Estratégia dos EUA para a América do Sul mira terras raras, combate ao tráfico e contenção da China
Diretrizes do Comando Sul, com destaque para o Brasil, estão alinhadas à política do presidente do EUA, Donald Trump, para a região
247 - A nova estratégia dos Estados Unidos para a América do Sul amplia o foco no combate ao narcotráfico e na contenção da influência chinesa na região, com ações militares e monitoramento de setores considerados estratégicos, como mineração e infraestrutura. De acordo com o jornal O Estado de São Paulo, o general Francis L. Donovan, chefe do Comando Sul dos EUA, detalhou a abordagem em audiências no Congresso estadunidense, alinhando-se às diretrizes do governo do presidente Donald Trump para as Américas.
Estratégia militar e operações na região
O Comando Sul, sediado na Flórida, vem intensificando as operações militares no Caribe, no Pacífico e no norte da América do Sul. As ações incluem a mobilização de navios, aeronaves e cerca de 15 mil militares em operações justificadas como de combate ao o narcotráfico. Desde novembro, ataques a supostas embarcações suspeitas resultaram em pelo menos 163 mortes em 47 ações aéreas. As operações continuam, com a apreensão de navios ligados a redes ilegais.
Disputa geopolítica com a China
A presença chinesa em setores estratégicos foi apontada como uma das principais preocupações dos EUA. Donovan destacou a atuação de Pequim em projetos de mineração, portos, cabos submarinos e infraestrutura na América Latina. O Brasil aparece nesse cenário como um ator relevante por deter cerca de 23% das reservas globais conhecidas de terras raras, minerais essenciais para tecnologias e defesa.
Ao comentar a relação entre Brasil e China, o general afirmou que a aproximação impacta a cooperação militar com Washington. “Temos, nos níveis mais baixos, um relacionamento muito bom (com as Forças Armadas do Brasil). Aliás, vimos algumas ações positivas. No ano passado, o Brasil iria realizar um exercício anfíbio chamado Formosa, convidando os Estados Unidos. Não participamos porque os chineses estavam participando. E então, este ano, os chineses não estão participando e nós estaremos”, declarou.
Infraestrutura estratégica e segurança
O general também alertou para o potencial uso dual — civil e militar — de projetos chineses na região. “Estamos muito preocupados. Considero todos eles de dupla utilização. Se foram construídos com base em infraestrutura militar ou se são apenas dispositivos funcionais que poderiam ser usados para apoiar ações chinesas, considero todos de uso duplo. Estamos monitorando 23 projetos portuários e 12 projetos de infraestrutura espacial”, afirmou.
Entre os pontos sensíveis citados está o Canal do Panamá. “O principal ativo que me preocupa é o Canal do Panamá, manter o Canal do Panamá aberto para o livre fluxo comercial, mas com o foco principal em garantir que possamos deslocar forças americanas para leste ou oeste através do Canal do Panamá”, disse.
Narcotráfico e “narcoterrorismo”
Outro eixo central da estratégia é o combate ao chamado “narcoterrorismo”, conceito reiterado por Donovan durante suas apresentações ao Congresso.
“Elas produzem e transportam drogas ilícitas por todo o hemisfério e através de nossas fronteiras, incluindo a cocaína que envenena nossas comunidades e mata milhares de americanos todos os anos”, afirmou. “Essas vastas e ágeis organizações ilícitas geram centenas de bilhões de dólares em receita com o tráfico de drogas, pessoas, armas e contrabando; desestabilizam a região aterrorizando populações e minando a governança; e representam uma ameaça direta à segurança e à soberania dos Estados Unidos e de todas as nações do hemisfério”, acrescentou.
Alianças militares e tensão com o Brasil
A estratégia também inclui o fortalecimento de alianças com países da região. Equador e Paraguai foram destacados como parceiros prioritários, com iniciativas de cooperação em inteligência e operações conjuntas. O Paraguai autorizou a presença de tropas estadunidenses em seu território, enquanto o Equador realizou operações aéreas com apoio dos EUA.
As ações ocorrem em meio a divergências com o Brasil, que mantém relação estratégica com a China. O governo brasileiro tem rejeitado pressões para reduzir vínculos com Pequim e reforça a importância do país asiático como principal parceiro comercial do país.

