Índia aposta em IA frugal e local para enfrentar gargalos e vira referência para o Sul Global
Iniciativas voltadas à Justiça miram o acúmulo de processos e apontam um caminho de baixo custo para países em desenvolvimento
247 – A Índia tenta transformar uma limitação em vantagem estratégica: em vez de competir com Estados Unidos e China na corrida por modelos gigantescos, chips caríssimos e infraestrutura sem fim, o país vem promovendo uma “estratégia frugal” de inteligência artificial, baseada em soluções locais, focadas em problemas concretos e adaptadas ao contexto institucional e linguístico indiano. A tese ganhou visibilidade nesta semana, quando Nova Déli se tornou palco de uma grande cúpula global que reúne líderes de Big Tech e chefes de Estado.
Neste contexto, a Índia busca se tornar uma potência de IA “sem quebrar o banco”, como aponta reportagem do The Wall Street Journal, combinando políticas públicas, infraestrutura e ferramentas orientadas para ganhos de produtividade em áreas críticas do Estado, como a Justiça.
A pergunta que virou programa
O impulso para esse tipo de solução aparece em exemplos práticos. Segundo o Wall Street Journal, quando o ChatGPT se popularizou em 2022, Utkarsh Saxena — ex-advogado — associou a novidade a um dos maiores entraves institucionais do país: a lentidão do Judiciário, marcado por um estoque gigantesco de processos pendentes.
Diante desse cenário, Saxena formulou uma pergunta direta, quase administrativa, que ajuda a entender a ambição do projeto:
"É possível aumentar a produtividade dos juízes existentes de modo que seja como adicionar mil novos juízes ao sistema?"
A frase sintetiza uma ideia central da estratégia indiana: tratar a IA menos como espetáculo tecnológico e mais como ferramenta de produtividade pública, capaz de aliviar gargalos históricos do Estado.
IA aplicada ao cotidiano do Judiciário
A reportagem cita como vitrine dessa abordagem o Adalat AI, descrito como um assistente de transcrição jurídica treinado em línguas indianas e em referências de jurisprudência, desenhado para atuar no cotidiano do sistema judicial. A proposta, na prática, é reduzir fricções e acelerar rotinas, ajudando a lidar com um acúmulo de processos que pesa sobre tribunais e sobre a vida de milhões de pessoas.
O ponto é que a promessa não depende de “um modelo gigantesco que sabe tudo”, mas de ferramentas específicas, treinadas para tarefas delimitadas e capazes de operar com custos menores. Em larga escala, ganhos marginais de eficiência podem se transformar em impacto estrutural, sobretudo em serviços públicos.
Cúpula em Déli e ambição geopolítica
O momento político também é relevante. Ao sediar uma cúpula internacional de IA em Déli, a Índia busca se apresentar como ponte entre economias ricas e países em desenvolvimento, numa etapa em que a governança da tecnologia virou tema central da diplomacia global.
A estratégia “frugal” funciona, nesse contexto, como uma narrativa de liderança possível para o Sul Global: a tecnologia não precisa ser sinônimo de dependência, importação permanente de soluções prontas ou submissão a padrões definidos por poucos centros de poder.
Menos dependência, mais política industrial
A ideia de “IA frugal” não significa ausência de ambição industrial. O que está em jogo, segundo a reportagem do Wall Street Journal, é construir um ecossistema em que modelos mais acessíveis e aplicações especializadas convivam com investimentos em infraestrutura, mas sob uma lógica de custo e utilidade pública.
Essa escolha também conversa com uma preocupação estratégica: como expandir a capacidade tecnológica sem ficar preso ao duopólio de infraestrutura e cadeias de suprimento dominadas por Estados Unidos e China. Para a Índia, a saída proposta é combinar escala, soluções locais e coordenação estatal.
Um modelo observado pelo mundo em desenvolvimento
A reportagem sugere que a experiência indiana pode servir como referência para países em desenvolvimento por três motivos principais. Primeiro, porque a Índia tem escala populacional e diversidade linguística que obrigam a soluções inclusivas e adaptáveis. Segundo, porque o Estado pode induzir infraestrutura e demanda, acelerando o ecossistema. Terceiro, porque aplicações de domínio — como ferramentas para Justiça e serviços públicos — podem entregar retorno social com menos custo do que a corrida por modelos generalistas gigantes.
Nesse cenário, a pergunta de Saxena volta como síntese do que a Índia tenta vender ao mundo:
"É possível aumentar a produtividade dos juízes existentes de modo que seja como adicionar mil novos juízes ao sistema?"
A IA, nesse enquadramento, aparece como política pública e instrumento de eficiência estatal, capaz de atacar travas históricas e ampliar capacidades sem depender de um modelo de inovação concentrado, caro e excludente.




