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Filme sobre Bolsonaro amplia crise e expõe lacunas sobre financiamento, contrato sigiloso e fundo no Texas

Polícia Federal aprofunda apuração após versões contraditórias de Flávio Bolsonaro, aliados e produtores sobre a origem dos recursos de “Dark horse”

Jim Caiezel interpretando Jair Bolsonaro (PL) no filme "Dark Horse", Congresso Nacional ao fundo e Eduardo Bolsonaro (Foto: Reprodução I Agência Câmara)
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247 – As versões contraditórias apresentadas por filhos e aliados de Jair Bolsonaro sobre o financiamento do filme Dark horse, produção dedicada à trajetória do ex-presidente, levaram a Polícia Federal a aprofundar as investigações sobre a origem e o destino dos recursos ligados ao projeto.

As informações foram publicadas pelo jornal O Globo, que revelou uma série de lacunas nas explicações dadas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pelo deputado Mario Frias (PL-SP), por produtores do longa e por empresas associadas à operação financeira.

A principal dúvida dos investigadores é se valores enviados ao Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas e ligado a um advogado de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), foram usados exclusivamente para financiar o filme ou se também serviram para custear despesas do ex-deputado nos Estados Unidos. Eduardo nega essa possibilidade.

O caso ganhou força após a divulgação de mensagens nas quais Flávio Bolsonaro cobrava repasses do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para a conclusão do longa. Inicialmente, o senador negou ter pedido dinheiro ao empresário e classificou a informação como “mentira”. Depois, admitiu ter buscado patrocínio privado e confirmou a existência de um contrato.

"Sim, tinha um contrato", disse Flávio.

Em nova explicação, o senador afirmou à GloboNews que não havia tratado publicamente do tema porque o contrato teria cláusulas de confidencialidade.

Contrato sigiloso e versões divergentes

Uma das principais lacunas está na identificação de quem assinou o contrato e quais eram exatamente as partes envolvidas. Flávio afirmou que Vorcaro “tinha um contrato” e que o banqueiro deixou de pagar parcelas previstas para o filme.

Mario Frias, produtor-executivo do longa, apresentou outra versão. Segundo ele, o contrato não teria sido firmado com Vorcaro nem com o Banco Master, mas com a Entre Investimentos, descrita como uma “pessoa jurídica distinta”.

A explicação deixou sem resposta pontos centrais: quem assinou o documento, qual empresa formalizou os aportes, qual era a estrutura jurídica usada e quais obrigações contratuais foram efetivamente assumidas.

PF apura destino dos recursos

Outra dúvida envolve a transferência efetiva de dinheiro. Enquanto Flávio fala em “parcelas” pagas por Vorcaro e afirma que o financiamento precisou ser complementado por outros investidores, a produtora GoUp, responsável pelo filme, sustenta que conversas e tratativas não significam necessariamente repasse de recursos.

A versão também diverge da apresentada pelo publicitário Thiago Miranda, que afirmou ter intermediado negociações para o filme e disse que Mario Frias buscava investidores para concluir a produção.

Segundo reportagens já publicadas, documentos obtidos apontam transferências de R$ 61 milhões. A produtora, no entanto, não confirma o valor aportado pelo banqueiro.

Fundo no Texas está no centro da investigação

O Havengate Development Fund LP se tornou um dos focos da apuração. Flávio Bolsonaro afirmou que o fundo seria “exclusivo” para financiar o filme. A PF, porém, tenta esclarecer se o longa era de fato o destino final dos recursos ou se a estrutura também foi usada para bancar gastos relacionados à permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

A investigação ganhou novo fôlego após documentos e relatos indicarem possível participação de Eduardo como produtor-executivo do longa.

Relação entre Flávio e Vorcaro levanta novas dúvidas

Outro ponto sensível é a extensão da relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. O senador afirma que conheceu o banqueiro apenas em dezembro de 2024 e que os contatos entre ambos se limitaram ao financiamento do filme.

Em entrevista à CNN Brasil, porém, Flávio admitiu que novos registros podem surgir.

"Pode vazar novas conversas, pode vazar um videozinho mostrando o estúdio que eu posso ter enviado, algum encontro que eu possa ter tido com ele. Foi tudo exclusivamente para tratar somente do filme", afirmou.

Questionado sobre quantas vezes se encontrou com Vorcaro, o senador disse não saber “precisar quantas vezes”, mas afirmou que foram “poucas”.

Emendas parlamentares entram no radar

A crise ganhou uma nova frente após o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, abrir apuração preliminar sobre emendas parlamentares destinadas por deputados bolsonaristas a uma ONG ligada à sócia da produtora responsável pelo filme.

Segundo o STF, deputados do PL destinaram R$ 2,6 milhões em emendas Pix, em 2024, à entidade presidida pela sócia da produtora do longa. Dino vai analisar se houve eventual descumprimento das regras de transparência e rastreabilidade determinadas pela Corte para esse tipo de repasse.

A investigação não trata diretamente do financiamento privado associado a Daniel Vorcaro, mas ampliou as suspeitas sobre a estrutura financeira em torno do filme e sobre uma possível mistura entre recursos públicos e privados em entidades relacionadas à produção.

Investidores ainda não foram detalhados

Os envolvidos afirmam que Dark horse contava com mais de uma dezena de investidores privados. Até agora, porém, não foi divulgada uma lista detalhada dos financiadores, dos valores aportados nem da prestação de contas do projeto.

Flávio Bolsonaro declarou que gostaria que essas informações fossem apresentadas, mas as lacunas permanecem. A ausência de clareza sobre contratos, repasses, fundo no exterior, investidores e eventuais conexões com emendas parlamentares mantém o filme no centro de uma crise política e policial que atinge diretamente o entorno de Jair Bolsonaro.

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