“O império do caos é totalmente incapaz de qualquer acordo”, diz Pepe Escobar sobre crise entre Irã e Estados Unidos
Analista afirma que negociação em Islamabad nasce sob desconfiança, com intervenção decisiva da China e risco concreto de nova escalada no oeste da Ásia
247 – O jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar afirmou que “o império do caos é totalmente incapaz de qualquer acordo” ao analisar, em seu programa Pepe Café, a possibilidade de um cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos. Na avaliação do comentarista, as conversas previstas para Islamabad, no Paquistão, surgem cercadas por desconfiança, incompatibilidades profundas e reiteradas violações em campo, o que torna remota a chance de uma acomodação real no conflito.
A análise foi publicada no YouTube, no episódio intitulado Irã-Império: o cessar-fogo impossível, em que Escobar sustenta que o eventual entendimento diplomático não representa o fim da guerra, mas apenas uma tentativa precária de administrar uma crise que permanece aberta. Ao longo da exposição, ele argumenta que o cenário segue dominado por interesses estratégicos inconciliáveis e por uma disputa mais ampla contra os principais protagonistas da transição para o mundo multipolar.
Islamabad no centro de uma negociação sob suspeita
Pepe Escobar relata que as conversas entre representantes iranianos e americanos poderiam começar em Islamabad a partir de sexta-feira, possivelmente no Hotel Serena, onde, segundo ele, as delegações seriam hospedadas. Mas, longe de interpretar o encontro como sinal de pacificação, o analista insiste que o processo nasce enfraquecido.
Em um dos trechos centrais de sua análise, ele resume sua percepção com pessimismo extremo: “Se fosse para dar de 0 a 10, eu daria 0.5”. Para Escobar, a distância entre as exigências de Teerã e as pretensões de Washington é tão grande que a reunião diplomática pode acabar servindo apenas como intervalo tático antes de uma nova escalada militar.
O comentarista argumenta que o problema não está apenas na mesa de negociação, mas no histórico político e militar que cerca os Estados Unidos e seus aliados na região. Em sua leitura, há uma incapacidade estrutural de respeitar compromissos duradouros, o que esvazia qualquer confiança iraniana num cessar-fogo estável.
China entra no último minuto e muda o jogo
Um dos pontos centrais da análise de Pepe Escobar é o papel desempenhado pela China. Segundo ele, Pequim teria atuado de forma decisiva no último momento para convencer o Irã a aceitar sentar-se novamente à mesa com os americanos.
Escobar afirma ter confirmado essa informação com fontes chinesas e sustenta que o embaixador iraniano em Pequim, Abdol Reza Rahmani Fazli, teria reforçado essa percepção. Segundo o jornalista, os chineses teriam sinalizado diretamente à liderança iraniana que dariam sustentação política à sua posição nas negociações.
Na formulação apresentada por Escobar, a mensagem chinesa foi clara: “Olha, a gente segura vocês, a gente banca a posição de vocês nessas negociações, a gente garante os interesses de vocês”. A partir disso, ele conclui que Pequim passou a ter participação direta no risco político do processo, assumindo o que define como “skin in the game”.
Para o analista, essa intervenção chinesa está diretamente ligada aos interesses energéticos e logísticos de Pequim. Ele lembra que a China recebe diariamente grande volume de petróleo iraniano e descreve uma arquitetura comercial e financeira construída entre os dois países para contornar sanções, o sistema Swift e o petrodólar. Em sua interpretação, o maior ganho chinês com a abertura de uma negociação seria evitar, ao menos temporariamente, um colapso mais profundo no estreito de Ormuz e nas rotas energéticas da Eurásia.
Paquistão é contestado como mediador
Embora Islamabad apareça como sede do encontro, Pepe Escobar contesta frontalmente a ideia de que o Paquistão atue como mediador autônomo. Em vez disso, ele sustenta que o governo paquistanês desempenhou papel subordinado aos interesses da Casa Branca.
No trecho mais incisivo sobre esse ponto, o analista afirma: “O Paquistão foi o moleque de recados dessa história”. Em seguida, menciona uma postagem do primeiro-ministro Shehbaz Sharif que, segundo sua interpretação, teria revelado de forma involuntária a redação prévia do texto pela Casa Branca.
Escobar, que menciona sua longa experiência profissional no Paquistão, reconhece a importância geopolítica do país por ser uma potência nuclear islâmica, vizinha do Irã, parceira estratégica da China e influente no tabuleiro regional. Ainda assim, considera que Teerã jamais aceitaria confiar apenas em Islamabad sem a entrada de Pequim como fiadora política.
Os 10 pontos do Irã e o abismo com Washington
Ao abordar o conteúdo das discussões, Pepe Escobar dá destaque ao que chama de 10 princípios apresentados pelo Irã e transmitidos aos americanos por meio dos paquistaneses. Segundo ele, Teerã deixou claro que aceitar duas semanas de negociações não significa reconhecer o fim da guerra.
Escobar traduz um trecho que atribui ao Conselho Supremo de Segurança do Irã: “Isso não significa que a guerra acabou. O Irã só vai aceitar o fim da guerra se esses princípios forem confirmados em detalhe”.
Na leitura do analista, quase todos esses pontos tendem a ser rejeitados por Washington. Entre eles estariam o compromisso de não agressão, a preservação do controle iraniano sobre o estreito de Ormuz, o reconhecimento do direito ao enriquecimento de urânio, o fim das sanções primárias e secundárias, o encerramento de medidas internacionais contra Teerã, compensações pelos danos sofridos e a retirada das forças americanas do oeste da Ásia.
Escobar argumenta que há um “clash total” entre as partes, inclusive no plano da tradução política e diplomática. Segundo ele, o que os iranianos entendem como soberania e resistência está muito distante daquilo que os americanos enxergam como aceitável. Para o jornalista, essa divergência pode explodir logo no primeiro dia do encontro.
Cessar-fogo frágil e ataques em sequência
Outro eixo da análise é a tese de que o cessar-fogo já teria nascido comprometido. Pepe Escobar afirma que, mesmo após anúncios de trégua, ataques continuaram no Líbano e em Beirute, o que, em sua visão, confirma a precariedade de qualquer acerto.
Em uma das passagens mais fortes do comentário, ele afirma: “O culto da morte nunca faz acordos e nunca faz cessar-fogo”. Para Escobar, o padrão seria o de explorar brechas em compromissos formais para manter ofensivas militares e ampliar a pressão sobre adversários regionais.
O jornalista também sustenta que Irã e Hezbollah já teriam indicado que responderão caso os ataques prossigam. Seu argumento central é que não existe, no momento, um ambiente real de desescalada, mas sim uma pausa instável e violável a qualquer momento.
A leitura de Pepe Escobar sobre os limites militares dos Estados Unidos
Ao longo do programa Pepe Café, o analista também associa o pedido de cessar-fogo a dificuldades operacionais enfrentadas pelos Estados Unidos e seus aliados. Segundo sua leitura, haveria desgaste militar, limitações logísticas e preocupações com os efeitos econômicos de uma guerra prolongada.
Escobar menciona problemas ligados a arsenais, defesa antiaérea, capacidade naval e efeitos potenciais sobre o mercado de petróleo e os bônus do Tesouro americano. Em sua argumentação, esse quadro teria pressionado Washington a buscar uma interrupção temporária da escalada.
Ele sustenta ainda que os objetivos estratégicos anunciados contra o Irã não teriam sido alcançados. Entre esses objetivos, cita a hipótese de mudança de regime, a tentativa de atingir o programa iraniano e a limitação da capacidade de projeção de poder de Teerã. Na avaliação do analista, o resultado teria sido oposto ao pretendido, aprofundando o impasse estratégico.
Guerra maior contra o mundo multipolar
Pepe Escobar insere a crise num quadro geopolítico mais amplo. Para ele, a guerra não pode ser compreendida apenas como um confronto bilateral entre Irã e Estados Unidos ou como uma disputa restrita ao oeste da Ásia. Em sua interpretação, trata-se de uma ofensiva contra os principais polos da ordem multipolar emergente.
No vídeo, ele afirma: “Esta guerra é uma guerra contra os três principais protagonistas da emergência do mundo multipolar, Irã, China e Rússia”. Essa formulação organiza toda a sua leitura estratégica do conflito.
Segundo o analista, o Irã ocupa posição central por controlar fontes de energia e corredores fundamentais de conectividade euroasiática. A China aparece como potência geoeconômica diretamente atingida por qualquer desestabilização prolongada. Já a Rússia seria afetada pelo entrelaçamento entre a guerra no oeste da Ásia e a guerra por procuração da Otan na Ucrânia.
Corredores, Ormuz e a disputa pela integração eurasiática
Pepe Escobar dedica parte importante da análise à disputa por corredores logísticos e energéticos. Ele sustenta que o estreito de Ormuz e as rotas financiadas pela China através do território iraniano se tornaram peças decisivas da disputa global.
Em sua interpretação, há uma “guerra dos corredores de conectividade”, envolvendo de um lado projetos vinculados à integração eurasiática e, de outro, iniciativas patrocinadas por Washington e aliados regionais para reorganizar fluxos comerciais sob outra lógica estratégica.
O analista menciona ainda o bombardeio de um trecho ferroviário iraniano financiado pela China e inserido nas Novas Rotas da Seda. Caso confirmada essa leitura, Escobar entende que se trata de um ataque direto aos interesses comerciais chineses, o que elevaria ainda mais o peso de Pequim na crise.
Um quadro ainda aberto e perigoso
Ao fim de sua análise, Pepe Escobar rejeita qualquer conclusão triunfalista. Embora afirme que os objetivos declarados dos Estados Unidos não foram alcançados, ele adverte que ainda é cedo para falar em derrota definitiva de Washington ou em estabilização regional.
Sua síntese é de perigo prolongado. O jornalista considera que o eventual encontro em Islamabad pode fracassar rapidamente, servir como manobra para ganho de tempo ou simplesmente desmoronar sob o peso das violações em campo e das divergências estratégicas.
Mesmo assim, ele aponta que, no momento, houve um recuo tático diante do risco de uma devastação ainda maior. Em uma das últimas formulações do programa, Escobar afirma que se trata de uma “rendição estratégica da barbárie”, mas faz a ressalva de que isso pode ser apenas temporário.
A conclusão de sua leitura permanece marcada pela incerteza e pela gravidade do momento. Para o analista, a crise está longe de ter sido resolvida, e o futuro imediato do oeste da Ásia dependerá não apenas do que for dito em Islamabad, mas da capacidade — até agora não demonstrada — de transformar promessas frágeis em compromisso político real.

