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Proposta de delação premiada de Vorcaro à PF e à PGR deve sair em até 3 semanas

Se o ministro do STF André Mendonça aprovar o acordo, o processo de homologação deve levar cerca de 60 dias

Daniel Vorcaro (Foto: Reprodução)

247 - O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, deve formalizar uma proposta de delação premiada à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) no prazo de até três semanas. A apresentação ficará a cargo da defesa do empresário e foi noticiada nesta quarta-feira (25) no blog da Julia Duailibi, no Portal G1. 

Caso PF e PGR aceitem os termos da proposta, as negociações formais serão abertas. Se o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça chancelar o acordo, o processo de homologação deve levar cerca de 60 dias.

O empresário está preso desde 19 de março na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. A corporação investiga um esquema de fraudes financeiras que, segundo as autoridades, movimentou entre R$ 12 bilhões e R$ 17 bilhões. A expectativa é que até 15 políticos sejam citados na delação de Vorcaro. 

O colapso do Banco Master — instituição controlada pelo empresário — é considerado o maior escândalo financeiro do país nos últimos anos e expôs falhas graves de fiscalização, governança e controle institucional.

Como o esquema funcionava

O Banco Master cresceu de forma acelerada ao oferecer Certificados de Depósito Bancário (CDB) com rentabilidade muito superior à média praticada pelo mercado — chegando a 140% da taxa do CDI, patamar considerado insustentável por especialistas. Para sustentar esse modelo, segundo os investigadores, a instituição passou a assumir riscos progressivamente mais elevados e a estruturar operações que inflavam artificialmente seu balanço contábil, enquanto a liquidez real se deteriorava de forma silenciosa.

Entre 2023 e 2024, o Master teria desviado cerca de R$ 11,5 bilhões por meio de triangulações financeiras. O mecanismo funcionava da seguinte forma: o banco emprestava recursos a empresas suspeitas de atuarem como laranjas, que por sua vez aplicavam o dinheiro em fundos administrados pela gestora Reag Investimentos. 

Os fundos adquiriam ativos de valor irrisório ou inexistente — como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc) — por preços artificialmente elevados. O Banco Central identificou seis fundos da Reag sob suspeita, com patrimônio conjunto declarado de R$ 102,4 bilhões.

A pirâmide financeira

Para adiar o inevitável colapso, o banco adotou uma estratégia característica de esquemas Ponzi: utilizava recursos captados com novos investidores para honrar os compromissos com os antigos. Empréstimos com carência de até cinco anos eram concedidos para postergar a inadimplência. Quando as primeiras suspeitas sobre a solidez da instituição emergiram em 2024, a captação secou e o caixa entrou em colapso. O banco foi liquidado quando já não conseguia cobrir nem 15% dos vencimentos semanais.

A tentativa de salvar o banco via BRB

Em busca de liquidez, o Master simulou a aquisição de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões da empresa Tirreno — operação que existia apenas no papel, sem qualquer pagamento ou crédito real. O Banco Central analisou os CPFs vinculados à carteira e concluiu que as operações eram fictícias. 

A mesma carteira foi posteriormente revendida ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões, após manipulação da taxa de juros. Em setembro, o BC interveio e bloqueou a tentativa de venda de parte do Master ao BRB, operação que, segundo a investigação, tinha como objetivo fundir os balanços das instituições e diluir a fraude dentro de um banco público.

O papel da Reag Investimentos

A gestora Reag Investimentos aparece como peça central em toda a engrenagem do esquema. Suspeita de facilitar a constituição de empresas de fachada e de valorizar ativos fictícios, a Reag foi posteriormente liquidada pelo Banco Central — medida vista pelas autoridades como desdobramento direto do caso Master. Os fundos administrados pela gestora não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), embora os cotistas tenham a opção de migrar para outra gestora.

Tensão entre instituições

Apesar de representar apenas 0,5% dos ativos do sistema financeiro nacional, a liquidação do Master gerou uma crise institucional de proporções incomuns. O caso passou a ser disputado simultaneamente no STF, no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Congresso Nacional. O Banco Central chegou a firmar acordo com o TCU para permitir a inspeção de documentos, desde que o sigilo bancário e as prerrogativas da autoridade monetária fossem preservados.

O ministro Dias Toffoli, do STF, chegou a tentar realizar uma acareação envolvendo o diretor de Fiscalização do Banco Central, mas recuou e determinou que a PF colhesse apenas depoimentos adicionais de Vorcaro e do ex-presidente do BRB. Toffoli também determinou que todo o material apreendido pela PF na Operação Compliance Zero ficasse custodiado no STF, mas posteriormente autorizou sua análise pela Polícia Federal com apoio da PGR.

O impacto para os investidores

Com a liquidação do Banco Master, o FGC herdou a responsabilidade de ressarcir cerca de 1,6 milhão de clientes. O fundo estima desembolsar aproximadamente R$ 41 bilhões — valor equivalente a um terço de seu patrimônio total e o maior resgate da história da instituição. O teto de cobertura é de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. O pagamento, no entanto, ainda aguarda a consolidação da lista de credores pelo liquidante, trabalho que permanecia incompleto dois meses após a decretação da liquidação.

Um grupo especialmente vulnerável são os 18 fundos de pensão estaduais e municipais que investiram R$ 1,86 bilhão em fundos do Master e em Letras Financeiras. Esses investimentos não se enquadram nas coberturas do FGC, o que significa que esses cotistas não serão ressarcidos.

Caso é histórico

O escândalo do Banco Master ultrapassou os limites de uma crise financeira convencional. O episódio expôs fragilidades estruturais no sistema de fiscalização, o uso indevido de fundos de investimento e a pressão exercida sobre instituições de controle. Auditores e agências de rating que atestavam a saúde financeira do banco também passaram a ser questionados. O caso deve se tornar referência para mudanças regulatórias e reacender o debate sobre governança e supervisão no mercado financeiro brasileiro.

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