Escândalo Master pode derrubar vários nomes da direita, avalia Ricardo Almeida
No Giro das Onze, analista afirmou que revelações sobre Flávio Bolsonaro atingem o bolsonarismo, o Banco Master e Eduardo Bolsonaro
247 - O analista político Ricardo Almeida afirmou, no Giro das Onze desta segunda-feira (18), que as revelações envolvendo Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro, o Banco Master e o financiamento do filme Dark Horse têm potencial para atingir diferentes frentes da direita e da extrema direita ao mesmo tempo.
As informações são do Giro das Onze, programa da TV 247. Durante a entrevista, Almeida comparou o caso a “um jogo de boliche”, em que uma única bola pode derrubar vários pinos, ao avaliar os efeitos políticos das denúncias que envolvem a família Bolsonaro e o Banco Master.
“Eu compo essa denúncia, não é essa denúncia, essa prova, na verdade, como um jogo de boliche, sabe? Tem os pinos ali. Então, tu joga a bola, ela derruba vários boliches, vários pinos ao mesmo tempo”, afirmou Ricardo Almeida.
Segundo ele, o episódio não se restringe a Flávio Bolsonaro. A crise, em sua avaliação, também alcança Eduardo Bolsonaro, que está nos Estados Unidos, além do Banco Master e de estruturas associadas ao conglomerado financeiro.
“É uma denúncia e uma prova muito contundente, que pegou tanto o Flávio Bolsonaro como pegou o irmão lá nos Estados Unidos, como pegou o Banco Master, como pegou no Bank, como pegou, como pegou, como pegou”, disse.
Almeida avaliou que o caso ainda pode ter novos desdobramentos. Para ele, as primeiras revelações não encerram o episódio e tendem a abrir caminho para novas informações. “Eu acredito que o Intercept recém lançou as primeiras, como eles sempre fazem. Então acho que os pinos vão cair aos poucos. Estão caindo os pinos. É uma bomba, na verdade”, declarou.
O analista afirmou que o impacto político da crise deve ser observado dentro do processo de montagem dos palanques estaduais para a eleição. Segundo ele, a campanha presidencial ainda não começou de fato, porque Lula e seus aliados seguem organizando alianças nos estados.
“Não sei se você concorda, o Lula ainda tá montando os palanques estaduais, né? É o que todo mundo fala, alguns já são montados, por exemplo, no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo. No Paraná ainda há uma definição, mas tá bem avançado. Tá difícil em Minas Gerais”, afirmou.
Na avaliação de Almeida, a definição das alianças estaduais será decisiva para medir o tamanho do impacto do escândalo. Ele destacou que, além da disputa presidencial, a eleição para o Congresso será fundamental para o futuro político do país.
“Tem uma coisa também que não se sabe, não se recebe muita notícia, é como é que estão os candidatos a deputados federais e senadores em cada estado”, disse.
Para Ricardo Almeida, as pesquisas eleitorais são relevantes, mas não suficientes para compreender o cenário político. Ele afirmou que parte importante do eleitorado se decide apenas na reta final da campanha, o que dificulta leituras antecipadas.
“Eu acho que pesquisa é importante, mas não é tudo. Mas tem uma coisa que as pesquisas não pegam e as pessoas pouco falam nisso, é que aquele último momento da eleição, ali das vésperas, as pesquisas quase nunca pegam”, declarou.
O analista também defendeu que partidos e dirigentes sejam ouvidos para mapear melhor a situação regional das candidaturas, especialmente no Legislativo. “Eu acho que é importante entrevistar os dirigentes partidários para mostrar como é que tá em cada região, porque acho que é a estratégia fundamental, eleger deputados e senadores”, afirmou.
Durante o programa, Almeida também comentou o cenário latino-americano e disse que há processos de mobilização popular em diferentes países do continente que não costumam receber atenção proporcional na imprensa brasileira. Ele citou Peru, Bolívia, Colômbia, Argentina e Honduras.
Ao tratar do Peru, Almeida destacou a ida de Roberto Sánchez ao segundo turno contra Keiko Fujimori. Segundo ele, o desempenho do candidato de esquerda contrariou pesquisas e provocou reação de setores dominantes do país.
“O candidato da esquerda, que estava em sexto lugar nas pesquisas, foi pro segundo turno. Olha só. Então, não é bom confiar muito em pesquisas. Isso é uma boa lição que a gente pode tirar”, afirmou.
Sobre a Bolívia, Almeida ressaltou que os protestos não devem ser reduzidos à figura de Evo Morales. Para ele, o país tem tradição própria de organização comunitária e mobilização social.
“A Bolívia tem uma tradição histórica, a gente tem que aprender com a Bolívia, de rebeliões comunitárias, dos movimentos sociais. O Evo tem uma parte desse processo, ele não é todo o processo”, disse.
Almeida afirmou ainda que parte da insatisfação boliviana está ligada à perda de direitos e à ampliação do direito à propriedade, com impacto sobre terras indígenas comunitárias. Ele comparou a situação ao debate brasileiro sobre o marco temporal, mas destacou que, na Bolívia, o peso político e social das comunidades indígenas é ainda maior.
Na Argentina, o analista apontou forte desgaste do governo Javier Milei. Segundo ele, a população argentina tem tradição de protestos, mas tende a aguardar o processo eleitoral para expressar mudanças políticas de forma institucional.
“Milei tá com mais de 60% de desaprovação. Mas, como eu te disse, os argentinos costumam protestar, eles protestam nas ruas, principalmente na grande Buenos Aires, mas não só agora. Mas eles esperam o processo eleitoral acontecer”, disse.
Ricardo Almeida também abordou a atuação do movimento Fronteiras Culturais, que reivindica maior diálogo com o Ministério da Cultura. Ele explicou que o grupo trabalha desde regiões de fronteira para promover políticas culturais voltadas à integração entre povos, territórios, biomas e saberes.
“O Brasil é o único país que faz fronteira com 10 países, então ele é estratégico. Então nós criamos esse movimento a partir do Brasil, mas hoje temos gente de vários países fazendo parte, acadêmicos, pesquisadores, coletivos culturais, indígenas, não indígenas e assim por diante”, afirmou.
O analista disse que o movimento prepara uma carta ao Ministério da Cultura para solicitar reunião e esclarecimentos sobre uma proposta apresentada em agosto do ano passado. Segundo ele, o grupo busca colaborar com políticas públicas voltadas às regiões fronteiriças.
“A gente quer fazer parte dessa interlocução, ao menos da interlocução. Não precisamos ser protagonistas, mas nós somos agentes importantes”, declarou.
Ao voltar ao cenário eleitoral brasileiro, Almeida afirmou que o escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro pode reconfigurar a disputa, mas ponderou que ainda há indefinições nos bastidores. Para ele, o impacto dependerá dos próximos desdobramentos, da montagem dos palanques e da capacidade dos partidos de organizar candidaturas competitivas ao Legislativo.
“É uma bomba, na verdade”, resumiu Ricardo Almeida.



