Celso de Mello defende código de conduta no STF e apoia proposta de Fachin
Ex-ministro afirma que regras éticas podem reforçar a confiança pública em tempos de polarização e alerta para riscos à credibilidade do Tribunal
247 – O ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello divulgou uma carta em defesa da criação de um código de conduta para ministros da Corte, com diretrizes éticas sobre a atuação de magistrados.
A informação foi publicada pelo jornal Valor Econômico, que relata que a iniciativa do código é do presidente do STF, ministro Edson Fachin, e vem sendo discutida internamente em meio a um ambiente de tensão e críticas públicas ao Tribunal.
Carta de Celso de Mello elogia Fachin e defende “proteção institucional”
Celso de Mello afirma que a proposta “merece reconhecimento público” por representar uma tentativa institucional de preservar “a integridade moral, o espírito republicano e a respeitabilidade do STF”. Na carta, ele elogia a condução de Fachin, destacando a disposição ao diálogo e a busca de uma solução construída coletivamente.
O ex-ministro sustenta que a autoridade de uma Corte Constitucional não deve se apoiar em atitudes personalistas, mas em procedimentos transparentes e no cumprimento do papel de guardiã da Constituição. Ele escreve que a autoridade de um tribunal constitucional “não se sustenta em protagonismos individuais, mas na força do consenso possível, na transparência dos procedimentos e no estrito cumprimento do dever de guarda da Constituição”.
Ao defender a formalização de regras éticas, Celso de Mello também menciona o cenário político e social do país, ressaltando que o código pode ser um instrumento para fortalecer a confiança da população no sistema de Justiça em “tempos de imensa polarização”.
“Narrativas de desgaste” e risco à credibilidade do Supremo
Um dos trechos centrais da carta é o alerta sobre o impacto de controvérsias recentes envolvendo integrantes do Tribunal. Sem personalizar a crítica, Celso de Mello afirma que episódios desse tipo, quando se tornam combustível para disputas políticas e comunicação agressiva, acabam atingindo não apenas indivíduos, mas a imagem institucional do STF.
O ex-ministro registra: “Quando episódios envolvendo membros da Corte se convertem em combustível para narrativas de desgaste, o que se põe em risco não é a biografia deste ou daquele magistrado, mas a credibilidade, a dignidade, a honorabilidade e a respeitabilidade do próprio Tribunal enquanto instância de contenção, equilíbrio e pacificação constitucional”.
Na mesma linha, Celso de Mello diz ver com preocupação tentativas de desqualificar a iniciativa de Fachin por meio de críticas que ele caracteriza como precipitadas e injustas. Ele classifica esse movimento como uma inversão de lógica que busca enfraquecer a legitimidade do Supremo.
Em outro trecho, defende que a criação do código não tem objetivo de conveniência nem de autoproteção corporativa. Ele escreve: “Quando o Presidente do STF atua para resguardar a integridade moral da Corte, protegendo-lhe a respeitabilidade, não o faz para atender conveniências de ocasião, nem para promover autoproteção corporativa, muito menos para blindar seus magistrados ou outros dignitários, mas para proteger a própria ideia de Justiça constitucional, cuja autoridade repousa — antes de tudo — na confiança pública”.
Críticas ao “menosprezo” e defesa da colegialidade
A carta também critica, de forma direta, aqueles que “menosprezam” a medida e, segundo Celso de Mello, tentam reduzir o debate a palavras de efeito, deslocando o foco do mérito para disputas retóricas. Para ele, esse tipo de reação fragiliza a confiança social no Tribunal e contribui para ampliar a crise de imagem do STF.
Celso de Mello encerra o texto com uma defesa do papel republicano da prudência institucional e da colegialidade. Ele afirma: “Nesse contexto, criticar essa iniciativa como se fosse fragilidade ou manobra é inverter a lógica republicana: a prudência institucional não é concessão, mas dever; a colegialidade não é subserviência, mas forma legítima de preservar, democraticamente, a unidade do Tribunal”.
O debate no STF ganha força após revelações e cresce resistência interna
Segundo o relato do Valor Econômico, a discussão sobre a necessidade de regras para a atuação dos ministros voltou a ganhar força após o jornal O Globo revelar que o ministro Dias Toffoli, relator do caso Master, viajou com o advogado de um dos diretores do banco. Desde então, as críticas à atuação de Toffoli aumentaram, ampliando pressões por parâmetros mais explícitos de conduta.
Ainda conforme a reportagem, a avaliação entre ministros é de que o STF atravessa um momento sensível e que a discussão sobre um código de conduta pode ampliar a exposição do Tribunal e intensificar críticas aos magistrados e à própria Corte. O desafio de Fachin, nesse cenário, é avançar na proposta sem ficar isolado dentro do Supremo.
Uma ala minoritária favorável ao código tem defendido que, se o Tribunal não tratar do tema, ele será tratado pela opinião pública. Essa percepção ajuda a explicar por que a proposta voltou ao centro do debate, mesmo com resistências internas e sem um texto final consolidado.
Fachin diz que não vai impor o código e busca consenso com conversas individuais
O Valor também informa que Fachin vem apostando em conversas individuais com ministros para reduzir resistências. Ao jornal, ele afirmou que não irá empurrar “goela abaixo” um código de conduta.
No esforço de articulação, Fachin se reuniu presencialmente e individualmente com Alexandre de Moraes, Luiz Fux, Nunes Marques, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes. Virtualmente, falou com André Mendonça. Por telefone, tratou do tema com Cármen Lúcia e Dias Toffoli. Ele também foi ao Maranhão, na terça-feira (20), conversar com Flávio Dino.
De acordo com o texto, Cármen Lúcia já teria expressado apoio à ideia. Outros ministros, ainda que em corrente minoritária, estariam abertos à possibilidade, mas querem conhecer os termos do código antes de apoiar formalmente.
A reportagem reproduz, inclusive, a posição cautelosa de um interlocutor: “Acho positiva a ideia, mas não tenho como aderir ao que nunca vi”. A frase reflete a avaliação de que ainda não há um texto pronto que permita endossos públicos, mesmo entre os que veem mérito na iniciativa.
Caso Master e tentativa de reduzir tensões em Brasília
As conversas individuais, segundo o Valor, também abordaram o caso Master e seu impacto sobre o clima interno do Tribunal. A reportagem afirma que Fachin, que estava de férias, teria decidido retornar a Brasília para tentar reduzir tensões e conter desgastes adicionais à imagem da Corte.
O veículo relata que Fachin teria dito a interlocutores que o momento “exige” sua presença na capital federal, justamente para tentar diminuir potenciais efeitos negativos sobre a reputação institucional do STF. A movimentação evidencia como o debate sobre regras de conduta se mistura, na prática, com a necessidade de administrar crises e percepções públicas.
Inspiração alemã e apoio de ex-ministros
O texto do Valor aponta que a ideia de um código de conduta é antiga na agenda de Fachin e tem inspiração no modelo alemão. Entre as diretrizes citadas, estaria a previsão de que juízes divulguem ganhos financeiros com palestras e atividades relacionadas ao setor privado, além de regras para impedir que essas atividades interfiram no trabalho jurisdicional.
O modelo também estabelece, segundo a reportagem, que declarações e condutas de magistrados não podem prejudicar a reputação do Tribunal. Trata-se, portanto, de um conjunto de parâmetros voltado a reforçar a transparência e a prevenir situações que comprometam a imagem institucional.
Além de Celso de Mello, outros ex-integrantes do STF manifestaram apoio à proposta, como Rosa Weber. O Valor registra que Rosa chegou a tentar avançar com iniciativa semelhante durante sua gestão, mas a proposta não prosperou.
Pouco depois de Fachin assumir a presidência do Supremo, em setembro, a Fundação Fernando Henrique Cardoso também teria enviado um documento com recomendações ao Tribunal, entre elas a adoção de um código de conduta. A pressão por regras mais claras, assim, vem de diferentes frentes e tende a continuar no centro do debate público enquanto o STF busca equilibrar sua atuação institucional com a exigência crescente de transparência e autocontenção.


