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Devolução de bilhões desviados pode ser impasse para delação de Vorcaro

Negociação com PGR e PF deve esbarrar em valores bilionários que ex-banqueiro terá que ressarcir

Foto mostra o banqueiro Daniel Vorcaro na prisão (Foto: Reprodução )

247 - A tentativa de Daniel Vorcaro de firmar um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal (PF) enfrenta um obstáculo central: o montante financeiro que ele terá de devolver. O ex-dono do Banco Master deverá arcar com multas e ressarcimento de valores desviados, cifra que pode alcançar bilhões de reais, tornando a negociação complexa desde o início, informa Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo.

Apenas na venda de carteiras fraudulentas ao Banco Regional de Brasília (BRB), o prejuízo pode chegar a R$ 12,2 bilhões. Integrantes do governo mencionam que o total a ser devolvido poderia alcançar até R$ 60 bilhões, elevando ainda mais a tensão nas tratativas.

Especialistas em acordos de colaboração apontam que, embora a delação em si possa ser rápida no que diz respeito à entrega de informações, a definição dos valores financeiros costuma ser o principal ponto de travamento. Um advogado com experiência nesse tipo de negociação afirma que “delatar terceiros e se livrar de penalidades pode ser fácil e rápido”, mas ressalta que abrir mão do próprio patrimônio é uma questão muito mais delicada.

A experiência mostra que o momento de definir os valores é decisivo. Segundo um defensor, “o Estado quer cobrar mais e os condenados, desembolsar menos dinheiro”. Ele acrescenta que muitas vezes há discordância sobre a real capacidade financeira dos investigados, o que contribui para o bloqueio das negociações.

A situação de Vorcaro é considerada complexa. Diferentemente de casos anteriores, ele é acusado de ter se apropriado diretamente dos recursos desviados, o que pode obrigá-lo a arcar individualmente com todos os custos. Além disso, o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro, o que elimina a possibilidade de dividir responsabilidades com a instituição.

O impasse tende a se intensificar no momento em que autoridades definirem o valor final a ser exigido. Um advogado afirma que “ele não pode ficar com o fruto do crime. Terá que perder praticamente todo o patrimônio. E é aí que a coisa deve se complicar”.

Por outro lado, há dúvidas sobre a capacidade de pagamento do ex-banqueiro. Um empresário que já colaborou com a Justiça avalia que, caso os valores exigidos sejam incompatíveis com sua realidade financeira, o acordo pode não avançar. “Se as autoridades cobrarem algo que ele não pode pagar, não haverá acordo. Ele não vai assinar um compromisso que não poderá cumprir porque, se isso acontecer, perderá todos os benefícios da delação no futuro. Com o agravante de que já terá se autoincriminado”, afirmou. “Ele não é maluco".

Diante desse cenário, uma alternativa cogitada é que Vorcaro ofereça uma delação de grande impacto, envolvendo nomes relevantes, em troca de condições financeiras mais brandas. Um profissional do Direito explica que “se ele ‘entrega’ ministro do STF, cúpula do Legislativo, ministros do governo, um preço menor pode ser aceito”.

Outro fator que pesa na negociação é o perfil do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Com formação acadêmica voltada à recuperação de ativos oriundos de corrupção, ele é visto por especialistas como alguém que tende a exigir valores elevados. Nas palavras de um advogado, Vorcaro terá que “chorar sangue para colocar o dinheiro para dentro” do acordo.

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