Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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Modi afirma que Índia será uma das três superpotências globais da IA

Premiê projeta disputa tecnológica com China e EUA, defende “IA para todos” e diz que qualificação é “antídoto” para o medo no mercado de trabalho

Narendra Modi (Foto: Agência ANI)

247 – O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, afirmou que o país tem a meta de se tornar uma das três maiores superpotências globais em inteligência artificial, ao lado de China e EUA, e descreveu a tecnologia como eixo estratégico para transformar a economia, fortalecer serviços públicos e projetar a Índia no centro da nova disputa tecnológica mundial. As declarações foram dadas em entrevista à agência ANI nesta terça-feira, durante a abertura do India AI Impact Summit 2026, realizado em Nova Déli.

Na entrevista, Modi apresentou a visão indiana para 2047, marco do projeto “Viksit Bharat” (Índia desenvolvida), e defendeu que a inteligência artificial precisa acelerar o desenvolvimento global sem perder seu caráter humano. Segundo ele, o encontro em Nova Déli, descrito como o primeiro grande fórum global de IA sediado no Sul Global, foi estruturado sob o lema “Sarvajan Hitay, Sarvajan Sukhaye” — “bem-estar para todos, felicidade para todos”.

“O objetivo final da tecnologia deve ser o bem-estar de todos, a felicidade de todos. A tecnologia existe para servir à humanidade, não para substituí-la”, afirmou.

Índia quer disputar liderança com China e EUA

Ao tratar da ambição geopolítica do país, Modi foi direto ao apontar que a Índia não pretende ser mera usuária de soluções desenvolvidas por outras potências. “Minha visão é que a Índia esteja entre as três maiores superpotências de IA do mundo, não apenas no consumo de IA, mas na criação”, declarou.

Ele acrescentou que modelos de IA indianos poderão ser utilizados globalmente, atendendo bilhões de pessoas em seus próprios idiomas. “Nossos modelos de IA serão implantados mundialmente, servindo bilhões em suas línguas nativas. Nossas startups de IA serão avaliadas em centenas de bilhões e criarão milhões de empregos de alta qualidade”, disse.

A afirmação posiciona a Índia na disputa direta com China e EUA, hoje considerados os principais polos globais de desenvolvimento em inteligência artificial, tanto em infraestrutura quanto em pesquisa e aplicações comerciais.

IA como ferramenta de inclusão

Modi estruturou a estratégia indiana em torno de três eixos — Pessoas, Planeta e Progresso — defendendo que os benefícios da IA não podem ficar concentrados em poucos países ou empresas. “Queremos que os benefícios da IA sejam difundidos a todos e não acumulados apenas por adotantes iniciais”, afirmou.

Segundo ele, temas como governança da IA, criação de bases de dados inclusivas, aplicações climáticas, produtividade agrícola, saúde pública e acesso multilíngue são centrais para a Índia. “Nossa visão é clara: a IA deve acelerar o desenvolvimento global, permanecendo profundamente centrada no ser humano”, declarou.

O premiê citou exemplos de uso da tecnologia no país, como soluções para detecção precoce de tuberculose, retinopatia diabética e epilepsia em centros de saúde primários, além de plataformas educacionais personalizadas em idiomas indianos para estudantes de áreas rurais.

Qualificação como “antídoto” para o medo

Ao abordar o receio de jovens diante da automação e da possível perda de empregos, Modi reconheceu a preocupação, mas sustentou que a resposta é investir massivamente em capacitação.

“Eu entendo a preocupação de nossos jovens com disrupções impulsionadas pela IA no mercado de trabalho. A preparação é o melhor antídoto para o medo”, afirmou.

Ele disse que o governo indiano tem tratado o tema como prioridade imediata. “Temos investido em qualificação e requalificação de nosso povo para um futuro impulsionado pela IA. O governo lançou uma das iniciativas de capacitação mais ambiciosas do mundo”, declarou.

Para o premiê, a IA não elimina o trabalho humano, mas altera sua natureza. “A história mostrou que o trabalho não desaparece por causa da tecnologia. Sua natureza muda e novos tipos de empregos são criados”, afirmou. E completou: “Embora alguns empregos possam ser redefinidos, a transformação digital também adicionará novos empregos de tecnologia à economia da Índia”.

Modi também citou o Stanford Global AI Vibrancy Index 2025, no qual a Índia aparece na terceira posição, como evidência de que o país já possui base sólida em pesquisa, talentos e economia digital.

Infraestrutura, missão nacional e setor de TI

O premiê destacou que o orçamento 2026-27 amplia o apoio a centros de dados e infraestrutura em nuvem, reforçando a capacidade doméstica de processamento. No âmbito da IndiaAI Mission, startups e instituições de pesquisa recebem acesso a recursos de computação de alto desempenho.

“Não estamos apenas nutrindo talentos, estamos construindo a infraestrutura, o ecossistema de políticas e a base de habilidades necessárias para que a Índia passe de participante na revolução da IA a protagonista na sua definição”, disse.

Sobre o setor de tecnologia da informação, que é um dos pilares das exportações indianas, Modi afirmou que a IA não substituirá o segmento, mas o transformará. Segundo ele, projeções indicam que o setor pode alcançar 400 bilhões de dólares até 2030, impulsionado por novas ondas de automação e serviços baseados em IA.

Segurança, deepfakes e pacto global

Modi também abordou riscos associados ao uso indevido da inteligência artificial. “A tecnologia é uma ferramenta poderosa, mas é apenas um multiplicador da intenção humana. Cabe a nós garantir que ela se torne uma força para o bem”, afirmou.

Ele defendeu um pacto global para a IA baseado em supervisão humana efetiva, segurança desde a concepção, transparência e proibição rigorosa do uso da tecnologia para deepfakes, crimes e atividades terroristas.

A Índia lançou, em janeiro de 2025, o IndiaAI Safety Institute para promover implantação ética e responsável de sistemas de IA. Além disso, notificou regras que exigem marca d’água em conteúdos gerados por IA e remoção de mídias sintéticas nocivas, em meio ao aumento de vídeos falsificados.

“À medida que a IA se torna mais avançada, nosso senso de responsabilidade deve se tornar mais forte”, declarou.

Ao final da entrevista, Modi sintetizou a ambição estratégica do país ao vincular soberania tecnológica, inclusão e inovação. “A Atmanirbhar Bharat em IA significa que a Índia escreverá seu próprio código para o século digital”, afirmou, reforçando que o objetivo é posicionar o país como liderança responsável na governança global da inteligência artificial.

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