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Pedro Uczai pede 'CPMI do Bolso Master' e responsabiliza governo Bolsonaro

Líder do PT na Câmara afirma que patrimônio do Master saltou de R$ 3,7 bi para R$ 82 bi sob Campos Neto e citou alguns nomes da extrema direita

Pedro Uczai (Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados)

247 - O líder do PT na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai (SC), subiu à tribuna nesta quarta-feira (11) para responsabilizar o governo de Jair Bolsonaro e a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central pelo escândalo bilionário que envolve o Banco Master. Em pronunciamento detalhado, o parlamentar defendeu a criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito — batizada por ele de "CPMI do Bolso Master" — para investigar o caso em profundidade.

Segundo Uczai, o colapso da instituição financeira controlada pelo banqueiro Daniel Vorcaro não foi um acidente, mas o resultado previsível de um ambiente de omissão deliberada da autoridade monetária. Os dados apresentados pelo deputado ilustram a dimensão do problema: o patrimônio do Master cresceu mais de 2.000% entre 2019 e 2024, saltando de R$ 3,7 bilhões para R$ 82 bilhões — expansão que, na avaliação do parlamentar, não poderia ter passado despercebida pelo BC.

A omissão do Banco Central

Para Uczai, a trajetória do Master durante o governo anterior é inexplicável sem que se questione o papel do regulador. "É impossível discutir o caso Master sem questionar a atuação da autoridade monetária à época presidida por Roberto Campos Neto. A expansão do banco ocorreu integralmente durante sua gestão", afirmou o deputado.

O líder petista traçou um contraste direto entre as gestões de Campos Neto e de Gabriel Galipolo, atual presidente do BC, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na avaliação do parlamentar, somente após a mudança no comando do órgão é que o banco passou a ser devidamente fiscalizado, o que abriu caminho para sua liquidação. Antes disso, acusou Uczai, a postura do BC equivalia a estender "um tapete vermelho na porta da autoridade monetária para recepcionar Vorcaro".

A engenharia dos CDBs e o rombo no FGC

O deputado explicou o mecanismo utilizado pelo Banco Master para captar recursos e atrair investidores. A estratégia era simples em sua aparência e devastadora em seus efeitos: a emissão de Certificados de Depósito Bancário com rendimento de 140% do CDI, patamar muito acima do praticado por qualquer outra instituição financeira do país.

"Qual é a engenharia que o Banco Master montou? Montou uma engenharia de CDBs, oferecendo rendimento de 140% do CDI. Nenhuma instituição financeira pagava tanto", destacou Uczai. A promessa de retornos elevados atraiu 1,6 milhão de investidores. Quando o BC autorizou a liquidação do banco, R$ 41 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos precisaram ser mobilizados para honrar os compromissos com esses correntistas. O FGC, embora de natureza privada, acabou conferindo, na visão do deputado, "credibilidade para as falcatruas realizadas" por Vorcaro.

A teia política do escândalo

Em seu pronunciamento, Uczai foi além da dimensão financeira e mapeou as conexões políticas que, segundo ele, permeiam o caso. O primeiro nome citado foi o do senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, que após a eclosão do escândalo apresentou emenda para elevar o limite de cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF. "Isso daria, se tivesse sido aprovado no Senado, R$ 160 bilhões em recursos do FGC que teriam que ser pagos a esses 1,6 milhão de investidores", calculou o parlamentar.

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), também foi citado. Segundo Uczai, Ibaneis autorizou o Banco Regional de Brasília a injetar R$ 12 bilhões no Master em uma operação que teria ocorrido quando a instituição já caminhava para o colapso. O deputado afirmou que o Master teria simulado a compra de uma carteira de crédito de cerca de R$ 6 bilhões que "simplesmente não existia", posteriormente revendida ao BRB pelo dobro do valor.

No Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro (PL-RJ) foi apontado como responsável por permitir que o fundo de pensão dos servidores fluminenses aportasse R$ 1 bilhão no Master — operação realizada a despeito de alertas formais do Tribunal de Contas do Estado e que hoje está na mira da Polícia Federal, em razão do risco que representa para a aposentadoria dos servidores estaduais.

Ainda no contexto fluminense, Uczai lembrou que a PF prendeu Alessandro Carracena, ex-secretário de Esporte do governo Castro, indicado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O deputado afirmou que a indicação teria ocorrido "em conluio com o Comando Vermelho, utilizando recursos numa relação promíscua com o Banco Master."

Doações milionárias e aeronave de campanha

O pronunciamento de Uczai também revelou conexões entre o entorno financeiro do Master e figuras centrais do bolsonarismo. Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, teria feito doações expressivas nas eleições de 2022: R$ 3 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro e outros R$ 2 milhões para o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), hoje um dos principais nomes da direita brasileira e aliado do ex-presidente, que se encontra preso por tentativa de golpe de Estado.

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) também foi mencionado. Segundo Uczai, o parlamentar utilizou aeronave pertencente a Vorcaro durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2022, acompanhado de influenciadores digitais e pastores, para fazer campanha em capitais do Nordeste brasileiro.

Nas investigações em curso, as operações do Banco Master teriam sido lastreadas por fundos, títulos sem valor real ou simulações fraudulentas — quadro que, na avaliação do líder petista, torna indispensável a criação de uma comissão parlamentar com poderes investigativos para apurar todas as ramificações do escândalo.

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