HOME > Sudeste

Eleições: vácuo deixado por Eduardo Bolsonaro em SP abre disputa na direita

Caso expõe conflitos internos, tensão familiar e pressão de aliados de Tarcísio na corrida ao Senado

Eduardo Bolsonaro - 14/08/2025 (Foto: REUTERS/Jessica Koscielniak)

247 - A saída do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) do cenário político imediato, após a cassação do mandato e a permanência prolongada nos Estados Unidos, abriu uma lacuna estratégica na disputa pelo Senado em São Paulo e desencadeou uma intensa batalha interna no PL, informa o jornal O Globo. O espaço deixado por um nome que aparecia à frente em levantamentos eleitorais passou a ser disputado por diferentes grupos do bolsonarismo, revelando divergências que atravessam o partido e alcançam a própria família Bolsonaro.

O episódio transformou a definição das candidaturas ao Senado em um teste de força entre lideranças partidárias, familiares de Bolsonaro e aliados do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Em 2026, São Paulo elegerá dois senadores, o que amplia a disputa e torna a composição das chapas ainda mais sensível.

Embora não esteja inelegível, Eduardo Bolsonaro enfrenta um cenário jurídico que dificulta seu retorno ao Brasil. Ele é réu em uma ação que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), acusado de tentar constranger o Judiciário ao articular sanções contra autoridades brasileiras, com avaliação de aliados de que o risco de condenação é elevado. Diante disso, a reorganização do campo bolsonarista ganhou urgência.

No centro da disputa familiar, Eduardo tenta preservar a influência de seu grupo político ao articular a candidatura do deputado estadual Gil Diniz. No início de dezembro, Diniz esteve nos Estados Unidos e, segundo aliados, recebeu do ex-deputado um pedido direto para disputar o Senado. Pessoas próximas aos dois descrevem uma relação de confiança construída ao longo de cerca de 12 anos, marcada por interlocução frequente.

Paralelamente, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro passou a atuar nos bastidores para fortalecer nomes ligados ao PL Mulher. A deputada federal Rosana Valle chegou a ser incluída em pesquisas internas por iniciativa de Michelle, mas aliados afirmam que ela resiste à ideia e prioriza a reeleição à Câmara, considerada um caminho menos arriscado. Em declaração ao O Globo, Rosana foi cautelosa ao tratar do tema: "Qualquer definição sobre 2026 passa pelo partido, pelas composições e pelo momento adequado. Meu foco segue sendo a reeleição como deputada federal e o mandato que exerço atualmente. Tenho respeito e admiração por Michelle. Falamos muito sobre política, mas não houve um posicionamento sobre uma possível candidatura minha ao Senado".

Em um primeiro momento, o diretório paulista do PL chegou a trabalhar com a possibilidade de lançar Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, como candidato ao Senado. A hipótese, no entanto, perdeu força depois que Renato sinalizou preferência por disputar uma vaga na Câmara dos Deputados, evitando uma eleição majoritária de maior exposição e risco político.

Nos bastidores, dirigentes do partido relatam crescente pressão do entorno do governador Tarcísio de Freitas para impor uma chapa própria em São Paulo. O ex-secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite (PP) é tratado como nome certo nesse desenho, possivelmente ao lado de um candidato fora do PL, o que amplia o desconforto interno na legenda bolsonarista.

Enquanto isso, Jair Bolsonaro segue como peça central na definição, mas sem manifestar preferência. O silêncio do ex-presidente mantém diversos postulantes em compasso de espera e alimenta uma disputa silenciosa. Entre os mais insistentes está o deputado Marco Feliciano, que enfrenta resistência interna por ser visto como pouco viável eleitoralmente. Ao jornal, ele afirmou: "Estou aguardando ainda a direção do presidente Bolsonaro. Com o aval dele, estou à disposição".

Outro nome cogitado é o do vice-prefeito de São Paulo, coronel Mello Araújo, que tem apelo junto ao eleitorado ligado à segurança pública. Sua eventual candidatura, porém, encontra forte oposição dentro da base do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Integrantes da gestão municipal reclamam que Mello, desde que assumiu a vice, adotou postura de fiscalização de contratos e do uso de emendas parlamentares indicadas por vereadores, o que gerou atritos políticos.

A falta de consenso foi reconhecida pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que admitiu a indefinição do quadro: "Não temos ainda definição. Feliciano, Mello Araújo, Renato Bolsonaro são possibilidades. Bolsonaro não deu opinião ainda".

O impasse em São Paulo também afeta os planos do senador Flávio Bolsonaro, que evita se envolver diretamente na disputa estadual, mas depende de um palanque forte no maior colégio eleitoral do país para fortalecer sua projeção nacional. Aliados defendem que a família Bolsonaro apoie a chapa articulada por Tarcísio, mesmo que inclua nomes de fora do PL, como a possível dobradinha entre Guilherme Derrite e Ricardo Salles (Novo).

Salles, por sua vez, tem defendido a união da direita para garantir as duas vagas paulistas no Senado. "A esquerda tem nomes fortes e competitivos. Então nós, da direita, temos que jogar junto para pegar as duas vagas. Se abrir demais, tem chance da direita pegar uma das vagas", afirmou.

Apesar disso, a relação entre Salles e o núcleo bolsonarista é marcada por desgaste desde que ele deixou o PL após não conseguir apoio para disputar a Prefeitura de São Paulo em 2024. Dentro do partido, há o entendimento de que apoiá-lo agora significaria prestigiar um dissidente em detrimento de quadros da própria sigla.

Líderes do PL avaliam que a definição precisa ocorrer até o Carnaval para evitar que o vácuo político em São Paulo seja ocupado por candidaturas fora do controle do partido, aprofundando divisões e enfraquecendo a estratégia da legenda na disputa pelo Senado em 2026.

Artigos Relacionados