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Direita fragmentada e esquerda indefinida marcam corrida ao Senado em São Paulo

Racha no PL, indefinições no campo progressista e disputa por duas vagas tornam cenário paulista incerto para as eleições de 2026

Congresso Nacional (Foto: EBC)

247 - A disputa pelas duas vagas ao Senado em São Paulo nas eleições de 2026 se desenha como uma das mais complexas do país, marcada por divisões internas na direita e pela falta de definição entre os partidos de esquerda. O pleito ocorre em um contexto atípico, já que neste ano dois dos três assentos do estado estarão em jogo, o que amplia a competição e eleva o peso das articulações partidárias.Atualmente, os senadores Mara Gabrilli (PSD) e Giordano (sem partido) encerram seus mandatos, enquanto Marcos Pontes (PL), eleito em 2022, permanece no cargo até 2031. O calendário eleitoral impõe prazos decisivos: as filiações partidárias devem ser concluídas até 6 de abril, e o registro oficial das candidaturas ocorre até 15 de agosto, destaca a Folha de S.Paulo.

A disputa pelo Senado ganhou centralidade nacional após o presidente Lula (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) definirem como prioridade a conquista de uma maioria na Casa em 2026. Em São Paulo, esse objetivo esbarra em cenários distintos nos dois campos políticos.

Direita vive racha no PL e disputa por apoio bolsonarista

Na direita, a configuração da chapa ao Senado depende diretamente do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que é apontado como candidato à reeleição. Caso confirme a candidatura, um dos nomes cotados para o Senado é o do ex-secretário da Segurança Pública Guilherme Derrite (PP). A segunda vaga, no entanto, expõe um conflito interno no PL e no entorno da família Bolsonaro.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro articula para viabilizar a deputada federal Rosana Valle (PL). Segundo interlocutores da parlamentar, foi Michelle quem sugeriu a inclusão do nome de Rosana em pesquisas eleitorais. O desempenho da deputada em um levantamento da Paraná Pesquisas divulgado em dezembro, no qual obteve 8% das intenções de voto, teria surpreendido o presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Apesar disso, aliados relatam receio de uma disputa de alto risco que possa resultar na perda de mandato.

Em nota enviada à Folha, Rosana afirmou: “Sei que qualquer definição sobre 2026 passa pelo PL, pelas composições e pelo momento adequado. Meu foco segue sendo a reeleição como deputada federal e o mandato que exerço atualmente”.

A vaga era originalmente associada ao deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL), que se mudou para os Estados Unidos. Em vídeo publicado na terça-feira (20), ele questionou a viabilidade de Rosana ao afirmar que ela “pode ser a melhor pessoa do mundo, mas não é conhecida”, além de destacar a ausência de manifestações públicas da deputada em apoio à pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL).

No mesmo vídeo, Eduardo indicou preferência por dois ex-assessores: o deputado estadual Gil Diniz (PL) e a vereadora paulistana Sonaira Fernandes (PL), elogiando a lealdade de ambos em votações. Segundo interlocutores do clã Bolsonaro, Eduardo também mencionou Gil Diniz em uma carta enviada ao pai no fim do ano passado. Pesam contra Gil a relação desgastada com Tarcísio, enquanto Sonaira enfrenta dúvidas sobre viabilidade eleitoral após desempenho modesto na eleição municipal de 2024.

Eduardo também comentou sobre o deputado federal Ricardo Salles (Novo), com quem rompeu politicamente em 2024. Disse que ele “não é má pessoa, tem muitas qualidades”, mas descartou apoiá-lo. “Se eu não vou concorrer, tenho que colocar alguém minimamente próximo a mim”, afirmou.

Outro nome citado foi o de Mário Frias (PL), ex-secretário da Cultura. “Saiu pesquisa aí colocando o Mario Frias muito bem no segundo voto. Tenho certeza de que, se ele receber apoio do Bolsonaro, vira favorito na hora”, disse Eduardo. Frias publicou o trecho do vídeo em suas redes sociais e, à reportagem, afirmou não ter interesse em cargos eletivos, mas declarou que cumprirá qualquer missão designada pela família Bolsonaro. Um obstáculo, porém, é a relação desgastada com Michelle Bolsonaro, após críticas públicas feitas por Frias a um projeto apoiado pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF).

Também são mencionados como possíveis candidatos o deputado federal Marco Feliciano (PL), que afirmou estar à disposição do partido, e o vice-prefeito da capital paulista, coronel Ricardo Mello Araújo (PL).

Esquerda enfrenta indefinições e dilema estratégico

No campo da esquerda, o desafio envolve tanto a escolha de nomes competitivos quanto a construção de um palanque robusto para Lula em um estado historicamente conservador. A avaliação interna é de que uma eventual reeleição de Tarcísio ao governo paulista é vista como altamente provável, o que dificulta a definição entre disputar o Palácio dos Bandeirantes ou concentrar forças no Senado.

Entre os nomes mais citados estão Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSB), Marina Silva (Rede), Simone Tebet (MDB) e Márcio França (PSB). Com exceção de Marina, todos são cogitados também para a disputa ao governo estadual. Alckmin tem afirmado a aliados que pretende concorrer novamente como vice-presidente, descartando tanto o governo paulista quanto o Senado. Haddad, por sua vez, diz não querer ser candidato e prefere atuar na campanha presidencial de Lula, embora parte do PT defenda sua candidatura ao Bandeirantes para repetir o desempenho eleitoral de 2022.

Márcio França e Simone Tebet aparecem como alternativas tanto para o governo quanto para o Senado. França declarou mantém o projeto de disputar o governo pelo PSB, mesmo diante da possível filiação de Tebet ao partido. Atualmente no MDB, a ministra negocia mudança de legenda e de domicílio eleitoral, de Mato Grosso do Sul para São Paulo. Segundo aliados, sua candidatura poderia representar um obstáculo mais significativo a Tarcísio, mas a decisão final caberá a Lula.

A estratégia defendida por setores do PT envolve lançar dois nomes fortes e coordenados para o Senado. “Taticamente, temos que lançar dois nomes fortes da esquerda para que o segundo voto do eleitor não vá para um candidato da direita. Seriam dois nomes unificados, de forma coordenada”, afirmou o deputado Jilmar Tatto, vice-presidente do partido.

Além de Marina Silva, que também busca uma nova legenda para viabilizar a candidatura, são cogitados nomes como os ministros Alexandre Padilha (Saúde) e Luiz Marinho (Trabalho). A indefinição reflete um cenário em aberto, no qual alianças, filiações e decisões presidenciais serão determinantes para o desenho final da disputa paulista ao Senado em 2026.

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