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Renan acusa centrão de pressionar ministro do TCU para reverter liquidação do Banco Master

Senador afirma que relatório sobre a atuação do Banco Central foi colocado sob sigilo e articula grupo de trabalho na CAE com STF e Polícia Federal

Renan Calheiros (Foto: Andressa Anholete/Agência Senado)

247 – O senador Renan Calheiros (MDB-AL) afirmou, na quarta-feira (11), que o ministro Jhonatan de Jesus, do TCU (Tribunal de Contas da União), teria sido pressionado por lideranças do centrão para tentar reverter a liquidação do Banco Master, determinada pelo Banco Central em novembro de 2025. As declarações foram publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo, em meio ao avanço de apurações e ao movimento de senadores para acompanhar o caso no Congresso e no Judiciário.

A fala de Renan ocorre num momento em que o TCU conduz uma inspeção sobre a conduta do Banco Central no processo de liquidação do Master, a pedido do próprio ministro Jhonatan de Jesus. O episódio ganhou novo contorno com a decisão do relator de impor restrições de acesso a documentos e relatório técnico interno, o que, segundo relatos, acendeu alertas dentro da autoridade monetária sobre riscos de manobras institucionais e perda de transparência em um caso de alto impacto no sistema financeiro.

Pressão política e clima de constrangimento no TCU

Após reunião com o ministro Edson Fachin, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Renan disse ter relatado o que chamou de ambiente de intimidação na corte de contas. O senador descreveu o encontro como parte de uma ofensiva do grupo de trabalho criado na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) para acompanhar investigações e medidas relacionadas ao Banco Master.

Em sua versão, a pressão do centrão teria como objetivo alterar o rumo da liquidação determinada pelo Banco Central, tocando num ponto sensível: a autonomia técnica de órgãos de controle e regulação diante de interesses políticos.

Renan afirmou: "Contei para o ministro Fachin o clima de constrangimento no Tribunal de Contas da União". Em seguida, elevou o tom e fez a acusação central: "O centrão chantageou o ministro do Tribunal de Contas para que ele acabasse com a liquidação do Banco Central. Ele hoje decretou sigilo das informações para o Banco Central e para os próprios ministros do Tribunal de Contas da União".

O senador também mencionou que a decisão teria restringido o fluxo de informações, inclusive internamente, no próprio TCU. A controvérsia gira em torno do relatório elaborado pela área técnica da corte após a inspeção sobre a conduta do BC no caso Master, documento que passou a ter acesso controlado.

Sigilo, Banco Central e disputa por transparência

A decisão de restringir o acesso do Banco Central a peças do procedimento, além de impor obstáculos adicionais à leitura do material, foi recebida com preocupação por integrantes da autoridade monetária, segundo a reportagem. O temor apontado por essas fontes é que um processo com baixa transparência possa abrir brecha para disputas políticas em torno do voto do relator, ainda que a tendência mencionada por pessoas a par da investigação seja a de um parecer favorável à conduta do Banco Central.

Em nota citada na reportagem, o ministro Jhonatan de Jesus negou irregularidade e afirmou que a classificação de confidencialidade foi ajustada para reduzir risco de vazamentos, inclusive de informações que já seriam sigilosas por definição do próprio Banco Central. Segundo ele, houve uma mudança de “sigiloso” para “sigiloso com exigência de autorização específica de leitura”, e o procedimento teria precedentes no TCU.

O ministro declarou: "Tal procedimento não é inédito, pois já foi aplicado em outros processos no TCU. A solicitação [feita pela Secretaria-Geral de Controle Externo] foi deferida pelo relator do processo e contou com a ciência do Banco Central. O TCU esclarece que o Banco Central terá acesso a todas as peças processuais sempre que necessário, não havendo qualquer prejuízo ao órgão jurisdicionado".

Na prática, o embate expõe uma tensão recorrente em casos de alta sensibilidade: de um lado, o argumento de proteção de dados e prevenção de vazamentos; de outro, a exigência de transparência e rastreabilidade institucional, especialmente quando a decisão original envolve o Banco Central e o equilíbrio do sistema financeiro.

Grupo de trabalho na CAE, CPI e a ida ao STF

Renan, que preside a CAE, montou dentro da comissão um grupo de trabalho parlamentar para acompanhar o caso. Ele tem dito que apoia propostas de instalação de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), mas defende que o trabalho na CAE seja permanente, com monitoramento contínuo e requisição de informações.

No início da semana, o grupo aprovou 19 requerimentos de informações e convites para comparecimento. Entre os convidados estão Daniel Vorcaro, descrito na reportagem como ex-banqueiro e dono do Master, e seu ex-sócio, Augusto Lima. Renan disse que gostaria de iniciar as oitivas por eles, embora, por não se tratar de CPI, os convidados não tenham obrigação legal de comparecer.

No STF, segundo Renan, os senadores ouviram de Fachin concordância com críticas ao sigilo do inquérito relacionado ao caso. O senador relatou: "O presidente [do STF] não apenas concordou, como exaltou essa diretriz".

A comitiva que se reuniu com Fachin incluiu, além de Renan, os senadores Damares Alves (Republicanos-DF), Soraya Thronicke (Podemos-MS), Leila Barros (PDT-DF), Esperidião Amim (PP-SC), Izalci Lucas (PL-DF) e Fernando Farias (MDB-AL). O movimento indica uma tentativa de conferir peso institucional ao acompanhamento parlamentar, buscando interlocução direta com o topo do Judiciário.

Polícia Federal, pressões e operações ligadas ao caso

Antes da audiência no STF, os senadores se reuniram com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, a quem entregaram um convite para participar do grupo de trabalho. O mesmo convite, segundo a reportagem, deve ser levado ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, que estaria viajando.

Renan afirmou que a conversa com Andrei Rodrigues também serviu para demonstrar apoio ao trabalho da PF diante de possíveis pressões externas. Ele declarou: "Não é fácil, essa gente tinha ramificações em todos os poderes da República e isso precisa ser investigado."

O grupo de trabalho pediu acesso às operações ligadas ao caso, como a Compliance, e também à Carbono Oculto, que apura laços do crime organizado com fundos de investimentos, além de investigações em estados. Ao conectar essas frentes, o Senado tenta mapear a abrangência do caso e avaliar impactos no mercado financeiro e no aparato de fiscalização.

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