Mensagens ligam traficante do CV a aliado de Flávio Bolsonaro no Rio
Relatório da PF cita encontros, pedidos e suposta troca de favores envolvendo Índio do Lixão e Gutemberg Fonseca
247 - Mensagens interceptadas pela Polícia Federal indicam supostos encontros, pedidos e troca de favores envolvendo o traficante Gabriel Dias de Oliveira, conhecido como Índio do Lixão, apontado como uma das lideranças do Comando Vermelho, e Gutemberg Fonseca, ex-secretário de Defesa do Consumidor do governo do Rio de Janeiro e aliado do senador Flávio Bolsonaro (PL) no estado, informa Tácio Lorran, do Metrópoles.
Os diálogos analisados pela PF ocorreram entre maio e agosto de 2025 e citam ao menos cinco episódios em que Índio do Lixão teria mencionado encontros ou tratativas envolvendo Gutemberg Fonseca. O político foi indicado por Flávio Bolsonaro para comandar a Secretaria de Defesa do Consumidor em 2023, permaneceu no cargo até abril de 2026 e será candidato pelo PL à Câmara dos Deputados.
Segundo o relatório da PF, a primeira conversa sobre um encontro com Gutemberg ocorreu em 13 de maio de 2025. Nos diálogos, o ex-secretário é chamado de “Guto” por Índio do Lixão e por Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, conhecido como Dudu, ex-assessor do ex-deputado TH Joias.
Na troca de mensagens, Índio cobrou a presença de Dudu em um local onde, segundo ele, estariam Gutemberg e outras pessoas. “Cadê você? Assim eu vou ficar fraco”, escreveu o traficante. Em seguida, completou: “Tá geral aqui, Guto e todos. Cadê vocês?”. Naquele momento, Índio do Lixão ainda não tinha mandado de prisão contra ele.
No dia seguinte, Índio afirmou a Dudu que queria contar o que “o doutor” havia falado. Os dois conversaram por 39 minutos em uma ligação. Após o contato, o traficante pediu que Dudu perguntasse a Gutemberg o que ele havia achado de uma “atitude” dele, em referência a um problema que teria sido resolvido rapidamente.
A PF aponta Índio do Lixão como um dos chefes do Comando Vermelho. Ele é investigado por tráfico internacional de armas. Segundo as apurações, o traficante contaria com uma estrutura formada por policiais militares que atuariam em sua segurança pessoal e no apoio logístico da organização criminosa. O relatório também menciona uma “articulação política” em favor de seus interesses.
Gutemberg Fonseca negou qualquer encontro ou relação com Índio do Lixão. Ao comentar o caso, o ex-secretário afirmou que, ainda que algum contato casual tivesse ocorrido, por encontrar muitas pessoas em sua rotina, o traficante não era alvo de mandado de prisão à época.
Mensagens citam reunião com Enel, Procon e Sedcon
Em junho de 2025, um mês após o suposto encontro citado nos diálogos, Índio do Lixão encaminhou a Dudu um vídeo publicado no Instagram por Gutemberg Fonseca. A gravação mostrava uma reunião envolvendo a Secretaria de Defesa do Consumidor, o Procon e a Enel.
Ao enviar o conteúdo, o traficante escreveu: “Mérito que ganha quando eu resolvo algo. Aí, reunião Enel, Procon e Sedcon”. Dudu respondeu: “Mandei pro Menezes. Falei que era legal ter levado você. Ele ainda não respondeu”.
Segundo a PF, “Menezes” seria Marcos José Menezes, ex-servidor da Prefeitura do Rio de Janeiro entre 2020 e 2021. Ele também passou pelo Procon estadual entre 2010 e 2020. O órgão é subordinado à Secretaria de Defesa do Consumidor, comandada por Gutemberg Fonseca até abril.
Marcos Menezes aparece em diversas conversas entre Dudu e Índio do Lixão. Uma das principais, registrada em julho de 2025, tratava de uma nomeação solicitada pelo traficante. “Pergunta da nomeação. Se ele não for, eu vou em outro caminho já certo”, escreveu Índio. Dudu respondeu: “Eu aviso ele”. Cerca de uma hora depois, pediu o número de identidade do traficante e afirmou: “vamos pegar logo essa nomeação”.
Traficante sugeriu acionar Gutemberg, segundo diálogos
Em agosto de 2025, Índio do Lixão voltou a mencionar Gutemberg Fonseca em conversa com Dudu. No dia 25, o traficante perguntou o que o ex-assessor de TH Joias achava de o então secretário de Defesa do Consumidor tentar destravar uma questão que Marcos Menezes não estaria conseguindo resolver, possivelmente relacionada à nomeação.
“Irmão, caso o Marcos não resolver, o que você acha Guto chamar o Júnior e dar o papo? [sic]”, escreveu Índio. Dudu respondeu: “Posso falar com ele. Já fala com Marcos agora. Senão eu já ligo nele [Gutemberg Fonseca]”.
Dois dias depois, uma nova conversa entre Dudu e Índio indicou que Marcos Menezes teria marcado uma reunião com o traficante, com possível presença de Gutemberg Fonseca. O encontro teria sido previsto para ocorrer na sede do Procon e, segundo as mensagens, teria sido intermediado por Dudu, responsável por enviar o endereço a Índio.
A PF afirmou, no entanto, que não é possível confirmar se essa reunião de fato ocorreu. De acordo com o relatório citado pela reportagem, a dúvida decorre da demora de Menezes em atender às ligações de Dudu.
Carracena também aparece nas conversas
As mensagens analisadas pela PF também mostram que Índio do Lixão mantinha contato direto com o advogado Alessandro Pitombeira Carracena. Ele foi secretário estadual de Esportes e Lazer e subsecretário estadual de Defesa do Consumidor durante a gestão de Gutemberg Fonseca.
Segundo as investigações, Carracena receberia dinheiro para atender pedidos de lideranças do Comando Vermelho. Ele está preso desde setembro de 2025. Mesmo exonerado em janeiro de 2025, o ex-subsecretário teria continuado em contato com Índio do Lixão e recebendo valores do traficante.
Em maio de 2025, após a reunião mencionada no início da reportagem, Índio relatou a Carracena que teria se encontrado com Gutemberg e que poderia ajudá-lo politicamente. “[…] Inclusive, hoje eu fui numa reunião hoje, e o amigo estava lá na reunião, o secretário onde o senhor trabalha. Aí conversei um pouco com ele lá também referente à política, que poderia ajudar ele. Aí ele, pô, tá doido. O cara mó legal. Falamos do senhor. Ele me perguntou se tinha alguma referência, daí eu falei ‘pô, Carracena me conhece legal e tal’ e ele falou ‘pô, é mesmo? Você tá com a melhor pessoa do mundo, cara, excelente advogado, meu irmão’ [sic]”.
Em junho de 2025, Índio encaminhou a Carracena o mesmo vídeo enviado a Dudu, sobre a reunião de Gutemberg Fonseca com representantes da Enel e do Procon. “Ficou forte ele com Enel né”, escreveu o traficante. Carracena respondeu: “Muito é por causa de você”.
Na sequência, Índio demonstrou frustração com a suposta falta de retorno de Gutemberg. “Não vou mais incomodar ele não doutor, não posso ficar forçando ele a me ajudar se o coração dele não quer me ajudar”, afirmou. Carracena respondeu: “lutando por isso”. O traficante completou: “se ele quisesse, já teria feito. Ainda mais depois do que eu fiz”.
Para a PF, “aparentemente”, Gutemberg Fonseca não teria atendido às expectativas de Índio do Lixão, mesmo após ter recebido algum tipo de auxílio, conforme interpretação registrada no relatório.
Gutemberg nega relação com Índio do Lixão
Gutemberg Fonseca negou qualquer tipo de relação ou encontro com Índio do Lixão. Ele também afirmou que, caso tivesse havido algum contato casual, isso não configuraria vínculo com o investigado.
Sobre Marcos José Menezes, Gutemberg disse que ele não ocupa cargo público desde que deixou a Prefeitura do Rio em 2021. O ex-secretário confirmou, porém, que manteve relação política com Menezes. “Ele foi meu coordenador de campanha em 2022, quando fui candidato a deputado federal e será um dos coordenadores neste ano”, afirmou.
Questionado sobre o motivo de Dudu e Índio do Lixão mencionarem seu nome nas conversas interceptadas pela PF, Gutemberg disse não compreender a razão. “Sempre trabalhei para combater o crime organizado e pela segurança da minha família. Por que teria relações com essas pessoas? Não entendo porque eles mencionaram encontros comigo. Se tivesse alguma coisa, a Polícia Federal teria me indiciado. Na própria troca de mensagens, o traficante disse que eu não atendi aos pedidos dele”, declarou.



