Pepe Escobar vê guerra dos EUA contra a multipolaridade e os corredores da Eurásia
Em entrevista, jornalista afirma que ataques ao Irã miram China, Rússia, BRICS e a integração econômica eurasiática
247 – O jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar afirmou que a ofensiva dos Estados Unidos contra o Irã deve ser entendida como parte de uma guerra mais ampla contra a multipolaridade, a China, a Rússia, os BRICS e os corredores de integração da Eurásia.
Em entrevista ao professor Glenn Diesen no YouTube, Escobar sustentou que o século XXI será marcado por uma disputa decisiva em torno dos corredores de conectividade, rotas comerciais, infraestrutura ferroviária, portos, energia e mecanismos financeiros capazes de reduzir a dependência do dólar, do sistema Swift e das rotas marítimas controladas pelo Ocidente.
Segundo ele, "este é, de fato, uma guerra contra a multipolaridade". Escobar acrescentou: "O alvo número um, claro, é a China. Mas é uma guerra contra o Irã, contra a China, contra a interconexão, contra a integração e a interconexão da Eurásia, contra a Rússia em outro nível, e uma guerra contra os BRICS".
A guerra dos corredores
Escobar afirmou que há hoje uma “guerra dos corredores de conectividade” envolvendo diferentes projetos estratégicos. Entre eles, destacou a Iniciativa Cinturão e Rota, liderada pela China, o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul, que conecta Rússia, Irã e Índia, além da Rota Marítima do Norte, no Ártico russo.
Para o jornalista, o Corredor Norte-Sul é uma das peças centrais da nova arquitetura econômica eurasiática, pois permite contornar o Canal de Suez, sanções ocidentais e o sistema Swift. Ele lembrou que esteve no Irã acompanhando a infraestrutura do projeto, do Mar Cáspio ao Golfo Pérsico e ao porto de Chabahar, no Mar de Omã.
Escobar destacou que a Rússia está envolvida no financiamento de ferrovias dentro do Irã e que a Índia tem interesses importantes em Chabahar. Ao mesmo tempo, afirmou que a China também observa o porto como uma possível extensão de sua rede de portos estratégicos, próxima a Gwadar, no Paquistão.
Irã no centro da disputa
Na avaliação de Escobar, o ataque a infraestruturas iranianas ligadas a rotas ferroviárias e comerciais revela que o conflito não se limita ao Oriente Médio. Ele citou, por exemplo, a ferrovia China-Irã, concluída recentemente, que atravessa Xinjiang, Cazaquistão, Quirguistão, Turcomenistão e chega ao Irã, podendo seguir para a Turquia e a Europa.
Segundo ele, essa rota é considerada estratégica por Pequim. "Para os chineses, este é um corredor-chave", afirmou.
Escobar também declarou que os ataques atingiram trechos relevantes para o Corredor Norte-Sul, o que reforçaria a tese de que Washington e seus aliados buscam impedir a integração física e econômica da Eurásia.
China, Malaca e energia
Outro ponto central da entrevista foi o Estreito de Malaca, por onde passa parte decisiva do comércio energético chinês. Escobar afirmou que Pequim se prepara há décadas para a possibilidade de um bloqueio ou pressão militar dos Estados Unidos nessa região.
Ele citou a diversificação energética chinesa, com petróleo do Cazaquistão, gás do Turcomenistão e de Mianmar, além dos gasodutos russos Força da Sibéria e Força da Sibéria 2. Mesmo assim, afirmou que o petróleo importado do Golfo Pérsico ainda precisa passar por Malaca.
Para Escobar, qualquer tentativa de bloqueio ou apreensão de navios nessa área seria vista por Pequim como uma escalada extremamente grave.
A Rota do Norte e o Ártico
A entrevista também abordou a Rota Marítima do Norte, no Ártico russo, que pode conectar a Ásia à Europa sem passar por rotas sob domínio da Marinha dos Estados Unidos. Escobar destacou que o presidente Vladimir Putin trata o projeto como prioridade federal e questão de segurança nacional.
Diesen observou que a rota oferece vantagem estratégica à Rússia, mas não deve substituir todos os demais corredores. Seu papel, segundo ele, seria ampliar alternativas e reduzir a capacidade de qualquer potência de usar rotas comerciais como arma geopolítica.
Escobar concordou e afirmou que países asiáticos, como China, Índia e Coreia do Sul, demonstram interesse crescente na rota, especialmente após a deterioração das relações entre Rússia e Europa.
Trump e os BRICS
Escobar também criticou Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, ao afirmar que sua administração vê os BRICS sobretudo como ameaça ao dólar. Para o jornalista, Trump não compreende a complexidade do bloco, mas percebe sua tentativa de reduzir a dependência da moeda norte-americana.
Segundo ele, a política externa dos EUA passou a operar por meio de coerção, sanções, intimidação e ataques militares contra países que buscam autonomia estratégica.
Risco de escalada
Na parte final da entrevista, Escobar afirmou que o Irã pode impor custos econômicos aos países envolvidos em sanções ou ataques, inclusive por meio de novas taxas de passagem no Estreito de Ormuz. Ele disse ainda que Teerã não esquecerá o papel dos Emirados Árabes Unidos no alinhamento com Washington e Israel.
Escobar advertiu que uma nova rodada de guerra poderia atingir navios norte-americanos com mísseis e drones. "Se voltarmos à guerra, esses navios serão atacados por mísseis e drones, enxames de mísseis e drones. Não há dúvida", afirmou.
Para o analista, a disputa atual revela uma transição histórica: de uma ordem comandada pelo poder marítimo ocidental para uma arquitetura multipolar baseada em conectividade terrestre, integração eurasiática, novos corredores comerciais e maior autonomia de China, Rússia, Irã, Índia e BRICS.

