Após ser cobrado a "vestir a camisa", Haddad ironiza Gleisi
Ministra da Secretaria de Relações Institucionais defende candidatura em São Paulo, enquanto ministro da Fazenda reage com sarcasmo e mantém resistência
247 - A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR), defendeu publicamente que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT-SP), entre na disputa pelo governo de São Paulo, destacando a necessidade de engajamento dos principais quadros do partido nas eleições deste ano. A manifestação foi feita um dia antes de Haddad reagir com ironia ao apoio recebido, atitude que evidenciou sua resistência em assumir o protagonismo eleitoral esperado pelo PT.
Ao chegar ao Ministério da Fazenda na quinta-feira (29), Haddad comentou de forma sarcástica a defesa feita por Gleisi, com quem já teve embates internos ao longo do governo, inclusive sobre a condução da política econômica. “Estou comemorando a Gleisi ter me elogiado”, afirmou o ministro, em tom irônico, evitando responder diretamente ao apelo político feito pela colega de Esplanada.
Na véspera, Gleisi havia sido enfática ao afirmar que o partido precisa mobilizar seus principais nomes para enfrentar a extrema-direita nos estados, incluindo São Paulo, considerado estratégico para o projeto nacional do PT e para a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo a ministra, a participação de Haddad seria fundamental nesse processo, ainda que a decisão final dependa de diálogo com o presidente.
“Todos têm que entrar em campo, todos têm que vestir a camisa e fazer aquilo que melhor sabem fazer na disputa. Eu defendo que todos os quadros nossos, inclusive o ministro (Fernando Haddad), sejam candidatos nesse processo eleitoral. Nós precisamos disso. Nós precisamos fazer essa disputa nos estados para a extrema-direita e precisamos instalar os nossos melhores quadros”, declarou Gleisi ao ser questionada por jornalistas.
Apesar da cobrança pública e do esforço de dirigentes do partido para construir uma candidatura competitiva em São Paulo, Haddad tem reiterado que não deseja concorrer nas eleições. O ministro afirma preferir atuar nos bastidores da campanha presidencial, postura que, internamente, é vista com preocupação diante do risco de o PT ficar sem um palanque robusto no maior colégio eleitoral do país.
“Eu tenho a intenção de colaborar com a campanha do presidente Lula, e disse isso a ele, que eu não pretendo ser candidato em 2026, mas quero dar uma contribuição para pensar o programa de governo, para pensar como estruturar a campanha dele”, afirmou Haddad em entrevista ao O Globo no mês passado.
A defesa feita por Gleisi segue a linha de outros integrantes do governo. O ministro da Educação, Camilo Santana (PT), já havia declarado que Haddad não poderia se dar ao “luxo” de tomar uma decisão individual, reforçando a avaliação de que interesses pessoais não deveriam se sobrepor à estratégia eleitoral do partido.
Ao falar sobre seu próprio futuro político, Gleisi ressaltou que também abriu mão de planos iniciais em nome de uma estratégia coletiva definida pelo presidente Lula. A ministra contou que pretendia disputar a reeleição como deputada federal, mas aceitou o convite para concorrer ao Senado pelo Paraná, entendendo a necessidade de fortalecer o projeto nacional do partido.
“A priori, eu seria candidata a deputada federal, porque também acho que temos que investir na nossa chapa e precisamos aumentar a nossa bancada. Mas, numa conversa com o presidente Lula, dentro dessa estratégia de que temos que fazer uma disputa efetiva, ele me chamou para ser candidata a senadora. Eu aceitei com muita alegria, já fui senadora pelo Brasil e eu acho que há chance da gente fazer um bom trabalho e uma boa campanha no Paraná”, afirmou.
Haddad foi candidato ao governo de São Paulo em 2022 e alcançou o segundo turno, registrando o melhor desempenho de um petista na disputa estadual. Ainda assim, foi derrotado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), que venceu com 55,34% dos votos válidos, contra 44,66% do então candidato do PT. Mesmo com esse histórico, a atual resistência do ministro em voltar à disputa estadual amplia as incertezas dentro do partido sobre a estratégia eleitoral em São Paulo.


