PT desenha chapa forte contra Tarcísio em São Paulo
Estratégia do partido mira conter avanço eleitoral do governador para reduzir impacto na candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto
247 - O anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República provocou um rearranjo estratégico dentro do PT, especialmente em relação ao tabuleiro eleitoral de São Paulo e à composição da chapa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para 2026, informa o jornal O Globo. A decisão de Jair Bolsonaro (PL) de apoiar o filho reforçou a tendência de o governador paulista, Tarcísio de Freitas, buscar a reeleição, o que elevou o grau de dificuldade do embate no maior colégio eleitoral do país.
Discussões internas no PT apontam para um cenário adverso no estado. A avaliação predominante entre dirigentes petistas é de que derrotar Tarcísio será uma missão complexa. O objetivo central, segundo esse diagnóstico, é manter um patamar de votação próximo ao de 2022, quando o atual governador venceu Fernando Haddad por 55,27% a 44,73%.
No partido, pesa a leitura de que o desempenho de Lula em São Paulo foi decisivo para a vitória apertada sobre Jair Bolsonaro na eleição presidencial passada. Em 2022, o petista obteve cerca de 4,3 milhões de votos a mais no estado em comparação com 2018. Integrantes do entorno presidencial defendem que conter uma eventual ampliação da votação de Tarcísio — especialmente para algo próximo de 60% — é estratégico para evitar que o governador impulsione o candidato bolsonarista ao Planalto.
É a partir dessa preocupação que surgem os diferentes cenários em debate. Auxiliares de Lula relatam que tanto Fernando Haddad (PT), atual ministro da Fazenda, quanto o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) aparecem como nomes competitivos para enfrentar Tarcísio. Cada alternativa, no entanto, envolve obstáculos políticos distintos. Procurados, Haddad e Alckmin não comentaram.
Haddad já comunicou a Lula e a dirigentes do PT que não pretende disputar as eleições de 2026, após ter concorrido em três pleitos consecutivos em períodos difíceis para o partido, todos com derrota. A prioridade do ministro seria contribuir para o programa de governo de Lula em um eventual novo mandato. Seu nome também circula como possível chefe da Casa Civil. Em dezembro, Lula comentou o tema: “O Haddad tem maioridade e biografia para decidir o que quer fazer”.
No caso de Alckmin, a eventual candidatura ao governo paulista exigiria sua saída da Vice-Presidência, abrindo um espaço sensível na chapa presidencial em meio às incertezas sobre o apoio integral de partidos do centrão. Lula e o presidente nacional do PT, Edinho Silva, têm afirmado que o vice será “o que ele quiser” nas eleições, seja permanecendo na chapa ou assumindo outra missão. Interlocutores do presidente dizem que Lula não pretende impor decisões, mas atuar no convencimento, apostando que a proximidade do pleito facilitará acordos.
Dentro do PT, há uma ala majoritária que defende Haddad como o nome preferencial para o Palácio dos Bandeirantes, argumentando que Alckmin deve ser preservado como vice. Para esse grupo, só faria sentido alterar a composição atual em caso de uma ampliação significativa da aliança, envolvendo siglas como MDB e PSD. Como esse apoio amplo ainda não se desenhou, o partido trabalha, por ora, com a ideia de neutralidade ou apoios pontuais nos estados.
Esse setor sustenta ainda que o PT precisa de um candidato próprio ao governo paulista que ajude a impulsionar a votação de Lula, partindo da premissa de que o postulante ao Executivo estadual exerce papel central na coordenação da campanha local. Já outra ala vê em Alckmin o nome mais forte para enfrentar Tarcísio, com maior capacidade de dialogar com eleitores fora do campo petista, inclusive no interior. A proximidade do vice-presidente com prefeitos paulistas e sua atuação no governo federal são citadas como trunfos. Nesse desenho, Haddad seria deslocado para uma candidatura ao Senado, considerada menos desgastante e alinhada à tradição do PT de eleger senadores em São Paulo.
Simone Tebet também aparece como peça relevante nesse quebra-cabeça. A ministra do Planejamento é mencionada tanto para o Senado quanto para uma eventual vaga de vice-governadora. Vista como um nome mais ao centro, ela teria potencial para alcançar eleitores que não votam tradicionalmente no PT. Se antes rejeitava a ideia de mudar seu domicílio eleitoral do Mato Grosso do Sul, Tebet passou a admitir essa possibilidade após receber apoio em um jantar do Grupo Prerrogativas, em São Paulo. Procurada, a ministra não se manifestou.
Segundo aliados, Tebet já deixou claro que estará com Lula em 2026 e aceitará o desafio que lhe for proposto. Dirigentes petistas próximos ao presidente afirmam que ela se mostra animada com a hipótese de concorrer em São Paulo, especialmente ao Senado, e a descrevem como uma ministra afinada com Lula e viável para compor a vice, caso Alckmin dispute outro cargo.
Os planos, porém, esbarram na direção do MDB. Desde 2022, o partido apoia Tarcísio no estado, e o presidente estadual da legenda, Rodrigo Arena, articula a reeleição do governador. Na avaliação de emedebistas, não há espaço para que Tebet dispute o Senado paulista pela sigla com apoio de Lula, o que leva aliados da ministra a considerar até mesmo uma mudança partidária como alternativa para viabilizar seu projeto eleitoral.



