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Crise do diesel restringe serviços em mais de 140 municípios gaúchos

Guerra no Oriente Médio derruba abastecimento no RS e eleva preço do diesel 19,41% em duas semanas, ameaçando transporte escolar e de pacientes

Posto de combustíveis da Petrobrás (Foto: Agência Brasil )

247 - A escassez de diesel já compromete o funcionamento de serviços essenciais em pelo menos 142 municípios do Rio Grande do Sul, o equivalente a quase 30% das 497 cidades do estado. O levantamento foi divulgado neste sábado (21) pela Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), revelando a dimensão de uma crise que ameaça paralisar desde o transporte escolar até o deslocamento de pacientes entre cidades.

Segundo o Portal Uol, a presidente da Famurs, Adriane Perin de Oliveira, alertou para os riscos imediatos do desabastecimento. "Temos o risco de que isso afete o transporte escolar e o transporte de pacientes para outras cidades", afirmou. A dirigente anunciou que os dados serão levados ao governador do estado e cobrou respostas do poder público. "Vamos levar esses dados ao governador e reforçar a necessidade de buscarmos alternativas para garantir o pleno funcionamento dos serviços. Precisamos de respostas efetivas, especialmente por parte do governo federal", declarou.

A crise nos municípios gaúchos se insere em um cenário nacional de forte pressão sobre os preços dos combustíveis. Levantamento divulgado na sexta-feira (20) pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostra que o diesel acumulou alta de 19,41% em apenas duas semanas em todo o país — reflexo direto da guerra no Oriente Médio sobre o mercado brasileiro de combustíveis.

Os números da ANP expõem a velocidade da escalada: o litro do diesel, que estava em média de R$ 6,08 antes do início do conflito, chegou a R$ 7,26 na medição mais recente. Só na última semana, o avanço foi de 6,76%, com o preço saltando de R$ 6,80 para o valor atual. As disparidades regionais são ainda mais expressivas: o litro mais caro do país foi encontrado em Brumado, na Bahia, a R$ 8,99, enquanto João Pessoa, na Paraíba, registrou o menor valor, com o litro a R$ 5,79.

A gasolina também seguiu trajetória ascendente, encerrando a semana com preço médio de R$ 6,65 por litro — alta de 2,94% em relação à semana anterior. O município de Guarujá, no litoral de São Paulo, concentrou o valor mais elevado do país, com o litro chegando a R$ 9,39. No extremo oposto, a capital paulista registrou o menor preço, com o combustível a R$ 5,49 — uma diferença de quase R$ 4 entre os extremos dentro do mesmo estado.

O etanol apresentou elevação mais contida em relação aos demais combustíveis monitorados pela ANP. O preço médio nacional ficou em R$ 4,70 por litro, com acréscimo de 1,29% na semana. Santa Maria, no Rio Grande do Sul, registrou o maior valor do biocombustível no país, com o litro a R$ 6,99, enquanto Lins, no interior paulista, ofereceu o menor preço identificado pela agência, com o litro a R$ 3,86.

O Rio Grande do Sul, portanto, aparece na crise sob dois ângulos distintos: como um dos estados mais afetados pelo desabastecimento físico do diesel e como palco do maior preço do etanol no país — um retrato da pressão que o conflito no Oriente Médio exerce sobre a matriz energética e os serviços públicos brasileiros.

Petróleo 

A origem dos ataques está nos bombardeios americanos ao Irã, iniciados em 28 de fevereiro, motivados pela acusação de que o país persa estaria desenvolvendo uma bomba nuclear — alegação refutada pela ONU. A consequência direta desse conflito para o Brasil é a escalada dos preços dos combustíveis, alimentada por dois vetores simultâneos: a disparada das cotações do petróleo no mercado internacional e o aperto na oferta global da commodity, que atingiu o nível mais alto em quase quatro anos.

No encerramento desta sexta-feira (20), o barril do Brent para maio fechou a US$ 112,19, com valorização de 3,26% — o patamar mais elevado desde julho de 2022. O WTI americano com vencimento em abril terminou o pregão cotado a US$ 98,32, com ganhos de 2,27%. Os contratos do segundo mês mais negociado do petróleo americano encerraram o dia a US$ 98,23, acumulando alta de 2,8%.

Resposta do governo

Diante da crise, o governo federal agiu em duas direções. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva extinguiu a cobrança de PIS e Cofins sobre o diesel, com o objetivo de proteger o país do risco de desabastecimento. De outro, encaminhou aos governadores uma solicitação formal para que os estados promovessem corte equivalente no ICMS. A iniciativa, porém, encontrou resistência: na terça-feira (17), o Comsefaz — Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal — rejeitou qualquer redução no imposto estadual sobre combustíveis.

Para tentar contornar a negativa, o Ministério da Fazenda apresentou ao longo da semana uma nova alternativa: a zeragem do ICMS sobre o diesel importado até o fim de maio, com a União bancando metade das perdas de arrecadação dos governos estaduais — um custo estimado em cerca de R$ 3 bilhões mensais para os cofres federais. A adesão, no entanto, permaneceu quase nula: o governo federal admitiu ter recebido resposta oficial de apenas um governador até o momento.

A tarefa de conduzir e defender essa agenda recaiu sobre Dario Durigan, empossado no Ministério da Fazenda nesta sexta-feira (20). Já em seu primeiro pronunciamento à frente da pasta, o ministro deixou claro que o governo não ficará inerte caso os estados rejeitem a proposta de desoneração do ICMS sobre o diesel importado. "Não deixaremos de apresentar outras medidas assim que necessário", afirmou Durigan, que também elencou ações já em andamento — o combate a preços abusivos nos postos, a revisão da tabela de frete e a isenção federal de PIS e Cofins sobre o diesel.

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