Executivo investigado por suspeita de lavagem ligada ao PCC representou fundo em negócio de irmãos de Toffoli no resort Tayayá
Documentos da Junta Comercial do Paraná indicam que Silvano Gersztel assinou por fundo da Reag que comprou parte da fatia de familiares do ministro
247 — Um executivo ligado à antiga cúpula da Reag Investimentos, hoje investigado pela Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro para empresários do setor de combustíveis apontados como ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), aparece em documentos societários do resort Tayayá, no Paraná, como representante de um fundo que fez negócio com familiares do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli.
As informações foram reveladas pelo jornal Estado de S. Paulo, com base em documentos da Junta Comercial do Paraná e em apurações sobre a relação entre fundos administrados pela Reag, investidores ligados ao Banco Master e transações envolvendo o empreendimento.
Quem é o executivo citado nas investigações
O executivo é Silvano Gersztel, ex-sócio e ex-executivo da Reag por nove anos. Ele renunciou aos cargos de diretor-presidente (CEO) e diretor financeiro (CFO) de uma administradora de fundos da Reag no início de janeiro, em meio à reestruturação da empresa após a aquisição pela Planner. Segundo o texto, Gersztel era considerado o número 2 de João Carlos Mansur, fundador da Reag, quando a gestora chegou a somar mais de R$ 340 bilhões sob gestão.
Gersztel e Mansur foram alvo de investigações da Polícia Federal e deixaram a empresa durante as apurações, segundo a reportagem. Procurado, Gersztel não foi localizado. A Reag, o ministro Dias Toffoli e seus irmãos, José Eugênio e José Carlos Dias Toffoli, não se manifestaram.
O negócio no Tayayá e a participação do fundo
De acordo com documentos da Junta Comercial do Paraná, Gersztel foi o representante do fundo Arleen na sociedade com empresas dos irmãos e de um primo do ministro. O fundo comprou, em setembro de 2021, metade da participação de R$ 6,6 milhões de José Eugênio e José Carlos Dias Toffoli no resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro (PR).
A reportagem afirma que o fundo Arleen também se tornou formalmente sócio das empresas de familiares do ministro que controlavam o empreendimento. O fundo e a família Toffoli permaneceram sócios de duas empresas até 2025.
Entre fevereiro e julho, ainda segundo o texto, os irmãos e o primo do ministro e o fundo de investimentos se retiraram da sociedade para vender suas participações ao advogado Paulo Humberto Barbosa, que passou a ser o único sócio e dono do empreendimento.
A conexão com os fundos Leal e Arleen e o caso Master
A apuração do jornal Estado de S. Paulo também relaciona os fundos Leal e Arleen — administrados pela Reag — ao pastor Fabiano Zettel, descrito como cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Conforme a reportagem, Zettel é cotista desses fundos, que teriam sido usados para investir R$ 20 milhões no resort.
O texto recorda que, além das investigações ligadas aos fundos e ao setor de combustíveis, a Reag passou a ser investigada por abrigar fundos relacionados a fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master. Esses procedimentos, segundo a reportagem, estão sob relatoria do ministro Dias Toffoli. No mesmo contexto, a reportagem menciona que Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel foram presos e, depois, soltos.
Operação Carbono Oculto e suspeitas sobre lavagem
Gersztel foi alvo de buscas e apreensões na Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025. A Polícia Federal apura o suposto uso de fundos da Reag para lavagem de dinheiro de controladores das distribuidoras de combustíveis Copape e Aster, descritos como suspeitos de ligação com o PCC.
Nas investigações citadas, os donos das empresas, Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, e Mohamad Huissein Murad, são apontados como sonegadores bilionários e estariam foragidos da Justiça. Os fundos teriam sido usados, segundo o texto, para aquisição de usinas, postos e imóveis de alto valor, com o objetivo de ocultar patrimônio e driblar a arrecadação tributária.
Uma das transações mencionadas envolve a aquisição da Usina Itajobi, produtora de etanol em Marapoama (SP), comprada pelo fundo Mabruk II. O Ministério Público sustenta que os investigados teriam utilizado o fundo para não aparecer como proprietários de fato. A reportagem registra que, segundo o MP, a “aquisição das usinas sucroalcooleiras foi instrumentalizada com fundos de investimento” e que executivos da Reag, como Gersztel, “atuam em consonância com as dinâmicas fraudulentas da organização criminosa”.
A Reag nega ligação com atividades ilícitas atribuídas à facção criminosa, segundo a reportagem.
Pressão por impedimento e debate sobre suspeição no STF
As revelações ampliam questionamentos sobre a permanência de Toffoli na relatoria de investigações relacionadas ao Banco Master, em meio a notícias envolvendo negócios de seus familiares com fundos administrados pela Reag e personagens citados no caso.
De acordo com o texto, senadores e deputados federais afirmaram que o ministro deveria se declarar impedido ou suspeito para relatar o inquérito. A reportagem acrescenta que a Procuradoria-Geral da República (PGR) “só deve avaliar a possibilidade provocar uma análise da suspeição de Toffoli na condução do inquérito do Master caso seja provocada” e que, até o momento, não recebeu representação formal com esse objetivo.
O que diz a defesa de Daniel Vorcaro
A reportagem também reproduz a manifestação da defesa de Daniel Vorcaro, que negou envolvimento com os fundos e com o resort: “não tem ‘qualquer conhecimento a respeito dos negócios dos referidos fundos’”. A defesa acrescenta que nunca foi cotista nem “participou de sua gestão” e diz que “não tem nem nunca teve informação ou participação em negócios relacionados ao resort ou quaisquer outros investimentos realizados por esses veículos”.
A nota termina afirmando: “A defesa permanece colaborando com as autoridades e reitera que associações entre essas estruturas e o Sr. Vorcaro não correspondem à realidade”, diz.
Procurados, Dias Toffoli e seus irmãos, José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, não se manifestaram. Silvano Gersztel não foi localizado. A Reag não se manifestou.


