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Feminicídio: 30% das vítimas já haviam denunciado seus agressores

Dados revelam falhas na proteção: mulheres são assassinadas mesmo após registros formais de violência no Brasil

Manifestação contra violência de gênero (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

247 - O Brasil registrou um dado alarmante sobre feminicídio em 2025: três em cada dez mulheres assassinadas já haviam denunciado previamente seus agressores. O levantamento do Ministério da Justiça aponta que 30% das vítimas tinham formalizado queixas contra o autor do crime antes do desfecho fatal, evidenciando dificuldades na interrupção do ciclo de violência e na efetividade das medidas de proteção, informa a Folha de São Paulo.

As informações revelam que o país atingiu o maior número de feminicídios dos últimos dez anos, com 1.561 casos registrados em 2025 — média de quatro mortes por dia. O total supera os 1.501 registros de 2024 e reforça a escalada desse tipo de crime no país.

Histórico de violência antecede mortes

Entre as vítimas que haviam registrado ocorrência, 481 mulheres — o equivalente a 30,8% — procuraram as autoridades antes de serem assassinadas. Em cerca de 20% desses casos, o feminicídio ocorreu em até dois anos após o primeiro registro formal.

Um dos episódios analisados pelo levantamento ilustra a persistência da violência. Uma mulher de 32 anos registrou 19 boletins de ocorrência ao longo de quase seis anos, que resultaram em 15 registros formais de violência doméstica. As agressões começaram em 2019, evoluíram para ameaças e estupro nos anos seguintes, até culminarem no assassinato em 2025, em via pública.

Novo centro busca integrar dados e ações

Os dados serão apresentados com a inauguração do Centro Integrado Mulher Segura, em Brasília, que funcionará no Centro Integrado de Comando e Controle Nacional (CICCN). A estrutura será responsável por reunir e padronizar informações sobre violência contra a mulher em todo o país, conectando unidades estaduais.

O secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, destacou que o feminicídio costuma ser o resultado final de uma sequência de agressões. Segundo ele, o desafio é garantir que a vítima receba proteção efetiva desde o primeiro contato com o sistema.

"Um dos principais desafios é garantir que a mulher que procura ajuda seja, de fato, assistida. Esses dados vão permitir compreender a trajetória da vítima e o comportamento do agressor, para que possamos acompanhar os casos desde o primeiro atendimento até a atuação da rede de proteção", afirmou.

Denúncia não garante proteção, apontam especialistas

Para a pesquisadora Juliana Brandão, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os números mostram que registrar ocorrência não tem sido suficiente para evitar mortes.

"Esses dados mostram que, no período entre a formalização da denúncia e o desfecho letal, nada foi capaz de interromper o ciclo de violência. A rede de proteção, que deveria ter sido mobilizada a partir desse registro, se é que chegou a ser acionada, não deu conta. Em alguns casos, ela sequer foi acionada", disse.

Ela também chama atenção para a subnotificação. "Se 30% registraram, isso significa que 70% não registraram", afirmou.

Segundo a especialista, o enfrentamento da violência exige mais do que incentivar denúncias formais. "Mais do que incentivar o registro, é preciso garantir que os órgãos de proteção, que vão além da segurança pública, estejam conectados e atuem de forma integrada em defesa da vida. Isso envolve acolhimento na saúde, acesso à moradia, emprego e renda", avaliou.

Juliana ainda criticou a repetição de casos em que vítimas procuram ajuda diversas vezes sem obter proteção efetiva. "Quando uma mulher registra 18 boletins de ocorrência, isso mostra que ela não desistiu de pedir ajuda. Ela insistiu. E isso revela que precisava ser ouvida. É inevitável questionar que política é essa que o Estado oferece quando uma mulher precisa bater na mesma porta 18 vezes", afirmou.

"Não é aceitável que, para ser ouvida e ter sua palavra credibilizada, uma mulher precise recorrer tantas vezes ao mesmo Estado, utilizando o mesmo instrumento, até que sua denúncia produza alguma consequência", concluiu.

Perfil das vítimas e dinâmica dos crimes

O levantamento também traça o perfil das vítimas de feminicídio em 2025. Mulheres pardas representam a maioria, com 44,6% dos casos, seguidas por brancas, com 29%. A faixa etária mais atingida é de 25 a 34 anos, responsável por 30% das ocorrências.

A residência é o principal local dos crimes, concentrando 28,4% dos casos, seguida pela via pública, com 11,5%. Armas brancas foram utilizadas em 26,6% dos assassinatos, enquanto armas de fogo aparecem em 10,6%.

Na maioria das situações, o agressor mantinha relação íntima com a vítima: 26,9% eram companheiros e 4,5% ex-companheiros. O domingo é o dia com maior número de ocorrências, e dezembro se destaca como o mês mais crítico.

Novas medidas e monitoramento de agressores

Como resposta ao cenário, o Ministério da Justiça prepara o lançamento do projeto “Alerta Mulher Segura”, que prevê o uso de tornozeleiras eletrônicas para agressores integradas a dispositivos utilizados pelas vítimas.

O projeto-piloto começará em abril nos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Piauí, com a distribuição de 5 mil equipamentos. A proposta é reforçar o cumprimento de medidas cautelares e ampliar o monitoramento em tempo real, com possibilidade de expansão para outras unidades da federação.

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