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Pepe Escobar diz que cessar-fogo é improvável e vê Irã fortalecido no tabuleiro geopolítico

Jornalista aponta desespero dos Estados Unidos e sustenta que a guerra já alterou o equilíbrio de poder no Oeste da Ásia

Pepe Escobar diz que cessar-fogo é improvável e vê Irã fortalecido no tabuleiro geopolítico (Foto: Brasil247)

247 – Em entrevista à TV 247, transmitida no YouTube neste sábado, o jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar afirmou que as negociações em Islamabad entre representantes dos Estados Unidos e do Irã acontecem em meio a uma tensão extrema e sob condições impostas por Teerã. Na conversa com Leonardo Attuch, Escobar sustentou que o atual processo diplomático foi organizado a partir de exigências iranianas e descreveu o momento como uma inflexão histórica no tabuleiro geopolítico do Oeste da Ásia.

Logo no início da entrevista, Escobar resumiu o clima da negociação em curso com uma imagem contundente. “A gente está no meio do vulcão”, disse. Segundo ele, as conversas começaram em salas separadas, com delegações americana e iraniana discutindo temas técnicos, sobretudo o programa nuclear iraniano e a questão dos mísseis. Para o analista, o simples fato de as partes terem chegado a esse ponto já revela uma mudança relevante na correlação de forças.

Na avaliação de Escobar, a pressão das últimas 24 horas antes do encontro foi intensa e incluiu episódios de ameaça militar direta na região do estreito de Ormuz. Ele relatou que os iranianos teriam advertido sobre a presença de um destróier norte-americano e afirmou que o navio recuou. Ao comentar o episódio, Escobar usou uma de suas expressões mais duras para se referir ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a quem chamou de “orangotango da barbárie”. Para ele, Washington tenta interferir o tempo todo por meio da construção de narrativas e de operações de comunicação, mas esbarra numa realidade estratégica muito mais desfavorável do que admite publicamente.

Escobar diz que os EUA pediram o cessar-fogo

Um dos principais argumentos de Pepe Escobar ao longo da entrevista foi o de que os Estados Unidos não conduzem o processo, mas reagem a uma situação criada no campo de batalha. Segundo ele, “quem pediu o cessar fogo e quem pediu o que a gente tá vendo agora em Islamabad, foram os americanos”. Ainda de acordo com o jornalista, os pedidos teriam sido feitos inicialmente por canais como Catar e Turquia, sem sucesso, até chegarem ao Paquistão.

Na reconstrução apresentada por Escobar, Islamabad assumiu um papel central justamente ao se tornar o intermediário entre Washington e Teerã. Ele descreveu um vaivém de mensagens traduzidas do inglês para o farsi e vice-versa, conduzido pelos paquistaneses, até que se formasse a base mínima para o encontro atual. Em sua leitura, o Paquistão aproveitou a crise para elevar seu peso político internacional e se apresentar como ator indispensável numa negociação de escala global.

O analista também atribuiu papel decisivo à China. Segundo ele, Pequim atuou discretamente nos bastidores, conversando com o Irã e oferecendo respaldo diplomático — e, segundo sua versão, até militar, caso o processo fracassasse. Escobar afirmou que os russos teriam dado sinais semelhantes, numa demonstração de alinhamento estratégico entre Moscou e Pequim em torno da crise.

As condições iranianas para negociar

Ao longo da entrevista, Escobar insistiu que o Irã só aceitou enviar sua cúpula a Islamabad depois de fixar condições objetivas. A primeira, segundo ele, seria o desbloqueio de recursos iranianos retidos no exterior, especialmente valores que estariam em bancos do Catar. A segunda seria a ampliação do cessar-fogo ao Líbano.

Escobar afirmou que esse ponto provocou forte disputa narrativa. Segundo ele, enquanto a Casa Branca tentava negar publicamente que o Líbano estivesse incluído nas discussões, autoridades paquistanesas já haviam indicado o contrário. “Essas duas condições básicas foram fixadas pelo Galibaf até o último minuto”, disse, ao se referir ao chefe da delegação iraniana.

Na leitura do jornalista, a ida da delegação iraniana a Islamabad não decorre de ingenuidade nem de confiança nos Estados Unidos, mas de um cálculo político interno extremamente duro. Ele descreveu o Conselho Supremo de Segurança do Irã como dominado por setores mais duros e disse que houve debate intenso sobre os riscos de negociar após sucessivos ataques sofridos por Teerã em meio a processos diplomáticos anteriores. “Não tinha split nenhum”, declarou, ao rejeitar interpretações, segundo ele difundidas no Ocidente, sobre uma suposta divisão irreconciliável na cúpula iraniana.

Irã fortalecido e nova correlação de forças

A parte mais enfática da entrevista foi dedicada à avaliação de Escobar sobre o resultado estratégico da guerra. Para ele, o Irã saiu fortalecido de forma extraordinária. O jornalista argumentou que uma nação submetida a sanções há 47 anos conseguiu resistir, impor custos severos aos adversários e redefinir o equilíbrio regional.

Escobar foi categórico ao afirmar que o impacto vai muito além do confronto imediato. “Isso vai mudar tudo”, disse. Em outro momento, sustentou que a dimensão da mudança é “estratosférica literalmente” e que o efeito se projeta sobre todo o Sul Global. Em sua interpretação, o Irã consolidou um novo status como potência regional de grande porte, em ascensão para um patamar ainda mais elevado.

Ao defender essa tese, o analista destacou o capital técnico e científico iraniano, a autonomia industrial do país e a capacidade de reconstrução de sua infraestrutura. Citou como exemplo a reconstrução rápida de pontes atingidas e insistiu que a indústria militar iraniana teria demonstrado sofisticação própria. “Tudo made in Irã”, afirmou, ainda que reconhecendo a existência de alguns componentes chineses e russos em determinados sistemas.

Estreito de Ormuz e o debate sobre o pedágio

Outro ponto central da entrevista foi o estreito de Ormuz. Escobar afirmou que o controle iraniano sobre a passagem marítima mais sensível do planeta entrou em nova fase e não voltará ao modelo anterior. Em sua análise, Teerã saiu da guerra em posição de ditar um novo regime de circulação de navios, inclusive com cobrança de pedágio.

Ao explicar esse mecanismo, ele disse que já existe um sistema de análise de informações dos petroleiros por operadores ligados ao IRGC, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, e que o debate interno no Irã agora envolveria a forma de pagamento e a arquitetura jurídica futura. Segundo Escobar, a largura reduzida do estreito e a convenção internacional do mar seriam usados por Teerã para sustentar a legalidade do controle exercido em suas águas territoriais e nas de Omã.

O analista também comentou a possibilidade de que o Irã passe a privilegiar sua moeda nacional ou alternativas associadas ao yuan chinês. Para ele, isso tem implicações diretas na discussão sobre desdolarização e na reorganização financeira da região. Segundo sua avaliação, não se trata apenas de uma disputa militar, mas de um reposicionamento econômico e jurídico com efeitos duradouros.

Petromonarquias, GCC e fissuras no Golfo

Questionado sobre o futuro das petromonarquias árabes, Escobar afirmou que o Conselho de Cooperação do Golfo já está fraturado. Ele desenhou um quadro em que Catar e Omã buscam acomodação com o Irã, o Bahrein estaria enfraquecido, o Kuwait poderia rever seu posicionamento e os Emirados Árabes Unidos viveriam uma rota de colisão mais direta com Teerã.

Para o jornalista, a Arábia Saudita é o grande coringa do processo. Ao comentar a relação entre Riad e Washington, Escobar lembrou um episódio em que Trump, presidente dos Estados Unidos, humilhou publicamente Mohammed bin Salman. “Não existe humilhação mais poderosa do que essa”, disse. Ainda assim, ponderou que os sauditas precisam agir com cautela por causa de seus ativos financeiros concentrados em centros como Nova York e Londres.

Sobre os Emirados, Escobar foi ainda mais duro. Segundo ele, o país já atua, na prática, em hostilidade aberta contra o Irã. Em sua leitura, Dubai também teria sido atingida estruturalmente pela crise, com seu modelo de negócios sob erosão, enquanto Istambul despontaria como alternativa regional. Ao comentar a ascensão da cidade turca, resumiu de forma provocativa: “Quem quer ir para aquele lixo de Dubai? Istambul é outra história”.

O papel do Paquistão na mediação

Um dos trechos mais longos da entrevista foi dedicado ao Paquistão. Escobar sustentou que Islamabad se tornou peça-chave na tentativa de contenção da guerra porque reúne atributos que a tornam especialmente respeitada por Teerã e, ao mesmo tempo, incontornável para Washington.

Ele enfatizou dois fatores: o fato de o Paquistão ser potência nuclear e o de não reconhecer Israel como nação. Na visão de Escobar, isso reduz drasticamente a possibilidade de ações militares israelenses em território paquistanês e transforma o país num ambiente de negociação incomparavelmente mais seguro para a cúpula iraniana.

Ao falar do país, o jornalista também adotou tom pessoal e afetivo. Disse que o norte paquistanês está entre seus lugares preferidos do planeta, elogiou a Karakoram Highway, a região de Karimabad e o vale de Hunza, e descreveu o Baluchistão e as áreas tribais com admiração. Segundo ele, o Paquistão reúne uma riqueza cultural e humana extraordinária, além de um senso de acolhimento muito forte com estrangeiros interessados em sua cultura.

Israel, Líbano e o impasse da guerra

Ao tratar de Israel, Escobar fez uma das análises mais contundentes da entrevista. Para ele, não existe hoje mecanismo político capaz de conter o que chamou de lógica psicopatológica do Estado israelense. “O único jeito de refreá-los é uma derrota militar esmagadora”, afirmou.

Na sua avaliação, se o Irã mantiver os bombardeios por mais algumas semanas, teria condições de comprometer o funcionamento do Estado israelense ao atingir aeroportos, portos, centrais elétricas e centros de inteligência. Escobar mencionou ainda o ataque iraniano nas proximidades de Dimona como uma mensagem de que Teerã teria capacidade de atingir alvos ainda mais sensíveis.

Sobre o Líbano, ele destacou que a repercussão internacional dos ataques foi profundamente negativa, inclusive em partes da Europa e do Sul Global. Segundo o jornalista, a ofensiva ampliou o desgaste de Israel perante a opinião pública internacional e contribuiu para aumentar a crítica interna nos Estados Unidos ao alinhamento automático de Washington com Tel Aviv.

Trump, JD Vance e o movimento Maga

A entrevista também avançou para a política norte-americana. Leonardo Attuch questionou Escobar sobre o papel de JD Vance nas negociações e sobre a crise interna do movimento Maga. Escobar respondeu com cautela sobre o vice-presidente, mas observou que ele pode emergir com novo peso político se conseguir capitalizar o processo diplomático.

Ainda assim, o jornalista insistiu que Vance não decide sozinho. “Ele é vice-presidente. As diretrizes vêm do orangutango”, disse, reiterando sua visão de que Donald Trump continua a ser o centro das decisões, embora esteja, segundo ele, encurralado economicamente e politicamente pela guerra.

Escobar foi além ao associar JD Vance ao universo da Palantir e à influência de Peter Thiel. Na parte mais sombria de sua análise, afirmou que a empresa estaria profundamente integrada ao aparato de segurança dos Estados Unidos e aos sistemas de inteligência utilizados por Israel. “Ele é o herdeiro escolhido pela Palantir”, declarou, ao descrever Vance como figura ainda mais perigosa no longo prazo por sua conexão com o tecnofeudalismo e com a militarização da inteligência artificial.

China, BRICS e a disputa pelo século

Nos minutos finais da entrevista, Escobar voltou à China para sustentar que Pequim operou a crise com enorme precisão estratégica. Ele lembrou que China e Rússia vetaram no Conselho de Segurança da ONU uma resolução que poderia abrir caminho para intervenção no estreito de Ormuz e afirmou que, quase simultaneamente, Pequim começou a convencer Teerã a aceitar uma tentativa de cessar-fogo em posição vantajosa.

Segundo o analista, os chineses também aproveitaram o momento para avançar em outro dossiê sensível: Taiwan. Ao mencionar um encontro entre Xi Jinping e a liderança do Kuomintang, ele disse que Pequim começou a construir um caminho para uma reincorporação pacífica da ilha. Em sua avaliação, trata-se de uma demonstração de como a China consegue agir em múltiplos tabuleiros ao mesmo tempo.

Escobar resumiu a lógica estratégica chinesa com uma expressão do xadrez e do jogo de Go: “Qualquer movimento que você faz você perde”. Para ele, os Estados Unidos foram conduzidos a uma posição em que suas alternativas se estreitaram drasticamente, enquanto China, Rússia e Irã fortalecem uma arquitetura mais ampla de poder no Sul Global.

Ao comentar o próximo encontro dos BRICS, previsto para este ano na Índia, o jornalista demonstrou ceticismo. Para ele, o bloco chega ao momento fragilizado por contradições internas, especialmente depois da entrada de países árabes com agendas conflitantes e do alinhamento do governo indiano com o lado que, em sua leitura, saiu derrotado nessa guerra.

“A guerra que define o século”

No encerramento, Escobar voltou a insistir que nada está garantido. Para ele, o cenário mais positivo seria a continuidade das conversas após consultas internas em Washington e em Teerã. O cenário negativo, por sua vez, seria a retomada plena da guerra caso as exigências iranianas sejam rejeitadas.

Ainda assim, o jornalista deixou claro que considera o Irã preparado para um conflito mais longo do que seus adversários. “Os iranianos se programaram por meses, não por semanas”, afirmou. Em sua visão, os Estados Unidos não teriam preparo real para uma escalada prolongada e poderiam recorrer apenas a operações de efeito midiático para tentar vender uma aparência de controle.

Sua frase final resumiu o sentido que atribui à crise atual. “Essa é a guerra que define o século”, disse, antes de defender um “brinde ao Irã e ao Paquistão”. A fala sintetiza a interpretação geopolítica apresentada ao longo de toda a entrevista: a de que o confronto em curso não se limita a um cessar-fogo eventual, mas pode marcar o início de uma nova fase na disputa entre império, soberania regional e reorganização do poder global.

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