China mostra ao mundo um novo modelo de desenvolvimento que combina inovação, soberania e justiça social
Relato de viagem de Moacyr de Oliveira Filho revela como o país saiu da pobreza para liderar tecnologia, reduzir desigualdades e planejar o futuro
247 – Em pouco mais de quatro décadas, a China protagonizou uma das transformações mais profundas da história contemporânea, deixando para trás a condição de país agrário e pobre para se tornar uma potência tecnológica, industrial e social. A análise consta em reflexões do jornalista Moacyr de Oliveira Filho, diretor da Associação Brasileira de Imprensa, elaboradas após viagem ao país entre 9 e 15 de abril de 2026, que ajudam a compreender os pilares do modelo chinês de desenvolvimento.
O relato mostra que o avanço chinês não se limitou ao crescimento econômico. Houve uma mudança estrutural com forte impacto social: centenas de milhões de pessoas foram retiradas da pobreza extrema, enquanto a renda da metade mais pobre da população quintuplicou desde 1978. Trata-se de um processo que contrasta com o modelo ocidental, onde, no mesmo período, houve estagnação ou queda de renda entre os mais pobres em países como os Estados Unidos.
Planejamento de longo prazo e protagonismo do Estado
O sucesso da China não é fruto do acaso. Segundo o estudo, há uma lógica clara baseada em planejamento estratégico, forte presença do Estado e investimentos contínuos em educação, ciência e tecnologia.
Esse modelo permitiu ao país deixar de ser apenas “a fábrica do mundo” e se transformar em um centro global de inovação. Gigantes como Huawei, Tencent e BYD simbolizam essa nova fase, na qual a China disputa a liderança em áreas como inteligência artificial, telecomunicações e energia limpa.
Mais do que crescimento econômico, o país construiu um projeto nacional de desenvolvimento que articula Estado, mercado e sociedade — um contraste com modelos neoliberais que fragmentam essas dimensões.
Tradição e modernidade caminham juntas
Um dos aspectos mais marcantes do modelo chinês é a capacidade de avançar tecnologicamente sem romper com sua identidade cultural.
Monumentos históricos como a Grande Muralha, a Cidade Proibida e o Exército de Terracota seguem preservados como símbolos vivos de uma civilização milenar. Essa convivência entre passado e futuro reforça uma visão estratégica: não há desenvolvimento sustentável sem raízes culturais sólidas.
China estuda o Brasil — e revela uma assimetria estratégica
Outro ponto relevante destacado no relatório é a existência, na China, de centros dedicados a estudar o Brasil de forma sistemática. O Centro de Estudos Brasileiros da Academia Chinesa de Ciências Sociais, por exemplo, reúne pesquisadores voltados à análise da política, economia, sociedade e relações bilaterais, incluindo o papel dos BRICS.
Essa estrutura produz relatórios estratégicos, análises conjunturais e estudos acadêmicos que orientam decisões de governo.
No entanto, o movimento inverso ainda é limitado. A ausência de centros robustos no Brasil dedicados à China cria uma assimetria importante. Em relações internacionais, quem compreende melhor o outro tende a negociar em melhores condições — um desafio estratégico para o Brasil.
Comunicação como ferramenta de desenvolvimento
A experiência chinesa também revela o papel central da comunicação. Em cidades como Shenzhen, um dos principais polos de inovação do mundo, o sistema de mídia atua de forma integrada ao projeto de desenvolvimento.
Jornais, plataformas digitais e emissoras não apenas informam, mas ajudam a consolidar uma visão coletiva sobre os rumos do país.
A pesquisadora Silvia Yan Qiaorng sintetiza essa lógica ao afirmar que a comunicação tem função essencial na construção da consciência coletiva, permitindo que a população compreenda e acompanhe as políticas públicas.
Consumo, abertura e projeção global
Eventos como a China International Consumer Products Expo 2026 evidenciam a crescente abertura econômica do país. A feira reuniu milhares de marcas de dezenas de países, com forte presença de produtos internacionais e lançamento de novas tecnologias e bens de consumo.
Esse movimento mostra que a China não apenas exporta, mas também se consolida como um dos maiores mercados consumidores do mundo, criando oportunidades para empresas globais e reforçando sua integração econômica.
Ecossistemas de inovação e cidades do futuro
A transformação chinesa também se materializa em projetos urbanos altamente planejados. A Cidade da Ciência de Guangming, por exemplo, foi concebida como um polo global de inovação, integrando universidades, laboratórios e empresas em um único ecossistema.
Com dezenas de institutos de pesquisa e centenas de equipes científicas, o projeto simboliza uma estratégia clara: produzir conhecimento original, e não apenas replicar tecnologias externas.
Outro exemplo é o Parque de Ciências da Vida, voltado à biotecnologia e à saúde, que conecta pesquisa básica à aplicação industrial, em um modelo semelhante ao Vale do Silício — mas com forte coordenação estatal.
Transição verde e liderança ambiental
Após décadas sendo vista como grande poluidora, a China passou a liderar a transição energética global. O país investe massivamente em energia solar, mobilidade elétrica e reflorestamento, tornando-se referência em políticas ambientais em larga escala.
Essa mudança não é apenas ecológica, mas também econômica. A economia verde surge como novo vetor de crescimento e como instrumento de liderança no século XXI.
Shenzhen e Chongqing: duas faces de um mesmo projeto
A trajetória chinesa pode ser compreendida a partir de duas cidades emblemáticas.
Shenzhen representa a abertura econômica. De vila de pescadores nos anos 1970, tornou-se uma metrópole global e um dos principais centros tecnológicos do planeta. Foi ali que a China testou suas reformas, criando zonas econômicas especiais e atraindo investimentos estrangeiros.
Já Chongqing simboliza a interiorização do desenvolvimento. Localizada no coração do país, a cidade recebeu investimentos maciços para reduzir desigualdades regionais e integrar o interior à economia global.
Com infraestrutura avançada e forte papel logístico, Chongqing conecta a China a mercados internacionais, inclusive por meio de iniciativas como a Nova Rota da Seda.
Um novo polo de poder global
A combinação de planejamento estatal, inovação tecnológica, redução de desigualdades e preservação cultural posiciona a China como um dos principais protagonistas do século XXI.
O país não apenas cresceu — construiu um modelo alternativo de desenvolvimento, desafiando paradigmas ocidentais e ampliando sua influência global.
Diante desse cenário, a questão central deixa de ser o futuro da China e passa a ser o posicionamento dos demais países, especialmente o Brasil, diante dessa nova realidade geopolítica.




