Olímpio Cruz Neto avatar

Olímpio Cruz Neto

⁠Jornalista e analista de Risco Institucional e Geopolítica. Foi consultor do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) em Xangai, diretor de Relações Institucionais da GAC Brasil e secretário de Imprensa da Presidência da República

24 artigos

HOME > blog

O paradoxo de Ormuz e a hora do Brasil

Ao transformar energia em risco e previsibilidade em ativo, a crise no Golfo redesenha alianças e abre ao país uma função inesperada no novo equilíbrio global

O paradoxo de Ormuz (Foto: Brasil 247)

O barulho dos últimos 40 dias é sinal dos novos tempos. A crise global revela um novo cenário. O que acontece agora no Estreito de Ormuz antecede um rearranjo. Não é só outro capítulo na tensão permanente das grandes potências. A guerra no Golfo Pérsico é um aviso de que o resto do planeta começa a respirar de outro jeito por conta deste ponto no mapa do Oriente Médio.

A interdição da passagem pelas forças iranianas, seguida da resposta militar dos Estados Unidos, fez dessa faixa de mar um lugar em que comércio e conflito agora são inseparáveis.

As manchetes sobre guerra ainda se desdobram, enquanto o preço do petróleo sobe e desce nas bolsas. Mas a crise transbordou – como já apontei aqui nas últimas semanas. Frete, seguro, tempo das rotas, cadeias produtivas... O humor dos mercados segue as declarações do presidente Donald Trump. E, daqui para frente, virão outros solavancos.

Quando uma parte tão sensível do fluxo global de energia entra em risco, o mundo não paga apenas mais caro. Passa a confiar menos. Essa é a mudança importante. Em vez de olhar apenas para o preço, olha-se para algo mais básico e mais raro: a confiabilidade. É nesse ponto que o Brasil aparece como parceiro.

Não por genialidade estratégica, nem por um movimento calculado com antecedência. Às vezes, a geopolítica molda cenários até pouco tempo improváveis. Sem planejar o papel principal, países acabam convocados pela circunstância. O Brasil, de repente, passa a ser lido não apenas como exportador relevante de petróleo, mas como uma espécie de zona de previsibilidade num mundo que voltou a andar aos solavancos.

E previsibilidade, hoje, vale muito. Mas, reparem no paradoxo.

A crise em Ormuz expôs uma fissura menos visível, mas talvez mais duradoura: a diferença de visões e de ritmo entre Estados Unidos e Europa. Washington continua operando dentro da sua gramática clássica, aquela em que poder militar, demonstração de força e controle estratégico são instrumentos quase naturais de resposta. A política externa que o mundo conhece há quase um século. Para os americanos, o tabuleiro segue sendo geopolítico.

Mas, na Europa, o olhar parece outro. Berlim, Paris, Madri não enxergam apenas a escalada militar. Estão vendo a conta chegar em setores vitais – indústria, energia, transporte. E temem um choque ainda mais brutal na economia, reacendendo velhos medos. Para o Velho Mundo – ainda um peso na moldura do Ocidente – a crise não é uma abstração estratégica.

A crise tem cheiro de gasolina. Tem gosto de diesel e querosene, arranha o custo logístico, traz pressão sobre fábricas, reacende o medo de desorganização produtiva. Os europeus têm a sensação de que qualquer novo sobressalto no Golfo comprometerá ainda mais o funcionamento cotidiano de economias já pressionadas por outros desafios.

Por isso, em certos círculos europeus, a resposta de Trump pode até parecer firme, mas começa a soar excessivamente cara. E não apenas porque afeta o humor do mercado financeiro. Ela passa a ser insuportável por seus efeitos colaterais. A divergência entre Washington e Bruxelas não é apenas de retórica, mas também de estrutura. Um lado pensa a contenção. O outro teme a paralisia.

Quando alianças tradicionais começam a sofrer esse tipo de atrito, ainda que de forma sutil, novos espaços se abrem. Mas não porque as velhas afinidades desapareceram de uma hora para outra. É que a necessidade costuma falar mais alto que a liturgia diplomática. E a necessidade europeia, neste momento, é quase banal em sua urgência: manter as coisas funcionando. É nesse deslocamento discreto que o Brasil ganha relevo.

O movimento não chegou com fanfarra. Apareceu mais nos gestos dos chefes de Estado que receberam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva há 15 dias no périplo dele pela Espanha, Alemanha e Portugal. Um pouco também nos discursos, mas sobretudo nos fluxos, muito mais do que nas solenidades.

Refinarias, tradings, importadores e agentes industriais começam a olhar com mais atenção para fornecedores que ofereçam não só volume, mas regularidade. E olham para cá, no Atlântico Sul. O nosso petróleo, longe do epicentro da crise, passa a carregar um atributo que orienta decisões reais: menor risco logístico relativo.

De repente, o Brasil deixa de ser apenas uma opção entre outras. Passa a ser visto, em alguma medida, como plano de contingência. E há uma diferença enorme entre essas duas visões. Uma alternativa pode ser conveniente. Um plano de contingência é aquilo para o qual se corre quando o mundo perde firmeza.

Talvez por isso a recepção a Lula em espaços como Hannover, na Alemanha, e em outros ambientes de articulação econômica na Europa tenha adquirido um peso que vai além do protocolo.

Não se trata apenas de gentileza diplomática ou de entusiasmo de ocasião. É um cacoete do pragmatismo. A indústria europeia, espremida entre a transição energética, a competição global e a instabilidade geopolítica, procura onde ancorar parte de sua segurança futura.

E o Brasil surge com uma combinação que poucos conseguem reunir ao mesmo tempo: recursos naturais em abundância, escala produtiva, base energética relevante e uma posição geográfica relativamente distante dos principais teatros de conflito.

É pouco? Talvez. Mas, nos tempos que vivemos, já é muito.

Seria um erro, no entanto, imaginar que tudo isso se resume ao petróleo. Ormuz não acende apenas o alerta da energia fóssil. O conflito acelera também a corrida por minerais críticos e insumos sem os quais a tal transição verde, a indústria digital e a reorganização tecnológica do século ficam comprometidas.

É que o século 21 fala em inovação, mas continua dependente da materialidade: lítio, níquel, grafite, cobre, terras raras. Claro, petróleo. No fim das contas, o futuro sai também da terra.

Nesse campo, o Brasil entra na conversa com vantagens reais. Não é que tenha resolvido seu lugar na cadeia global. Mas tem reservas, escala e potencial. A novidade está menos nos recursos em si e mais na forma como o mundo voltou a nos enxergar. O que antes podia parecer apenas vocação mineral agora passa a ser ativo estratégico.

Os acordos recentes com países europeus ajudam a mostrar esse redesenho. Há uma tentativa de reorganizar relações produtivas, buscar fornecedores mais estáveis e aproximar financiamento, indústria e transição energética. Em tese, isso abre para o Brasil uma possibilidade rara: não apenas vender matéria-prima, mas usar essa janela para subir alguns degraus na cadeia de valor.

Em tese...

Porque a história brasileira é cheia desses momentos em que a oportunidade bate à porta e o país, por hesitação, desorganização ou miopia, responde tarde demais. O risco continua sendo o de sempre: virar fornecedor confiável do básico enquanto outros concentram tecnologia, processamento, inteligência artificial, semicondutores e o pedaço mais bem remunerado do século.

Há um nome duro para isso: permanecer periférico com verniz de centralidade. Na primeira metade do século 20, o chanceler Oswaldo Aranha nos ensinou a usar a crise para construir futuro.

Temos de sair da velha miopia que ainda sustenta parte do pensamento de agentes econômicos no país. Para alguns, seremos sempre apenas a velha fazenda que exporta comida e cospe minério de ferro. Nesses novos tempos, continuaremos a exportar chão enquanto o valor fica no software, no chip, na patente e na engenharia dos outros – da China, dos EUA, dos parceiros europeus?

Existe uma chance de o Brasil ocupar um papel mais relevante neste rearranjo global. É fato que as limitações são conhecidas. As incertezas sobre governança, o ruído político permanente, a dificuldade de coordenar estratégia de longo prazo. Tudo isso pesa. A visão ainda embaçada de certos setores das classes dirigentes é aquele tipo de obstáculo que mina nossas chances.

É hora de estabelecer confiança. Neste momento, este é o nome do jogo. Um país só pode ser porto seguro se convencer o mundo — e a si mesmo — de que sabe sustentar regras, planejamento e credibilidade institucional. Sem isso, a vantagem geográfica vira acaso. A abundância de recursos, promessa. E a janela internacional, só mais uma fotografia.

A volatilidade recente em torno da Petrobras, atravessada por pressões externas e dúvidas internas, serve de lembrete. Em tempos turbulentos, o mercado aceita risco. O que não tolera é incerteza mal administrada.

Há uma diferença importante entre ousadia estratégica e improviso. O investidor, o parceiro industrial e o comprador de longo prazo percebem essa diferença muito antes de qualquer governo admiti-la.

Agora, quando o Brasil aparece em palcos como Barcelona ou Hannover, não está apenas como convidado lateral. Aparece como variável possível de uma reacomodação maior. Não é exatamente protagonismo, no sentido vaidoso que Brasília às vezes gosta de inventar para si. É algo mais interessante: função.

Neste mundo tensionado entre a musculatura estratégica de Washington, a voracidade confuciana de Pequim e a ansiedade industrial da Europa, países capazes de oferecer estabilidade relativa passam a valer mais do que seu peso habitual sugeriria. Isso não muda o mapa de poder da noite para o dia. Mas altera a conversa. E, às vezes, tudo começa quando a conversa muda.

Carreira 3D • Investidor 3D • Consumo consciente

O Dinheiro 3D é um guia prático para quem quer evoluir financeiramente com visão, estratégia e equilíbrio.

Saiba mais

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados