Credcesta e Master sob suspeita: INSS aponta salto de 2,75 milhões de contratos e “padrão reiterado” de falhas no consignado
Documentos internos indicam risco de danos a aposentados e pensionistas; MPF cobra prioridade para ressarcir vítimas de descontos indevidos
247 – Documentos internos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) apontam uma explosão de contratações associadas ao produto Credcesta — cartão voltado ao chamado “benefício consignado” e ligado ao Banco Master — e descrevem um “padrão reiterado” de desconformidades nas operações, com potencial de causar prejuízos a beneficiários. O instituto afirma que apura a regularidade das adesões e pede “intervenção preventiva” até a conclusão de uma análise completa, diante do risco de danos a aposentados e pensionistas.
A apuração foi revelada em reportagem do Valor Econômico, com base em números consolidados pela Dataprev e em documentos que circularam internamente no INSS. No material descrito, o órgão relata dificuldade para confirmar a conformidade dos contratos e registra discrepâncias relevantes nos volumes atribuídos ao produto, o que levou à solicitação de dados adicionais à Dataprev para ampliar a rastreabilidade das operações.
Explosão de contratos e alerta interno do INSS
Segundo os documentos citados, os contratos ligados ao Credcesta saltaram de 104,8 mil em 2022 para 2,75 milhões em 2024 — alta superior a 2.500% em dois anos. O INSS afirma que investiga se as contratações são regulares e que identificou um padrão de “desconformidades nas operações de crédito consignado associadas ao produto Credcesta”, elevando o risco de danos aos beneficiários e exigindo cautela até a conclusão da apuração.
Os dados descritos não deixam claro se os números incluem apenas o universo federal ou também servidores e aposentados em níveis estaduais e municipais. Especialistas ouvidos na reportagem afirmam que o INSS não teria como acessar bases de Estados e municípios, o que limita a verificação. O próprio instituto também diz não ser possível confirmar se a bandeira do Credcesta era exclusiva do Master ou se havia outras instituições operando com a mesma bandeira. Pessoas próximas ao banco sustentam que o Credcesta sempre foi um produto exclusivo.
Discrepância nos volumes e “ponto de atenção”
Dois executivos experientes do setor de consignado, ouvidos sob condição de anonimato, afirmaram que o Master, via Credcesta, teria participação pequena no consignado do INSS e não teria estrutura — por não contar com rede de agências e depender de correspondentes — para gerar quase 3 milhões de contratos nessa modalidade.
À Folha de S. Paulo, o INSS afirmou que o Master encerrou 2025 com 324.849 contratos ativos relacionados a crédito e benefício consignado, sem detalhar o valor total dos descontos, por variar conforme cada contratação. O instituto disse ainda que não trabalha com o Credcesta e não explicou a discrepância entre as quantidades ao longo dos anos atribuídas ao Master nos registros.
Os dados foram extraídos pela Dataprev e utilizados pela Divisão de Consignação em Benefícios do INSS. Para ampliar a clareza, o instituto solicitou novos dados à Dataprev.
Em outubro, a Diretoria de Benefícios e Relacionamento com o Cidadão do INSS registrou existir um “ponto de atenção” na operação do Credcesta pelo Master. Em documento, a diretora Márcia Eliza de Souza afirmou: "Em dois anos houve acréscimo significativo em relação ao referido cartão". No mesmo registro, consta que não seria possível aferir, com base nas informações apresentadas pela instituição financeira, se havia efetiva observância a limites normativos, com referência a limites do benefício, taxa de juros e potenciais cobranças abusivas.
O que é o “benefício consignado” e por que ele amplia o risco
O INSS permite três modalidades de crédito com desconto em aposentadorias e pensões.
A primeira é o empréstimo consignado tradicional, com valor e prazo definidos e parcelas fixas.
A segunda é o cartão de crédito consignado, que permite saques em dinheiro, com desconto mensal do valor mínimo, enquanto o restante pode cair no rotativo e crescer se não for quitado.
A terceira, mais recente, é o benefício consignado, que também permite saques, pode cair no rotativo, prevê taxas de juros menores e inclui serviços adicionais, como cartão de compras, descontos em farmácia e auxílio-funeral, por exemplo. Por envolver rotativo e pacotes de serviços, a modalidade tende a ampliar a complexidade para o consumidor e, por consequência, a relevância de consentimento inequívoco, transparência de custos e documentação robusta.
Reclamações, suspeitas de falhas estruturais e risco a beneficiários
Entre 2020 e 2024, segundo dados compilados pelo INSS, houve 3.378 reclamações de beneficiários contra o Master registradas na Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Em avaliação descrita nos documentos, o INSS afirmou: "As manifestações de ouvidoria, dados da Senacon e registros em plataformas públicas indicam padrão reiterado de dificuldades na quitação por parte dos aposentados e pensionistas, na solicitação de cancelamento de produtos contratados, cobranças indevidas e reclamações sobre empréstimos não reconhecidos, sugerindo falhas estruturais no cumprimento de normas".
O instituto também aponta um descompasso entre práticas e parâmetros previstos em normas relacionadas à autorização expressa do beneficiário, autenticação biométrica e guarda de documentos. Segundo o órgão, o quadro exige “cautela e ampla apuração” em relação à concessão de crédito consignado, em especial envolvendo o Credcesta.
Origem e expansão do Credcesta: de Estados e municípios ao nível federal
O benefício consignado foi criado por meio do Credcesta, em 2018, por Augusto Lima. A partir de um contrato de exclusividade de 15 anos com o governo da Bahia, firmado na gestão de Rui Costa (PT), o modelo estabeleceu parceria com o Master, de Daniel Vorcaro, e se expandiu pelo país, chegando a 24 Estados e 176 municípios ao fim de 2024, segundo a reportagem.
Inicialmente, o produto era acessível apenas a servidores estaduais e municipais. Em 2022, ainda no governo de Jair Bolsonaro (PL), Augusto Lima apresentou o modelo ao INSS e a modalidade foi levada ao nível federal por meio de uma Medida Provisória, permitindo acesso a aposentados e pensionistas do INSS e, em alguns casos, beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Suspensões, investigação da PF e liquidação do Banco Master
Entre setembro de 2020 e setembro de 2025, o Master operou linhas de consignados do INSS por meio de acordo de cooperação técnica. Quando surgiram denúncias de quadrilha simulando consignados no INSS, o Master foi uma das primeiras instituições a ter o registro suspenso, conforme relata a reportagem.
Em 17 de novembro, Daniel Vorcaro e Augusto Lima foram presos pela Polícia Federal (PF) no âmbito da investigação que apura fraudes na venda de carteiras de crédito para o Banco Regional de Brasília (BRB). A suspeita, segundo o texto-base, é de que teriam organizado um esquema para simular a criação de carteiras sem lastro. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação do Master. O acordo para consignados com o INSS já havia deixado de ser renovado em setembro, o que, na prática, significou o descredenciamento do banco.
O que dizem Master e Pleno
Segundo a assessoria do Master, o consignado do Credcesta passou a ser um assunto tratado pelos liquidantes. O mesmo posicionamento foi expresso pelo banco Pleno, antigo Voiter, instituição que Augusto Lima assumiu e que passou a abrigar o Credcesta com foco em Estados e municípios. Em nota, o Pleno afirmou: "As questões relativas aos consignados do banco Master durante o período mencionado são tratadas pelo liquidante da instituição".
A defesa de Daniel Vorcaro também se manifestou: "O Master sempre atuou em estrita observância às normas e aos procedimentos estabelecidos pelo INSS para a concessão de crédito consignado, incluindo os requisitos de formalização, identificação do contratante e comprovação de consentimento".
MPF recomenda prioridade para ressarcir vítimas de descontos indevidos
No começo deste mês, o Ministério Público Federal recomendou ao INSS e aos liquidantes do Master que priorizem, no pagamento de recursos, aposentados e pensionistas vítimas de descontos indevidos em crédito consignado. Um inquérito civil público instaurado pela Procuradoria da República no Distrito Federal investiga supostas fraudes nesse tipo de crédito, aumentando a pressão para que a apuração administrativa e o processo de liquidação avancem com foco na proteção dos beneficiários.
Com o INSS solicitando novos dados à Dataprev e descrevendo riscos de “falhas estruturais” e “desconformidades reiteradas”, o caso tende a ganhar novos capítulos, tanto no campo regulatório quanto no judicial, especialmente diante do impacto social e financeiro sobre aposentados e pensionistas, que podem ter sua renda comprometida por descontos automáticos cuja regularidade ainda está em investigação.


