Receita aponta R$ 26 bilhões em fintechs ligadas ao PCC
O órgão apontou a retomada do uso de fintechs e plataformas de pagamento como parte central da estrutura financeira usada pelo grupo criminoso
247 - Seis fintechs movimentaram quase R$ 26 bilhões em operações atípicas e suspeitas, enquanto uma delas movimentou sozinha mais de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo, segundo a Receita Federal, em um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). As informações foram publicadas nesta sexta-feira (28) pelo Portal G1.
O secretário especial da Receita Federal, Robinson Sakiyama Barreirinhas, apresentou os dados nesta quinta-feira (28), durante a nova fase da Operação Carbono Oculto, batizada de Operação Fluxo Oculto. As autoridades não divulgaram o nome da fintech que movimentou mais de R$ 1 bilhão em espécie. A Receita apontou a retomada do uso de fintechs e plataformas de pagamento como parte central da estrutura financeira usada pelo grupo criminoso.
“Foram desvendadas seis fintechs que movimentaram R$ 26 bilhões. Só uma delas movimentou em dinheiro mais de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo, o que nem deveria ser possível no caso das fintechs. Claramente em lavagem de dinheiro do crime organizado”, afirmou Barreirinhas.
A operação cumpriu cerca de 60 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Os principais alvos incluem empresários, operadores logísticos e laranjas ligados ao esquema investigado. O Grupo de Atuação e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal conduziram a ação.
Fintechs no centro da investigação
Fintechs são empresas de tecnologia que oferecem serviços financeiros digitais, como contas, transferências, pagamentos e empréstimos, em geral por aplicativos e plataformas online. Segundo a investigação, algumas dessas empresas funcionaram como “dutos financeiros” para a movimentação de recursos de origem suspeita.
A apuração aponta que o grupo usou instituições de pagamento, contas-bolsão e contas gráficas para dificultar a identificação dos verdadeiros donos dos valores movimentados. Esse modelo teria criado uma camada de ocultação no sistema financeiro.
“Nós tínhamos no Brasil um vácuo regulatório, de governança, quer permitia às fintechs atuarem sem a transparência, sem os mesmos deveres que são impostos há duas décadas aos bancos e demais instituições financeiras”, afirmou Barreirinhas.
O secretário também relacionou a tentativa de fechamento dessa brecha regulatória a campanhas de desinformação contra a Receita Federal.
“Gosto de lembrar que, quando a Receita Federal foi fechar essa brecha regulatória, fomos vítimas da maior onda de fake news da história da Receita. Mentiras dizendo que a Receita iria monitorar Pix, tributar o Pix. Mentiras que, volta e meia, tentam emplacar novamente”, completou.
Na avaliação do secretário, a resistência contra regras de transparência beneficiava diretamente organizações criminosas. “Nós vimos quem era o interessado disso: as organizações criminosas, que se valiam e se valem ainda dessas fintechs para a lavagem de dinheiro”, destacou o secretário.
Contas-bolsão criaram ponto cego
Um dos principais focos da Operação Fluxo Oculto recai sobre as chamadas contas-bolsão. Essas contas reúnem recursos de vários clientes em uma única conta bancária aberta por uma fintech em um banco tradicional.
Para o banco, a conta pertence apenas à fintech. A instituição financeira tradicional não identifica, nesse modelo, o CPF ou o CNPJ de cada cliente que detém parte do dinheiro movimentado.
A fintech mantém esses dados em seus registros internos, conhecidos como contas gráficas. Com acesso a esses registros, os promotores passaram a rastrear origem, destino, remetente e beneficiário das transações ligadas às contas de pagamento.
Segundo a investigação, as contas-bolsão criaram um ponto cego no sistema de prevenção à lavagem de dinheiro. Esse mecanismo ampliou as possibilidades de blindagem patrimonial e ocultação de capitais.
MP diz que grupo não parou após operação anterior
O Ministério Público de São Paulo afirma que o grupo não interrompeu suas atividades após a deflagração da Operação Carbono Oculto em 2025. A apuração aponta movimento contrário: aumento do volume de desvio de nafta e abertura de novas empresas de fachada para esconder dinheiro.
A Operação Carbono Oculto mirou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro com ligação ao PCC. Segundo os investigadores, o grupo atuava em toda a cadeia do setor de combustíveis e também usava fundos de investimento para ocultar patrimônio ilícito.
Promotores sustentam que a organização ligada ao PCC se reestruturou rapidamente. O grupo teria expandido as operações e mantido o mesmo padrão criminoso detectado na etapa anterior.
Em um dos casos citados, a investigação identificou operações de 56 postos de combustíveis concentradas em uma única conta. Os alvos também migraram recursos entre diferentes fintechs nos últimos meses e usaram novas empresas para substituir antigas estruturas já expostas.
Líderes apontados seguem foragidos
A investigação aponta Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, chamado de “Beto Louco”, como lideranças do esquema. Os dois estão foragidos desde agosto do ano passado, em razão da Operação Tank, deflagrada pela Polícia Federal no mesmo dia da Carbono Oculto.
Os dois tentaram fechar acordo de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo. Os promotores rejeitaram a proposta por avaliarem que os empresários omitiram informações sobre lavagem de dinheiro, conexões com o PCC e corrupção policial.
A primeira frente da Operação Fluxo Oculto mira a engenharia financeira e a lavagem de capitais via fintechs. Essa frente apura o uso de instituições de pagamento para ocultar patrimônio bilionário e manter conexões com o PCC.
Entre as fintechs e empresas citadas na investigação aparecem BK Bank, Ceopag, Sispay, Vpay, Yaw e Smart Solutions Group. A apuração também cita gestores e operadores ligados a essas estruturas, além de conexões com empresas apontadas como vinculadas a investigados por relações com o PCC.
Valores detalhados na frente financeira
Relatórios de inteligência financeira indicam que a Smart Solutions Group movimentou mais de R$ 1,2 bilhão. Cerca de metade desse valor teria seguido para a GGX Global, holding de postos do grupo criminoso.
A Ceopag registrou movimentações atípicas em curto período, com R$ 359 milhões em créditos e R$ 513 milhões em débitos. No total consolidado dessa frente, os relatórios apontaram movimentações atípicas na ordem de R$ 3,86 bilhões.
A investigação também cita o papel de plataformas de pagamento como caminho para transferir valores, trocar empresas e dificultar a ação dos órgãos de controle. Quando surgia fiscalização, o grupo migrava rapidamente recursos de uma fintech para outra.
Máfia do nafta e adulteração de combustíveis
A segunda frente da operação mira a chamada máfia do nafta e a adulteração de combustíveis. Segundo os investigadores, o grupo usava empresas de solventes petroquímicos importados para desviar nafta, produto com tributação inferior, e vendê-la ilegalmente como gasolina automotiva.
Produtoras e importadoras de solventes emitiam notas fiscais falsas para simular a venda de nafta a empresas químicas de fachada. Essas empresas apareciam em nome de laranjas, muitas vezes pessoas vulneráveis ou beneficiárias de programas sociais, em endereços fictícios.
Na prática, segundo a apuração, o produto não seguia para essas empresas. Caminhões desviavam a rota e descarregavam a nafta em distribuidoras e terminais terrestres, onde o solvente passava por mistura com Gasolina Tipo A.
A investigação afirma que o combustível adulterado chegava aos consumidores finais por meio de postos. O prejuízo fiscal estimado supera R$ 200 milhões, apenas na diferença tributária contabilizada.
Mais de 135 milhões de litros desviados
Os investigadores identificaram o desvio de mais de 135 milhões de litros de nafta em pouco mais de dois anos. A Petrodansk, uma das empresas citadas, emitiu mais de 10.076 notas fiscais falsas, que somaram R$ 1,49 bilhão.
A apuração cita Raffaele Vestenius Masi e Aldo Antônio Masi como titulares e gestores de fato da Petrodansk. João Eduardo de Albuquerque aparece como gestor operacional, enquanto outras empresas e pessoas teriam atuado na logística, no recrutamento de laranjas e na abertura de empresas de fachada.
As distribuidoras Saara e Petroriente, além dos terminais terrestres Tercom, em Paulínia, e Arujá Terminais, aparecem como destinos reais do produto, segundo a investigação.
Fundos fechados e ocultação patrimonial
A terceira frente apura o uso de fundos de investimento para ocultação patrimonial. Segundo os investigadores, o grupo recorreu ao mercado financeiro formal para liquidar operações fraudulentas e mascarar beneficiários dos lucros obtidos com a adulteração de combustíveis.
Empresas-fantasma emitiam boletos para permitir que o dinheiro retornasse de forma aparentemente limpa para produtoras como Petrodansk e SMAX. Fundos de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados, conhecidos como FIDC-NP, pagavam esses boletos.
A investigação aponta que as cessões ocorriam sem deságio e com prazos muito curtos, em alguns casos de apenas um dia. Para os promotores, esse padrão subverte a lógica do mercado financeiro e indica transações fictícias.
Entre os fundos citados aparecem Zeus FIDC-NP, Gran Capital FIDC-NP e FIDC DB Crédito Global. A apuração também menciona gestores e beneficiários ligados às operações financeiras, às instituições de pagamento e às distribuidoras investigadas.



