“Não houve mudança de regime na Venezuela, mas de liderança”, diz Thomas Shannon
Ex-autoridade do Departamento de Estado afirma que ação dos EUA foi um “golpe externo” e aponta petróleo e negociação com militares como nós centrais
247 – Em meio às incertezas sobre o futuro da relação entre os Estados Unidos, sob o presidente Donald Trump, e a Venezuela, agora comandada pela presidente interina Delcy Rodríguez, o embaixador Thomas Shannon avalia que Washington entrou em um terreno político instável e difícil de administrar.
Em entrevista ao jornal O Globo, o ex-secretário de Estado para o Hemisfério Ocidental afirmou que o que ocorreu em Caracas não configurou uma mudança de regime, mas uma troca de comando imposta de fora. “É importante esclarecer que o que aconteceu na Venezuela não foi uma mudança de regime, mas de liderança. E uma mudança de liderança que não foi consequência de um golpe interno, mas sim de um golpe externo”, disse.
Shannon, que hoje atua no setor privado, sustenta que Nicolás Maduro, embora esteja “sob custódia dos EUA e enfrentando denúncias nos tribunais americanos”, deixou como herança um aparato político que permaneceu. “O regime que ele liderou ainda está no poder”, afirmou, ao explicar por que Trump, na prática, escolheu dialogar com a estrutura chavista remanescente.
Retomada diplomática e a reabertura da embaixada
O ex-diplomata considera relevante a volta de representantes americanos a Caracas, como passo inicial para reconstruir canais formais. “A chegada de diplomatas americanos é importante para estabelecer uma plataforma para ter conversações com os venezuelanos”, afirmou.
Ele lembrou que a embaixada dos EUA está fechada desde 2019 e indicou que a reabertura exigirá tempo e garantias concretas. “Levará um tempo reabrir a missão e garantir que poderá ter uma equipe, e que nossa equipe poderá ter a segurança e a proteção necessárias”, disse.
Shannon também destacou que o processo vai além da política externa e envolve responsabilidades práticas do Estado. “Não estamos falando apenas de uma missão diplomática, mas também de atividades consulares, da concessão de vistos e da atenção aos americanos que estão no país”, afirmou.
“Tudo me parece muito improvisado”
Questionado sobre a existência de um plano claro para o pós-ataque, Shannon foi direto: “Não sei. Tudo me parece muito improvisado”. Segundo ele, a própria Casa Branca não conseguiu explicar de forma convincente o que pretendia fazer a seguir. “O presidente e o secretário de Estado tiveram dificuldade para explicar o que estavam fazendo após o ataque”, disse.
O ex-secretário avaliou que Trump buscou demonstrar força, mas acabou abrindo um problema imediato de governabilidade. “Ao tirar Maduro do poder, Trump fez algo que vinha pensado há muito tempo. Mostrou o poder e a dominação dos EUA no campo militar. Mas isso criou um vazio de poder na Venezuela, e esse vazio precisou ser preenchido”, afirmou.
Shannon disse ainda que Trump tenta evitar um cenário de colapso institucional semelhante ao de outros países após intervenções externas. “Trump quer evitar o que aconteceu, por exemplo, no Iraque, onde houve falta de habilidade política para manter a ordem pública”, declarou.
A oposição “desprezada” e o cálculo de manter o chavismo
Na avaliação do ex-diplomata, o governo americano percebeu que não conseguiria entregar o comando do país à oposição sem desencadear uma resistência interna poderosa. “Quando pensou nos próximos passos, Trump percebeu que a oposição não podia ser colocada no poder. Em mais de 25 anos, o chavismo construiu um Estado e o ideologizou. Esse Estado se tornou corrupto e criminoso, com a participação de militares, do Judiciário e de muitos outros”, afirmou.
Ele citou que esse aparelho estatal resistiria à presença de lideranças oposicionistas. “Esse Estado resistiria à presença da oposição, de pessoas como María Corina Machado e Edmundo González Urrutia”, disse, ao explicar por que Trump teria optado por preservar o regime e tentar fazê-lo colaborar.
“O presidente decidiu que, para manter a estabilidade da Venezuela, ele deveria deixar o regime [no poder] e buscar uma maneira de fazê-lo colaborar. Ele está tentando construir um regime que colabore com os interesses dos EUA. Mas isso cria desafios... Enormes”, afirmou.
Os “desafios enormes”: legitimidade, militares e bastidores
Shannon enumerou o primeiro obstáculo como político: justificar a guinada de Washington ao negociar com aquilo que antes apresentava como inimigo. “Maduro era apresentado como um ditador, e o regime que ele liderava, que era parte do problema, continua lá”, afirmou.
Em seguida, ele descreveu o tipo de estrutura com a qual os EUA passariam a lidar. “Se o regime está lá, os cubamos estão lá, [além de] fatores antidemocráticos, violadores dos direitos humanos, associados com cartéis de drogas. Esse é o regime com o qual teremos de trabalhar”, disse.
O ex-secretário também apontou o desgaste da oposição democrática no processo. “A oposição democrática foi desprezada. Isso deve ser explicado. A pergunta é: podemos realmente trabalhar com esse regime?”, afirmou.
Ao falar do núcleo dirigente chavista, Shannon questionou a viabilidade de uma parceria duradoura. “Delcy e Jorge Rodríguez, [o ministro do Interior, Diosdado] Cabello e [o ministro da Defesa, Vladimir] Padrino são chavistas, e eles se consideram os últimos anti-imperialistas da América Latina, os últimos revolucionários. Não acredito que queiram ser nossos sócios para reformar a Venezuela”, disse.
Ele admitiu concessões táticas, mas duvidou de cooperação de longo prazo. “Estão preparados para fazer concessões para sobreviver no curto prazo, mas não acho que tenham a intenção de cooperar no longo prazo”, afirmou, definindo o cenário como um arranjo complexo. “Estamos falando de um acordo de compartilhamento do poder [entre EUA e Venezuela]”, disse.
Outro ponto central, segundo Shannon, é o papel das Forças Armadas, que se tornaram ainda mais influentes. “Estamos falando de um acordo de compartilhamento do poder [entre EUA e Venezuela]. Outro desafio é que, nas últimas décadas, o chavismo virou uma aliança cívico-militar”, afirmou.
Ele ressaltou que, com a queda de popularidade e a pressão por resultados eleitorais, o peso dos militares aumentou. “Com o tempo a popularidade de Maduro caiu, sua habilidade de ganhar eleições caiu, e a necessidade de ganhar eleições aumentou. Os militares passaram a ter uma importância ainda maior”, disse.
Por fim, Shannon afirmou que o maior risco é a população ficar de fora de decisões que redesenham o país. “Por último, como ficam os venezuelanos nessa equação. Os mais abandonados, os que votaram nas eleições de 2024 e hoje observam tudo sendo resolvido nos bastidores”, afirmou.
Petróleo no centro e incerteza sobre o caminho
Ao tratar do que considera o motor da política de Trump para Caracas, Shannon colocou o petróleo no centro da estratégia, mas apontou falta de clareza operacional. “O presidente parece acreditar que muitas empresas querem entrar de novo na Venezuela e começar uma grande operação no país. Isso demandará muito dinheiro, tempo e segurança”, disse.
Ele afirmou que a Casa Branca aposta que a própria exportação venezuelana financiaria esse ciclo, mas sem apresentar um método definido. “O presidente acha que o custo será pago pela venda do petróleo venezuelano. Mas o mecanismo que ele quer usar não está claro”, afirmou.
Ao final, Shannon disse que há, do lado venezuelano, a expectativa de uma relação menos assimétrica, mas avaliou que isso ainda não se materializou. “O chavismo, dizem em Caracas, quer uma relação de respeito, e não de submissão. É possível? Não sabemos, teremos de esperar e ver. Mas até agora não foi assim.”



