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Netanyahu enganou Trump, diz Robinson Farinazzo ao alertar para escalada militar e ingerência dos EUA no Brasil

Oficial da reserva da Marinha afirma que o Irã tem vantagem no conflito, critica a política externa dos EUA e prevê pressões sobre a América Latina

Netanyahu enganou Trump, diz Robinson Farinazzo ao alertar para escalada militar e ingerência dos EUA no Brasil (Foto: Divulgação | REUTERS)

247 – Em entrevista ao programa Juca Kfouri Entrevista, exibido pela TVT e disponível no YouTube, o comandante da reserva da Marinha Robinson Farinazzo traçou um panorama alarmante sobre a crise no Oriente Médio, a perda de capacidade de dissuasão dos Estados Unidos, os riscos de escalada nuclear e os reflexos geopolíticos sobre o Brasil e a América Latina. Ao longo da conversa, ele sustentou que Washington entrou em uma dinâmica militar sem condições reais de impor uma vitória sobre o Irã.

Na entrevista conduzida por Juca Kfouri, Farinazzo afirmou que o conflito atual marca uma inflexão histórica e poderá redefinir a ordem internacional. Para ele, ainda que não haja uma terceira guerra mundial nos moldes clássicos do século XX, o planeta já vive transformações equivalentes em escala e profundidade. “Eu acho que nós já estamos vivendo movimentos geopolíticos que têm características transformadoras parecidas com a terceira guerra mundial”, declarou.

Mundo já atravessa uma ruptura histórica

Ao responder à pergunta sobre a possibilidade de uma nova guerra mundial, Farinazzo evitou a comparação mecânica com os grandes confrontos do passado, mas insistiu que os abalos em curso terão consequências permanentes. Segundo ele, a crise envolvendo o Irã, a guerra na Ucrânia e o reposicionamento estratégico da China compõem um cenário de mudança estrutural.

Em uma das falas centrais da entrevista, ele resumiu sua avaliação: “Eu não sei se nós vamos ter uma terceira guerra mundial nos moldes da segunda. Eu acho meio difícil isso, mas nós não vamos sair desses acontecimentos do mesmo jeito que nós entramos”. Em seguida, acrescentou que as novas gerações viverão em um ambiente internacional profundamente alterado: “Essas mudanças elas são permanentes e a sua neta vai viver num mundo muito diferente daquele que nós fizemos”.

Para Farinazzo, os Estados Unidos não sairão ilesos do confronto em torno do Irã. Na sua visão, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a OTAN, já foi politicamente desgastada pela guerra na Ucrânia, enquanto a China continua observando e ampliando sua força econômica e estratégica.

Farinazzo vê limites militares dos Estados Unidos contra o Irã

Ao analisar a presença militar dos Estados Unidos no Oriente Médio, o oficial da reserva afirmou que o contingente atualmente mobilizado não seria suficiente para uma campanha terrestre de grande escala contra o Irã. Segundo ele, o número de militares operativos aptos a uma ofensiva mais contundente seria reduzido diante da dimensão territorial, populacional e geográfica iraniana.

Na avaliação do entrevistado, o cenário real não corresponde ao discurso político apresentado por Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. “Eu penso da seguinte forma, eu acho que o Trump ele é enganado. O pessoal passa relatórios falsos para ele aí, porque o que ele fala na televisão não tá batendo com o cenário militar real que nós estamos vendo”, disse.

Farinazzo foi além e afirmou que, neste momento, Teerã ocupa posição mais favorável no tabuleiro militar. “Os Estados Unidos claramente estão tendo dificuldades ali em obter uma hegemonia sobre o Irã. O Irã tá dando as cartas, ele tem o que os americanos chamam de upper hand”, declarou. Para ele, “não há efetivo para uma grande ação contra o Irã” e, por isso, “eu acho muito difícil você ver uma solução militar para esse confronto”.

“Netanyahu enganou Trump”

Um dos trechos mais fortes da entrevista veio quando Juca Kfouri perguntou se o alto comando dos Estados Unidos não teria alertado Trump sobre os riscos de uma aventura militar. Ao responder, Farinazzo apontou diretamente para o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

“Eu acho que o Netanyahu enganou o Trump”, afirmou. Em seguida, detalhou sua hipótese: “Ele deve ter vendido pro Trump o seguinte: ‘Olha, é fácil. O Irã vai ser subjugado. O senhor já teve o sucesso na Venezuela. A gente vai repetir sucesso no Irã’”.

Segundo Farinazzo, Netanyahu acreditava que abriria a semana seguinte ao ataque com uma vitória rápida, mas isso não aconteceu. “Ele achava que ele ia abrir a segunda-feira com uma vitória, com troféu. E não foi o que aconteceu, Juca, de forma alguma”, disse.

O comandante também sustentou que não se deve subestimar o líder israelense. “Eu falo sempre nas análises que eu faço, não subestime o Netanyahu. Ele tem um poder de persuasão fora de série”, observou, associando essa influência também ao peso do lobby pró-Israel dentro da política dos Estados Unidos.

Irã não é Iraque, diz comandante

Ao longo da conversa, Farinazzo insistiu que o Irã não pode ser comparado a alvos anteriores de intervenção militar dos Estados Unidos. Ele destacou a extensão territorial do país, o relevo montanhoso, a tradição de engenharia, a capacidade de construção de túneis e o desenvolvimento de tecnologia própria de mísseis e drones.

“O Irã não é o Iraque, não. Uma coisa muito mais complicada”, resumiu. Em outro momento, reforçou: “É uma fantasia muito grande você achar que um país que tem milhões de pessoas, um país extremamente montanhoso, que tem a melhor tecnologia de mísseis e drones do Oriente Médio, que você vai entrar e dobrar esse pessoal”.

Para ele, a crença excessiva no poder aéreo segue sendo um erro recorrente da mentalidade estratégica dos Estados Unidos. “Existe aquela ideia de que o poder aéreo pode tudo, não pode. Olha o Vietnã, olha o Afeganistão”, afirmou. Na mesma linha, completou: “Se você não tiver infantaria para entrar lá, você não vai conseguir resultados”.

Gaza, ordem jurídica e seletividade internacional

Farinazzo também fez duras críticas ao sistema internacional e ao que considera uma seletividade moral e jurídica do Ocidente diante das guerras atuais. Segundo ele, os acontecimentos em Gaza abriram uma fase em que a violação de normas internacionais passou a ser tratada com complacência por parte das potências centrais e da mídia hegemônica.

“O que eu acho que tá morrendo é a ordem jurídica”, afirmou. Logo depois, radicalizou o diagnóstico: “Depois de Gaza tudo é possível. Qualquer coisa que você pode pensar é possível depois que aconteceu em Gaza”.

Ao contrapor a cobertura internacional sobre diferentes conflitos, ele também apontou disparidade no tratamento das vítimas civis. “Nós temos vítimas, né? E a gente é seletivo para quem é vítima”, declarou, ao mencionar que a imprensa daria grande destaque a certos episódios, mas silenciaria sobre mortes de crianças em outros cenários de guerra.

Risco de escalada nuclear preocupa

Questionado sobre a possibilidade de uso de armas nucleares, Farinazzo afirmou ver com preocupação o caminho da crise. Embora tenha dito acreditar que China e Rússia interviriam politicamente diante de uma ruptura mais grave, ele reconheceu temer uma resposta extrema de Estados Unidos ou Israel diante das dificuldades militares no terreno.

“Eu tenho muito receio dos Estados Unidos ou Israel apelarem para armas nucleares”, disse. Ao mesmo tempo, ressaltou que mesmo esse cenário não garantiria destruição total da capacidade estratégica iraniana. Segundo ele, o país tem condições técnicas para desenvolver esse tipo de armamento se decidir romper a restrição política e religiosa que historicamente limitou esse caminho.

Na entrevista, Farinazzo lembrou que o líder iraniano Ali Khamenei teria sido contrário à bomba atômica. “O Irã não tem bomba atômica por causa do Khamenei”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “Tem uma fatwa de 2003 dele proibindo”. Ainda assim, ponderou que uma nova geração de dirigentes pode rever essa posição diante da atual pressão militar.

Monroe, América Latina e pressão sobre o Brasil

Ao deslocar a análise para o continente latino-americano, Farinazzo afirmou que a crise global tende a aumentar a pressão dos Estados Unidos sobre a região. Na sua leitura, as dificuldades norte-americanas no Oriente Médio e no Leste Europeu podem levar Washington a concentrar esforços na América Latina, com impacto direto sobre o Brasil.

Ele disse acreditar em ingerência externa no processo eleitoral brasileiro. “Eu acho que vai haver ingerência americana nas eleições”, declarou. Segundo ele, sinais desse movimento já estariam visíveis. Farinazzo também mencionou alertas produzidos pela Agência Brasileira de Inteligência e associou ações judiciais e campanhas políticas internacionais a esse ambiente de pressão.

Ao comentar a posição do presidente Lula, Farinazzo destacou o protagonismo do chefe de Estado brasileiro no Sul Global e sua postura crítica em relação às guerras. “Lógico que a posição do presidente Lula, que é um homem do sul global, é um dos fundadores do BRICS, todo mundo sabe as posições dele. Ele tem sido bastante incisivo aí, bastante contra essa guerra”, afirmou.

Ainda assim, considerou o cenário inquietante. Para ele, o método de pressão sobre o Brasil não tende a ser uma ação militar direta, mas sim uma combinação de ingerência política, guerra jurídica e manipulação econômica.

Lava Jato, imprensa e lawfare

A entrevista avançou para o terreno interno brasileiro. Ao ser perguntado se o presidente de um país com posição soberana deveria temer algum tipo de ação extrema, Farinazzo respondeu que considera improvável uma operação direta, mas sustentou que o Brasil já sofreu intervenções graves por outras vias.

“Você viu diversas ingerências americanas no processo democrático brasileiro que nos atrapalharam bastante, sem precisar fazer isso”, disse. E citou nominalmente a Lava Jato como exemplo desse tipo de ação indireta.

Ao discutir o papel da mídia e do sistema político em processos de desestabilização, foi ainda mais explícito: “Não existe fascismo sem imprensa”. Em seguida, fez um paralelo histórico: “Se você pegar todos os golpes que nós tivemos no Brasil, pega a morte do Getúlio em 54, derrubada do Jango em 64, Lava Jato, é só você olhar onde estavam os jornais”.

Na sua leitura, a pressão por uma alternativa neoliberal no Brasil será construída principalmente por meios políticos, jurídicos e midiáticos. “É uma coisa mais soft, é o lawfare, é a imprensa patrocinando golpes e por aí vai”, resumiu.

Crítica à falta de diálogo entre esquerda e militares

Em uma das passagens mais políticas da conversa, Farinazzo defendeu maior aproximação entre setores progressistas e as Forças Armadas. Segundo ele, a ausência de diálogo permitiu a expansão de correntes ideológicas reacionárias e a captura de parte da caserna por visões simplificadoras e antinacionais.

“A esquerda tem que conversar com os militares”, afirmou. Em seguida, reforçou: “Se vocês que têm uma visão progressista não conversarem com os militares, não esclarecerem isso, não vai adiantar nada”.

Para ele, esse vazio ajudou a abrir espaço para o bolsonarismo e o olavismo. “Por que que você chegou nesse retrocesso? Por que que o olavismo teve tanta força junto aos militares? Exatamente por omissão da esquerda”, declarou.

Farinazzo também cobrou autocrítica do campo progressista. “A direita não tem autocrítica, a esquerda não tem autocrítica, a direita nem sabe o que é isso”, afirmou, em uma frase que repetiu como síntese de sua visão do momento político brasileiro.

Soberania, defesa e programa nuclear brasileiro

Ao longo da entrevista, o comandante também lamentou o que vê como desmonte histórico da capacidade de defesa do Brasil. Ele citou entraves ao programa nuclear brasileiro, a assinatura do Tratado de Não Proliferação, o fechamento de estruturas militares estratégicas e a lentidão em projetos como o submarino nuclear.

Sua avaliação é que houve uma sucessão de movimentos destinados a reduzir a autonomia militar da América Latina. “Houve seguidas movimentações para, eu chamo de gendarmerizar as Forças Armadas latino-americanas, transformá-las em gendarmes, só voltadas aqui para a questão de segurança interna, mas com pouca capacidade de defesa efetiva do país”, afirmou.

Para Farinazzo, o debate sobre defesa não deve ser reduzido a militarismo. “Se a gente quiser manter a nossa língua, os nossos costumes, a nossa democracia, a nossa cultura, a gente precisa se defender”, declarou. E completou: “Não é o discurso militarista, é o discurso de passar para as novas gerações um país defendido”.

Crise econômica pode ampliar desgaste de Trump

Na parte final da entrevista, Farinazzo afirmou que o conflito no Oriente Médio pode produzir forte impacto econômico global, com efeitos sobre combustíveis, fertilizantes, cadeias industriais e custos de transporte. Na sua visão, esse processo tende a desgastar ainda mais Donald Trump internamente.

“Se a gente tiver um barril de petróleo a 200, como é que vai ficar o transporte?”, perguntou. Em seguida, lembrou que o mundo vive um grau elevado de interdependência e que qualquer guerra afeta cadeias produtivas em escala internacional.

Ele também argumentou que, se Trump fracassar militarmente, seu governo entrará em fase terminal. “Se ele perder essa guerra, Juca, ele é um pato manco. Acabou o governo dele”, afirmou. Na sua leitura, as chances de vitória dos Estados Unidos são pequenas: “É bem diminuta. É bem diminuta”.

Entrevista expõe visão de confronto prolongado

Ao final da conversa, Farinazzo deixou claro que enxerga o mundo em uma fase de instabilidade profunda, com erosão das normas internacionais, fortalecimento de guerras por procuração e reconfiguração das disputas entre potências. Para ele, Ucrânia e Oriente Médio fazem parte de um mesmo esforço dos Estados Unidos para preservar hegemonia global em declínio.

“Os Estados Unidos tá fazendo essas guerras com proxies aí para manter a sua hegemonia”, disse. Mas ponderou que esse objetivo enfrenta limites históricos e materiais, sobretudo diante da ascensão chinesa e da resistência de países como o Irã.

A entrevista, marcada por avaliações duras e frases contundentes, projeta um cenário em que a crise internacional ultrapassa o campo militar e alcança diretamente a democracia, a soberania e a estabilidade institucional de países como o Brasil. Na síntese de Farinazzo, o momento exige menos ilusão e mais consciência estratégica.

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