dado a atletas, árbitros e jornalistas estrangeiros permite imaginar o que ocorre com pessoas comuns. "Se, na Copa do Mundo, com jogadores profissionais, juízes profissionais, todos vinculados à Fifa, e atletas que fazem parte de seleções nacionais, o tratamento é esse, imagine como é o tratamento dado à pessoa comum", concluiu.



