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Banco Central identifica 36 empresas em desvio bilionário no Banco Master

Autoridade monetária identificou supostos empréstimos fictícios que teriam permitido o desvio de R$ 11,5 bilhões por meio de fundos ligados à Reag

Segurança do lado de fora do Banco Master, após a prisão do acionista controlador do banco, Daniel Vorcaro, em São Paulo - 18 de novembro de 2025 (Foto: REUTERS/ Amanda Perobelli)

247 - O Banco Central identificou indícios de um esquema financeiro envolvendo 36 empresas que teriam sido utilizadas para a concessão de empréstimos supostamente fictícios no Banco Master, permitindo o desvio de R$ 11,5 bilhões. Segundo a apuração, os recursos teriam circulado por uma complexa rede de fundos de investimento administrados pela Reag antes de retornar ao sistema financeiro, em operações que levantaram suspeitas de fraude e lavagem de dinheiro. As informações são do Valor Econômico.

As informações constam de uma comunicação enviada pelo Banco Central ao Ministério Público em 17 de novembro, na véspera da decretação da liquidação extrajudicial do Banco Master.  A relação reúne, em sua maioria, empresas de pequeno porte, muitas delas recém-constituídas, com capital social reduzido e forte concentração no setor da construção civil, embora também apareçam companhias de segmentos como alimentos, hotelaria e comércio exterior.

De acordo com o relatório, parte dessas empresas apresenta características típicas de firmas sem operação efetiva, o que contrasta com os procedimentos tradicionais de concessão de crédito no sistema bancário, que costumam envolver análise detalhada de risco, histórico financeiro e relacionamento comercial. Além disso, o Banco Central destacou o caminho percorrido pelos recursos, considerado atípico e repetido em todos os casos analisados.

Segundo a autoridade monetária, os valores captados pelo Banco Master junto a depositantes, principalmente por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) — muitos deles com garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — teriam sido desviados ao longo de uma cadeia de empréstimos e investimentos. Após saírem do banco, os recursos retornavam como novas aplicações em CDBs, agora em nome de fundos considerados “laranjas”, ligados a integrantes do suposto esquema.

Um dos casos citados é o da Brain Realty Consultoria e Participações, que teria tomado um empréstimo de R$ 449,36 milhões. Após a liberação do crédito, a empresa teria direcionado os recursos principalmente para os fundos D Mais e Bravo, ambos administrados no âmbito da Reag. O Banco Central estima que o valor médio supostamente desviado por empresa que transitou por esses fundos foi de R$ 288 milhões, sendo que o menor aporte identificado foi de R$ 57 milhões.

Os fundos D Mais e Bravo, por sua vez, aplicavam os recursos em outros veículos da própria Reag, onde ocorreria efetivamente o desvio, segundo o relatório. Um dos principais instrumentos citados é o FIDC High Tower, que comprava títulos conhecidos como cártulas do antigo Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), incorporado pelo Banco do Brasil em 2008. Esses papéis, com baixa liquidez, teriam sido adquiridos por valores reduzidos e posteriormente reavaliados nos balanços por montantes muito superiores.

O Banco Central aponta que um conjunto dessas cártulas foi comprado pelo fundo High Tower por cerca de R$ 850 milhões e depois reavaliado para R$ 10,8 bilhões. A diferença de preços teria sido apropriada como lucro pelo suposto esquema. Em decorrência de operações desse tipo, o fundo chegou a informar um retorno anual de mais de 10,5 milhões por cento em 2024, o que resultou em um ganho financeiro de R$ 10,502 bilhões no período, mesmo após amortizações relevantes.

Após o desvio, teria início um processo de lavagem de dinheiro, com sucessivos reinvestimentos em fundos exclusivos ligados à Reag, até que os valores chegassem a beneficiários finais apontados como laranjas. No relatório enviado ao Ministério Público, o Banco Central detalha transferências, coincidência de valores e a sincronização de datas e horários das movimentações. No caso da Brain Realty, o rastreamento indicou que o dinheiro acabou retornando ao Banco Master na forma de aplicação em CDB.

A autoridade monetária destacou ainda seis fundos com participação relevante nessas operações: Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Maia 95 e Anna. A Reag já havia sido mencionada na Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, que investigou o uso de fundos de investimento para ocultação e lavagem de recursos atribuídos ao PCC.

Esse é um dos dois grandes conjuntos de irregularidades comunicados pelo Banco Central ao Ministério Público. Em outro relatório, encaminhado em julho de 2025, o órgão apontou supostas fraudes na venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), envolvendo operações que, segundo as apurações, não existiam. O Banco Central afirma ter identificado ligações entre os dois esquemas, inclusive pedidos de aumento de capital com recursos provenientes de contas consideradas laranjas.

No documento encaminhado ao Ministério Público, o Banco Central solicitou o congelamento de R$ 11,5 bilhões em ativos para tentar recuperar os valores supostamente desviados, com o objetivo de ressarcir credores da massa falida do Banco Master, como o FGC e fundos de pensão de entidades públicas.

Procurada, a Reag afirmou, em nota, que não é alvo da Operação Compliance Zero e declarou que “os fundos mencionados são produtos regulados, auditados e supervisionados pela CVM e pelo Banco Central”, acrescentando que “todos os aportes são obrigatoriamente homologados pelo BC, que checa a origem dos recursos e a capacidade econômica de quem faz o aporte”.

Já a defesa de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, informou que “não foi solicitado o envio de nenhuma das três operações mencionadas (Carbono Oculto, Quasar ou Tank) ao Supremo Tribunal Federal (STF)”. Segundo a nota, “o pedido feito à Justiça teve como único objetivo apurar a procedência de notícias que associavam, de forma indevida, Daniel Vorcaro e o Banco Master a essas operações”, ressaltando que decisões judiciais teriam afirmado não haver relação entre o controlador, o banco e os casos citados.

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