Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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Brasil e Rússia divulgam comunicado conjunto e mandam recados a Trump

Documento assinado por Alckmin e Mishustin destaca ONU, Brics, sanções e menciona Ártico e América Latina

O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, e o primeiro-ministro da Rússia, Mikhail Mishustin, durante a 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação, no Palácio do Itamaraty (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

247 - Brasil e Rússia divulgaram nesta quinta-feira (5), após encontro oficial em Brasília, um comunicado conjunto em que reafirmam compromisso com a paz e a segurança internacionais e defendem a solução pacífica de controvérsias. O texto, assinado por autoridades dos dois países, também traz posicionamentos diplomáticos que funcionam como recados indiretos ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em temas sensíveis como o Ártico, a América Latina, o papel da ONU e a arquitetura financeira internacional.

 O comunicado, segundo o Estadão Conteúdo, apresenta uma agenda ampla de cooperação e reforça críticas a sanções unilaterais e a tentativas de interferência externa em regiões estratégicas, mas não menciona a guerra na Ucrânia, 

Encontro em Brasília retoma comissão Brasil-Rússia após hiato

O documento tem 49 parágrafos e foi assinado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelo primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, durante a 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN). Enviado pelo presidente Vladimir Putin, Mishustin também teve uma reunião reservada e participou de um almoço com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no Itamaraty.

No texto, os dois governos afirmam que o cenário internacional atual tem sido marcado por “incerteza e instabilidade” e dizem manter o compromisso com “a manutenção da paz e da segurança internacionais e a solução pacífica de controvérsias”.

“Parcerias sólidas não dependem apenas da conjuntura, mas de interesses estruturais bem compreendidos”, afirmou o vice-presidente brasileiro ao abrir a reunião, que estava suspensa desde 2022 e foi retomada após um intervalo de dez anos.

Recados sobre Ártico e América Latina miram a política externa dos EUA

Sem citar diretamente a Groenlândia ou a Venezuela, o comunicado apresenta formulações que se opõem, em linguagem diplomática, a ambições atribuídas ao governo Trump em regiões estratégicas. “As partes manifestaram-se em favor da preservação da paz e da estabilidade no Ártico, assim como do desenvolvimento sustentável daquela região”, afirma o texto conjunto.

No mesmo trecho, os dois países reforçam a defesa da América Latina e do Caribe como zona de paz. “As partes destacaram a importância da manutenção do status da América Latina e Caribe como zona de paz, construída sobre o respeito mútuo, a solução pacífica de controvérsias e a não intervenção”, registra o comunicado.

Brasil e Rússia defendem tratado nuclear e alertam para corrida espacial

O documento também aborda a questão do desarmamento e o risco de militarização do espaço exterior. No dia em que expirou o último acordo de controle de arsenais nucleares entre Washington e Moscou, sem resposta concreta do governo do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre sua prorrogação, Brasil e Rússia destacaram a necessidade de impedir uma corrida armamentista fora da atmosfera terrestre.

“Ressaltaram o apoio à elaboração de instrumento internacional juridicamente vinculante, destinado a proibir a instalação, no espaço exterior, de armas de qualquer natureza, assim como o uso de força ou ameaça de uso de força em relação a objetos espaciais ou com sua ajuda”, afirmaram.

O comunicado também reafirma o compromisso com o Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e sustenta que o instrumento não deve ser usado para fins políticos.

“As Partes reafirmaram seu compromisso com o Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), tendo sublinhado entender que a garantia da sustentabilidade e do equilíbrio dos três pilares do TNP são prioridades da preservação do sistema de segurança internacional”, diz o texto.

“Ressaltaram a inadmissibilidade de tentativas de usar o Tratado com o fim de resolução de objetivos de cunho político não relacionados com as problemáticas do desarmamento e da não proliferação das armas nucleares”, acrescenta o documento.

Nota conjunta reforça ONU e defende reforma do Conselho de Segurança

Em meio ao debate internacional sobre a proposta de Trump de criar um Conselho da Paz sob liderança dos Estados Unidos, Brasil e Rússia reforçaram a defesa do papel central da Organização das Nações Unidas.

Segundo o comunicado, os dois países “reafirmaram sua posição em favor do restabelecimento do papel central da ONU no processo de harmonização dos interesses dos países-membros e de elaboração de respostas coletivas aos desafios da época contemporânea”.

A declaração também defende mudanças no Conselho de Segurança da ONU, com ampliação da representatividade do órgão. Brasil e Rússia afirmam ser “imperativo avançar na reforma do Conselho de Segurança da ONU, a fim de conferir-lhe caráter mais representativo mediante a inclusão dos países em desenvolvimento da América Latina, Ásia e África, em conformidade com as realidades do mundo multipolar”. O texto ressalta ainda que Moscou apoia a reivindicação do Brasil por uma vaga permanente no Conselho.

Brics, moedas nacionais e rejeição a sanções

A declaração conjunta também destaca a articulação política dos países emergentes por meio do Brics, grupo que tem provocado reações e ameaças do governo Trump devido ao debate sobre desdolarização e novos mecanismos financeiros.

Os governos afirmam que “ressaltaram a importância da troca de experiências e do compartilhamento de informações na área de instrumentos de pagamento contemporâneos, no âmbito do Brics”.

O primeiro-ministro Mishustin havia defendido, em discurso, o uso mais intensivo das moedas nacionais, como real e rublo, no comércio bilateral, além de uma “arquitetura financeira independente”.

O comunicado também faz críticas diretas ao uso de sanções unilaterais, tema considerado estratégico para a diplomacia russa em razão do regime de restrições imposto pelo Ocidente e do isolamento de bancos russos, que foram banidos do sistema Swift.

“As partes reiteraram sua rejeição ao uso de medidas coercitivas unilaterais, particularmente contra países em desenvolvimento, enfatizando que tais medidas são ilícitas, ilegítimas e incompatíveis com o direito internacional e com a Carta das Nações Unidas”, afirma o texto.

A nota conjunta também defende mudanças no sistema financeiro internacional. “Os dois países destacaram a importância da reforma da arquitetura financeira internacional para refletir as transformações ocorridas na economia global e o crescente peso das economias de mercados emergentes na economia mundial”, registra o comunicado.

O texto acrescenta que “as instituições de Bretton Woods devem ser reformadas com urgência para torná-las mais representativas, ágeis, eficazes, críveis e inclusivas, fortalecendo assim sua legitimidade”.

Brasil e Rússia citam África do Sul em meio a tensão com Washington

O comunicado também menciona a África do Sul, parceira do Brics que enfrenta crise diplomática com o governo Trump. No documento, Brasil e Rússia destacam que, entre 2022 e 2025, países do grupo — Indonésia, Índia, Brasil e África do Sul — se revezaram na presidência do G20.

O texto observa que, agora, o G20 está sob a influência do governo Trump, que pretende reduzir o papel social e político do grupo e busca excluir Pretória das discussões, ampliando a tensão entre os Estados Unidos e a África do Sul.

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