"Vamos, juntos, devolver o território das comunidades ao povo do Rio", diz Lula ao governador
“Trabalhe para prender os ladrões que governaram este estado, os deputados que fazem parte de uma milícia organizada”, disse Lula a Ricardo Couto
247 - O presidente Lula afirmou neste sábado (23), no Rio de Janeiro, que o governo federal será parceiro do governador em exercício, Ricardo Couto, no enfrentamento ao crime organizado e às milícias. “Vamos, juntos, devolver o território das comunidades ao povo do Rio de Janeiro e ao povo brasilero”, disse Lula, durante a inauguração da nova sede do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fiocruz.
Ao lado de Ricardo Couto, Lula defendeu que o Rio de Janeiro recupere o prestígio político e institucional e criticou a presença do crime organizado em territórios fluminenses. As declarações foram feitas durante a cerimônia na Fiocruz, no Rio de Janeiro, em um evento voltado à inovação, à pesquisa e à soberania tecnológica em saúde.
“Eu queria falar do governador. Nós chegamos à conclusão que nós precisamos dar um ‘paradeiro’ na safadeza desse país”, afirmou Lula, ao chamar Couto durante o discurso.
O presidente destacou que o governador em exercício recebeu aplausos do público e comparou a reação à que, segundo ele, seria dada a outro governante. “Quando você foi chamado aqui, governador, você percebeu os aplausos que você recebeu. Tenho certeza de que o outro governador não seria aplaudido”, declarou.
Lula também relatou uma conversa que teve com o ex-presidente francês François Hollande sobre a importância de governantes manterem compromisso com as promessas feitas durante a campanha eleitoral. Em seguida, observou que Couto não disputou a eleição, mas assumiu o cargo por decisão da Justiça.
“O governador não tem discurso, porque ele não concorreu nas eleições. Mas a Justiça tomou uma decisão, que hoje eu acho correta, de colocar você como governador interino até as eleições”, disse.
Ao se dirigir diretamente a Ricardo Couto, Lula afirmou que a população não espera grandes obras de infraestrutura durante o período de governo interino, mas ações concretas contra a criminalidade e a milícia.
“E ninguém aqui está esperando que você faça um viaduto, que você faça uma ponte, que você faça uma praia artificial. Sabe o que essas pessoas esperam de você nesses meses? Trabalhe para prender todos os ladrões que governaram este estado, os deputados que fazem parte de uma milícia organizada”, afirmou.
O presidente disse que o Rio de Janeiro, por sua relevância nacional e internacional, não pode ser associado ao domínio territorial do crime organizado.
“Não é possível o Rio de Janeiro, o estado mais conhecido do mundo, a cidade que é a mais famosa no mundo, não é possível a gente uvir nos jornais que o crime organizado tomou conta dos territórios”, declarou.
Lula afirmou que Couto terá apoio do governo federal para enfrentar a situação. “E quando eu lhe conheci, eu disse: ‘governador, você vai contar com todo o apoio do governo federal’”, disse.
No discurso, o presidente também citou medidas de segurança pública que, segundo ele, foram aprovadas ou aguardam análise no Congresso. “Nós aprovamos já a Lei Antifacção, aprovamos a lei contra o crime organizado e estou esperando o Senado aprovar a PEC da Segurança para criar o Ministério da Segurança Pública, para a gente poder enfrentar de fato”, afirmou.
Lula defendeu que seja definido com maior clareza o papel da União na segurança pública. Segundo ele, a Constituição de 1988 limitou a atuação federal nessa área em um contexto no qual havia preocupação com a interferência de militares na segurança dos estados.
“Tem que definir qual é o papel da União. Pela Constituição de 1988, a União não tem muito papel da segurança. E nós temos culpa, sabe por quê? Eu era constituinte e naquele tempo tinham muitos generais metidos na segurança pública dos estados. Quando a gente aprovou a Constituição, era para tirar os generais e colocar o estado para tomar conta. E não deu muito certo”, declarou.
O presidente também afirmou que governadores podem ficar reféns de estruturas policiais. “Muitas vezes o governador fica refém da polícia e não se liberta mais”, disse.
Ao comentar a escolha de Couto para o cargo, Lula afirmou que, caso a indicação tivesse sido feita pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o resultado poderia manter a mesma lógica política criticada por ele.
“Então, você que não precisou pedir voto, cara. Você foi indicado. E eu nunca tinha te visto, governador. Mas quando começou este processo, eu falei: ‘se a Alerj indicar, vai vir o mesmo’. Se a Assembleia tivesse que indicar ia vir um miliciano”, afirmou.
Lula pediu que Couto aproveite o período de seis meses no governo para agir contra a criminalidade e “ajudar a consertar” o Rio de Janeiro.
“Aproveite esses seis meses que você tem. Faça o que muita gente não fez em dez anos. Ajude a consertar este estado. É isso que o povo do Rio de Janeiro espera de você”, disse.
O presidente afirmou ainda que o Rio não deve ser governado por milicianos e que a população fluminense “não merece isso”.
“Não é possível esse estado poderoso e bonito ser governado por milicianos. O povo não merece isso”, declarou.
Lula também disse que Couto precisa honrar sua origem no Judiciário e demonstrar que é possível recuperar o estado.
“Já tivemos um juiz que foi governador aqui e foi um fracasso, um fiasco. Você precisa honrar o Judiciário e ajudar a mostrar que é possível consertar o Rio”, afirmou.
Na parte final da fala sobre segurança pública, o presidente reforçou que o Rio de Janeiro deve deixar de ocupar o noticiário principalmente por causa da violência.
“O Rio de Janeiro precisa recuperar o prestígio de um estado que foi capital da República. O Rio de Janeiro não pode ocupar a imprensa apenas nas páginas policiais”, disse.
Lula concluiu afirmando que o governo federal estará à disposição do governador em exercício para ações de combate ao crime organizado e às milícias.
“E eu quero que você saiba que qualquer coisa que você precisar do governo federal para combater o crime organizado e os milicianos, conte com o governo federal porque nós seremos parceiros. Pode contar. O Rio tem que ter uma chance”, declarou.



