Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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China planeja dobrar PIB per capita até 2035 e acelerar investimentos em inovação

Meta apresentada à Assembleia Popular Nacional prevê expansão da pesquisa e desenvolvimento, avanço da economia digital e corte nas emissões de carbono

Panorama de Xangai (Foto: Global Times)

247 – A China apresentou um plano de desenvolvimento que prevê dobrar o PIB per capita até 2035, em comparação com os níveis de 2020, reforçando uma estratégia de crescimento sustentado, avanço tecnológico e melhora dos indicadores sociais. A informação foi publicada pela RT Brasil, com base em reportagem da agência estatal chinesa Xinhua, a partir de um relatório levado à Assembleia Popular Nacional do país.

O documento, que estabelece os principais objetivos de desenvolvimento para o período de 2026 a 2030, indica que o governo chinês pretende manter o crescimento do Produto Interno Bruto dentro de uma “faixa adequada” ao longo dos próximos cinco anos. Segundo o texto, esse desempenho deverá criar uma base sólida para que o país alcance, em 2035, a meta de duplicar o PIB per capita registrado em 2020.

A nova diretriz confirma a aposta de Pequim em um modelo de desenvolvimento de longo prazo, ancorado não apenas na expansão econômica, mas também na inovação, na sustentabilidade ambiental e na ampliação do bem-estar da população. O plano revela que a liderança chinesa busca consolidar uma etapa superior de modernização, com metas quantitativas e projetos estruturantes em diversas áreas.

Inovação no centro da estratégia chinesa

Entre os objetivos mais relevantes do plano está a previsão de aumento médio anual de pelo menos 7% nos gastos nacionais com pesquisa e desenvolvimento. A meta mostra que a China pretende intensificar ainda mais o investimento em ciência, tecnologia e inovação como eixo central de sua competitividade global.

O foco em pesquisa e desenvolvimento está diretamente associado à tentativa de fortalecer as chamadas novas forças produtivas, expressão usada para designar setores de maior intensidade tecnológica e maior valor agregado. Ao elevar de forma contínua os recursos destinados à inovação, a China procura ampliar sua autonomia tecnológica e acelerar a transição para uma economia mais sofisticada.

O relatório também propõe elevar o valor agregado das principais indústrias da economia digital para 12,5% do PIB. A diretriz aponta para a crescente centralidade do setor digital no projeto econômico chinês, com impacto esperado sobre produtividade, modernização industrial e criação de novas cadeias de valor.

Esse movimento reforça uma tendência que já vinha se consolidando nos últimos anos: a transformação digital como instrumento de reorganização econômica e de fortalecimento da presença chinesa em setores estratégicos do século 21.

Crescimento com redução de emissões

Outro ponto de destaque do plano é a meta ambiental. De acordo com o documento, a China prevê uma redução total de 17% nas emissões de CO2 por unidade de PIB entre 2026 e 2030. O objetivo sinaliza que o país pretende combinar expansão econômica com maior eficiência energética e menor intensidade de carbono.

A diretriz tem peso político e econômico. Ao vincular crescimento e redução proporcional das emissões, Pequim busca demonstrar que sua estratégia de desenvolvimento não se limita ao aumento do tamanho da economia, mas incorpora também compromissos associados à transição ecológica e à modernização industrial limpa.

Essa meta ganha relevância adicional porque a China ocupa posição central na economia mundial e no debate climático internacional. Um esforço dessa magnitude, se efetivamente implementado, poderá influenciar tanto os padrões produtivos internos quanto a dinâmica global de inovação verde.

Bem-estar social e horizonte de longo prazo

O relatório não se restringe aos indicadores macroeconômicos. Entre as metas sociais, está a elevação da expectativa de vida para 80 anos. O dado sugere que o plano quinquenal articula crescimento material com avanços em qualidade de vida, saúde pública e condições gerais de bem-estar.

Ao incorporar esse tipo de meta, o governo chinês reforça a narrativa de desenvolvimento integral, em que o desempenho econômico deve ser acompanhado por melhorias concretas nas condições de vida da população. Trata-se de uma abordagem que procura associar modernização produtiva, estabilidade social e fortalecimento do Estado.

A combinação entre crescimento, inovação e indicadores sociais ajuda a compreender por que o plano foi apresentado como um conjunto abrangente de prioridades nacionais, e não apenas como uma projeção econômica convencional.

Mais de 100 grandes projetos para viabilizar as metas

Para assegurar a implementação efetiva dos objetivos traçados, a China propõe um total de 109 grandes projetos em seis áreas. Segundo o documento, essas iniciativas deverão servir para desenvolver novas forças produtivas, ampliar a capacidade de inovação e garantir a melhoria do bem-estar público, entre outras tarefas estratégicas.

O número expressivo de projetos evidencia que a meta de dobrar o PIB per capita até 2035 não está sendo apresentada como mera aspiração política, mas como parte de um programa estruturado de execução. O desenho indica planejamento centralizado, prioridades definidas e articulação entre setores econômicos, tecnológicos, ambientais e sociais.

A opção por vincular metas nacionais a grandes projetos também revela uma característica recorrente da estratégia chinesa de desenvolvimento: o uso de planejamento de médio e longo prazo como instrumento para coordenar investimentos, orientar políticas públicas e reduzir incertezas.

O significado político e econômico da nova meta

A meta de dobrar o PIB per capita até 2035 tem forte dimensão simbólica e prática. No plano simbólico, reafirma a confiança da China em sua capacidade de manter uma trajetória de ascensão econômica em um ambiente internacional marcado por instabilidade, disputas tecnológicas e desaceleração em várias regiões do mundo.

No plano prático, a proposta consolida uma agenda que combina crescimento em “faixa adequada”, expansão da economia digital, intensificação dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, redução de emissões e melhora dos indicadores sociais. Em conjunto, esses objetivos mostram que Pequim pretende aprofundar seu modelo de desenvolvimento com ênfase em produtividade, inovação e capacidade estatal de coordenação.

Ao levar esse programa à Assembleia Popular Nacional, a liderança chinesa também sinaliza continuidade estratégica. Mais do que uma resposta conjuntural, o plano para 2026-2030 se apresenta como etapa decisiva de uma marcha mais ampla rumo a 2035, com o objetivo de elevar o padrão de renda da população e consolidar a transformação estrutural da economia chinesa.

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