Evangélicos resistem a Flávio Bolsonaro e defendem chapa Tarcísio-Michelle
Lideranças evitam apoio público e veem aliança Tarcísio-Michelle como mais competitiva
247 - O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, tem ampliado sua presença no meio evangélico na tentativa de se consolidar como principal elo do bolsonarismo com esse eleitorado. Apesar do aumento do diálogo e de contatos frequentes com pastores influentes, a movimentação esbarra em uma postura predominante de cautela: há abertura para conversas reservadas, mas resistência a qualquer gesto público que sinalize apoio antecipado.
Segundo o jornal O Globo, lideranças religiosas avaliam que Flávio ainda não reúne densidade política suficiente para liderar o campo conservador em 2026. Essa leitura tem levado parte expressiva do segmento a discutir uma alternativa considerada mais competitiva, formada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) como vice.
Cautela religiosa e limites ao projeto de Flávio
Nos bastidores, pastores relatam que a disposição é preservar o vínculo com o ex-presidente Jair Bolsonaro, sem assumir o custo político de uma sucessão antecipada. A estratégia dominante é manter canais abertos com diferentes atores do bolsonarismo, aguardando um consenso mais amplo antes de qualquer definição.
Flávio tem buscado ampliar sua interlocução participando de eventos religiosos e investindo em contatos diretos com lideranças de alcance nacional, capazes de abrir portas em denominações com forte capilaridade. A expectativa era de que esses diálogos funcionassem como atalhos para redes mais amplas do eleitorado evangélico, o que, até agora, não se concretizou.
Força da alternativa Tarcísio-Michelle
A defesa da chapa Tarcísio-Michelle ganhou força após a atuação conjunta dos dois no Supremo Tribunal Federal em torno do pedido de prisão domiciliar de Bolsonaro. Entre lideranças religiosas, o gesto foi interpretado como sinal de coordenação política e de busca por uma saída sustentável para o grupo.
Interlocutores apontam que a transferência do ex-presidente para a Papuda reforçou a imagem de Michelle como ponte com a base bolsonarista e de Tarcísio como um nome com menor rejeição e maior capacidade de diálogo fora do núcleo mais duro do movimento.
Tentativas de aproximação e respostas frias
Entre as investidas do senador, uma das mais relevantes foi a tentativa de aproximação com o pastor Silas Malafaia. Segundo pessoas informadas sobre o diálogo, Flávio buscou marcar um jantar para estruturar um canal mais direto, mas a iniciativa não avançou. A avaliação é que houve disposição para conversar, mas sem qualquer sinal de endosso.
Em conversa relatada por interlocutores, Malafaia foi direto ao expor sua avaliação eleitoral. “Já disse para ele: você não tem musculatura para enfrentar isso. Se nós queremos vencer e derrotar Lula e PT, o Tarcísio é o nome que tem capilaridade”, afirmou o pastor. Na mesma conversa, ele sustentou que, para o segmento evangélico e o eleitorado conservador, a composição mais viável seria Tarcísio com Michelle Bolsonaro.
Tentativas semelhantes com o pastor Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira, e com lideranças próximas à Universal do Reino de Deus seguiram o mesmo padrão: diálogo aberto, mas sem adesão política.
Apoios discretos e articulações em curso
Diante das dificuldades com caciques religiosos de projeção nacional, aliados afirmam que Flávio passou a operar em duas frentes. Uma delas é insistir na presença junto às igrejas, buscando consolidar sua imagem como interlocutor do bolsonarismo. A outra é estruturar um ambiente próprio em Brasília, apoiado em lideranças mais próximas.
Nesse contexto, o bispo JB Carvalho, da Comunidade das Nações, é apontado como o apoio mais concreto até agora, oferecendo não apenas acolhimento religioso, mas também disposição para ajudar o senador a circular e abrir portas.
Outro nome citado é o do bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, conselheiro espiritual do núcleo de Bolsonaro. A aproximação com Flávio, porém, ainda é inicial.
“Ainda não foi na minha igreja. Combinamos de falar depois do dia 25 de janeiro. Ele é bem-vindo”, disse Rodovalho. O bispo ponderou que o cenário segue aberto e defendeu cautela. “Defendo que caminhamos juntos até encontrar um ponto de equilíbrio e de acordo comum. O segmento pode não se dividir. Está muito cedo para declarar apoio”, concluiu.


