Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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Hengqin: a nova fronteira da China que pode transformar Macau em ponte estratégica com o Brasil e o Sul Global

Projeto integra tecnologia, finanças, infraestrutura e cooperação em uma área maior que Macau e destinada a impulsionar a economia do mundo lusófono

Visão panorâmica de Hengqin a partir de Macau (Foto: Brasil 247)
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Por Leonardo Attuch, de Macau — A poucos minutos dos cassinos de Macau, uma das experiências econômicas e geopolíticas mais ambiciosas da China está sendo construída em silêncio. Trata-se de Hengqin, uma ilha de 106 quilômetros quadrados localizada em Zhuhai, na província de Guangdong, que se tornou o principal laboratório da estratégia chinesa para integrar Macau ao desenvolvimento nacional e transformá-la em uma plataforma internacional voltada para inovação, finanças, tecnologia e cooperação com os países de língua portuguesa.

Criada oficialmente como Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin, a iniciativa representa uma das mais importantes políticas do governo chinês para diversificar a economia de Macau, historicamente dependente da indústria de jogos e turismo. A estratégia ganhou ainda mais relevância após a pandemia, quando a forte dependência dos cassinos revelou vulnerabilidades estruturais da economia macaense.Hoje, Hengqin é vista por autoridades chinesas como a materialização de um novo conceito: “Macau + Hengqin”, uma integração econômica, regulatória e institucional destinada a criar um polo internacional capaz de conectar a China ao mundo lusófono e ao Sul Global.

Uma Shenzhen para o século XXI

Quando Deng Xiaoping lançou Shenzhen como Zona Econômica Especial nos anos 1980, a cidade se transformou no símbolo da abertura econômica chinesa. Quatro décadas depois, Hengqin surge como uma iniciativa de natureza diferente.

Não se trata apenas de atrair fábricas ou investimentos industriais. O objetivo é construir um ecossistema econômico avançado baseado em tecnologia, inovação, serviços financeiros, medicina tradicional chinesa, economia digital, turismo de alto valor agregado e integração internacional.

O novo plano de desenvolvimento para o período 2025-2029 estabelece metas ambiciosas. As chamadas quatro indústrias estratégicas de Macau — tecnologia e manufatura avançada, medicina e saúde, turismo e exposições internacionais, além de tecnologia financeira — deverão responder pela maior parte da atividade econômica da zona até o final da década.

A visão chinesa é clara: criar uma nova economia para Macau que vá muito além dos cassinos.

O experimento “um país, dois sistemas” em sua forma mais avançada

Hengqin também possui enorme relevância política. A zona é considerada o primeiro grande modelo de gestão conjunta entre Guangdong e Macau dentro do princípio “Um País, Dois Sistemas”. A experiência envolve mecanismos compartilhados de governança, harmonização regulatória e integração institucional inéditos na China contemporânea.

O governo da Região Administrativa Especial de Macau vem ampliando sua participação na administração da zona, destacando funcionários públicos, criando estruturas de coordenação permanentes e revisando legislações para facilitar a circulação de pessoas, empresas e investimentos entre os dois territórios.

A meta é reduzir progressivamente as barreiras existentes até criar um ambiente econômico altamente integrado, com livre circulação de talentos, capital, mercadorias e serviços.

A porta chinesa para os países lusófonos

Para o Brasil, Angola, Moçambique e demais países de língua portuguesa, Hengqin possui uma importância particular.

Macau já desempenha historicamente o papel de plataforma de negócios entre a China e o mundo lusófono. Agora, Hengqin está sendo estruturada para ampliar essa função em escala muito maior.

Autoridades chinesas e macaenses criaram centros de comércio e serviços destinados a fortalecer a cooperação econômica entre a China e países de língua portuguesa e espanhola, utilizando Hengqin como base operacional para novos negócios, investimentos e parcerias internacionais.

Essa estratégia coincide com o aprofundamento das relações entre China e América Latina, o fortalecimento dos BRICS e a crescente busca chinesa por novas formas de cooperação financeira, tecnológica e de infraestrutura com o Sul Global.

Para empresas brasileiras interessadas no mercado chinês, Hengqin poderá se tornar uma das principais portas de entrada do país asiático nas próximas décadas.

Infraestrutura para o futuro

A transformação de Hengqin não acontece apenas no papel. A ilha já conta com infraestrutura urbana de padrão internacional, centros financeiros modernos, parques tecnológicos, universidades, centros de convenções e extensas áreas destinadas à expansão empresarial. Grandes companhias globais e chinesas já estabeleceram operações na região, incluindo empresas dos setores industrial, tecnológico e financeiro.

A integração física com Macau também avança rapidamente. O moderno Porto de Hengqin tornou-se um dos principais corredores de circulação da Grande Baía chinesa. O sistema de inspeção conjunta permite que viajantes realizem procedimentos migratórios e alfandegários de forma simplificada, reduzindo significativamente os tempos de deslocamento entre os dois territórios.

Além disso, novas conexões rodoviárias, ferroviárias e de transporte urbano estão sendo desenvolvidas para consolidar a integração entre Macau, Zhuhai, Hong Kong e o restante da Grande Baía.

Crescimento acelerado

Os números mostram que a estratégia já produz resultados. Milhares de empresas com capital de Macau foram atraídas para Hengqin, enquanto dezenas de milhares de residentes macaenses passaram a viver ou trabalhar na zona de cooperação, evidenciando um processo acelerado de integração econômica e social.

Ao mesmo tempo, a região vem atraindo investimentos internacionais, capital estrangeiro e empresas de alta tecnologia, consolidando-se como um novo polo econômico do sul da China.

A expectativa das autoridades chinesas é que Hengqin se torne uma das áreas mais dinâmicas da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, uma megarregião que reúne mais de 86 milhões de habitantes e uma economia comparável às maiores do planeta.

O que Hengqin significa para o Brasil

A ascensão de Hengqin ocorre em um momento em que as relações sino-brasileiras alcançam níveis sem precedentes.

A China já é o principal parceiro comercial do Brasil, enquanto os BRICS ampliam sua relevância geopolítica e econômica. Nesse contexto, a nova zona de cooperação pode desempenhar papel estratégico para empresas brasileiras interessadas em acessar o mercado chinês, captar investimentos ou desenvolver projetos conjuntos nas áreas de tecnologia, energia, infraestrutura, logística, agricultura e finanças.

A realização de fóruns internacionais em Macau, voltados para infraestrutura, investimentos e cooperação econômica entre China e América Latina, reforça ainda mais a importância estratégica de Hengqin como plataforma para futuros negócios.

Mais do que uma expansão territorial de Macau, Hengqin representa uma nova visão chinesa de desenvolvimento: integração regional, inovação tecnológica, cooperação internacional e fortalecimento das conexões com o Sul Global.

Se Shenzhen simbolizou a abertura da China para o mundo no final do século XX, Hengqin pode se tornar o símbolo da nova fase chinesa no século XXI — uma fase em que a cooperação entre China, América Latina, África e países lusófonos ocupa posição central na construção de uma ordem internacional cada vez mais multipolar.

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